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Copa: Infantino está ‘trumpificando’ a Fifa – 24/06/2026 – Esporte

As pessoas tendem a se lembrar é do prêmio da paz.

No ano passado, durante o outono no Hemisfério Norte, Gianni Infantino, presidente da Fifa, teve uma ideia. O Prêmio Nobel da Paz acabara de ser concedido à venezuelana María Corina Machado. O presidente Donald Trump, que havia feito campanha abertamente para receber o prêmio, ficou irritado.

Infantino, que tentava conquistar Trump como aliado, viu na ocasião uma oportunidade. Por que a Fifa, órgão regulador do futebol internacional, não poderia instituir um prêmio da paz exclusivo? O primeiro homenageado, é claro, foi Trump.

O Prêmio da Paz da Fifa ganhou as manchetes porque elevou a um novo patamar os esforços de Infantino para bajular Trump. Organizada às pressas, a honraria irritou muitos dirigentes do futebol, que afirmaram que ele envergonhara a Fifa e fizera com que a organização fosse vista como partidária. Trump, por sua vez, chamou a condecoração de “verdadeiramente uma das maiores honras da minha vida”.

Mas, embora tenham chamado a atenção, gestos grandiosos como o Prêmio da Paz da Fifa estão ofuscando uma história maior: como a entidade máxima que rege e regulamenta o futebol está se transformando sob a presidência de Infantino. Este não está apenas se esforçando ao máximo para cultivar uma relação com Trump; também está tornando a organização mais parecida com o presidente americano nesse processo.

A ‘trumpificação’

A entidade que rege o futebol mundial deveria licenciar a marca Fifa para hotéis? Sob o comando de Infantino, a instituição vem explorando exatamente esse tipo de negócio —à semelhança do que a família Trump faz há décadas.

E faria sentido a Fifa ter uma criptomoeda própria? Infantino, que este ano participou de uma cúpula sobre criptomoedas em Mar-a-Lago, o refúgio do presidente americano na Flórida, também sondou essa possibilidade —mais uma vez em sintonia com o universo de negócios da família Trump.

A sede da Fifa continua em Zurique, mas a organização abriu recentemente um centro de operações em Miami, cidade onde Infantino mora e de onde atua cada vez mais perto da órbita do presidente.

A Fifa que Infantino assumiu já era marcada por controvérsias antes de sua gestão. Quando ele chegou à presidência, em 2016, a entidade ainda tentava se reerguer depois da investigação de corrupção conduzida pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que expôs décadas de subornos e propinas.

Infantino se apresentou como o dirigente que restauraria a reputação da Fifa —sobretudo nos EUA. Seu objetivo era reposicioná-la como uma entidade alinhada a Washington e deixar para trás a imagem de instituição vista com desconfiança pelas autoridades americanas.

Para isso, porém, aproximou-se de um governo também cercado de escândalos e aderiu à dinâmica transacional de Trump, que se resume a cultivar relações pessoais e institucionais tanto como ativo político quanto como oportunidade de negócio.

Ainda no primeiro mandato, Infantino fez elogios públicos a Trump mesmo durante os processos de impeachment e em meio à queda da popularidade do presidente. A aposta deu resultado. O acesso ao círculo trumpista abriu caminho para uma “visita de cortesia”, como a Fifa descreveu em comunicado, ao procurador-geral dos EUA, autoridade responsável por supervisionar os casos envolvendo a entidade. Ao fim da reunião, Infantino disse estar “totalmente convencido” de que “a credibilidade e a reputação da Fifa estão sendo restauradas ao mais alto nível”.

Ao estilo trumpiano, a proximidade também gerou oportunidades de negócios em potencial. Sob a supervisão de Infantino, a Fifa discutiu com o então secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, um investimento em um serviço de streaming, segundo um alto funcionário da Fifa. Nada se concretizou, mas apenas porque o empreendimento foi suspenso, de acordo com pessoas familiriarizadas com o assunto.

Infantino tentou conquistar o governo do democrata Joe Biden também. Mas os assessores deste mantiveram distância, receosos de se aproximar demais de uma organização manchada por escândalos, segundo nos relataram ex-funcionários do governo.

A relação com Trump rendeu dividendos ainda maiores desde seu retorno à Casa Branca. Infantino ocupou um lugar de destaque entre as autoridades na cerimônia de posse no ano passado e acompanhou o presidente em visitas de Estado ao exterior —elevando o perfil da Fifa e do próprio Infantino.

A era Infantino

Sediada em conjunto pelos EUA, Canadá e México, a Copa do Mundo deste ano pode ser o teste decisivo para saber se toda essa engenharia de relações cultivada por Infantino de fato valeu a pena.

Seus defensores argumentam que ele está tentando garantir que um presidente imprevisível não atrapalhe o torneio. (Um alto dirigente da Fifa chegou a dizer que acreditava na existência de um entendimento informal de que as autoridades americanas evitariam operações de imigração nas imediações dos estádios —algo que foi negado por um porta-voz da entidade.)

Até agora, as controvérsias deste mês —como a recusa dos EUA em permitir a entrada de um árbitro somali e os entraves logísticos enfrentados pela seleção iraniana — não chegaram a ofuscar a competição. Ainda assim, ilustram o grau de perturbação que Trump poderia causar, se quisesse. “Para o sucesso de uma Copa do Mundo, acho absolutamente crucial ter uma relação próxima com o presidente”, Infantino declarou no ano passado.

Mas os efeitos da aproximação entre Trump e Infantino podem sobreviver ao torneio. A Fifa tem regras de neutralidade política, e muitos dirigentes do futebol expressaram a preocupação de que o presidente da entidade tenha extrapolado os limites éticos em sua relação com Trump. Alguns chegaram a apresentar queixas formais. O receio desses críticos é que a era Infantino tenha substituído a corrupção escancarada do passado por problemas de outra natureza.

Autor: Folha

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