A crise migratória que deixou o governo socialista da Espanha na berlinda está colocando em xeque também a organização da Copa do Mundo de 2030, que será sediada pelo país em parceria com Portugal e Marrocos.
Depois que cerca de 80 mil imigrantes cruzaram ilegalmente, no final de julho, as fronteiras do Marrocos com os enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla, no norte da África – segundo o governo de Pedro Sánchez, cerca de 70 mil retornaram voluntariamente –, estão surgindo propostas relativas ao tema.
O partido de esquerda Sumar, que integra a coalizão de Sánchez, apresentou uma proposta no Parlamento espanhol para que o Marrocos não seja mais sede da Copa.
A legenda alegou que seria injusto o país africano obter “o prestígio, os benefícios econômicos e a legitimidade internacional de sediar uma Copa do Mundo” enquanto persistem “dúvidas” sobre seu papel na crise migratória.
De acordo com informações do site Politico, o partido de direita Vox também apresentou uma moção nesse sentido, argumentando que o Marrocos “não é um parceiro leal, nem para a organização de um evento esportivo dessa magnitude, nem para qualquer questão de boa vizinhança”.
“Os acontecimentos gravíssimos ocorridos em Ceuta nos dias 30 e 31 de julho destruíram completamente as bases de confiança e cooperação sobre as quais necessariamente se sustenta uma candidatura conjunta”, afirmou a legenda, que disse que a realização do Mundial com o Marrocos representaria “uma humilhação deliberada à qual a Espanha deve se opor veementemente”.
Embora as duas propostas – que devem ser votadas em setembro – não sejam vinculativas, ou seja, não obrigariam o governo espanhol a tomar medidas caso sejam aprovadas, elas indicam o nível do desgaste gerado pela crise migratória.
Em Portugal, o líder do partido de direita Chega, André Ventura, pediu que o primeiro-ministro Luís Montenegro suspenda a livre circulação com a Espanha, “para garantir que a negligência de um governo não ponha em risco a segurança de todos os outros”, alegando que as medidas de regularização de imigrantes promovidas pelo governo Sánchez geraram “uma invasão migratória”.
Em uma crise paralela, o conservador Partido Popular (PP), que lidera as pesquisas para a eleição espanhola de 2027 – e pode formar coalizão com o Vox para governar –, vem pedindo que a Espanha desista de sediar a Copa caso a final do torneio seja marcada para o Marrocos.
“Uma Copa do Mundo cuja final não seja disputada na Espanha não deveria ser sediada pela Espanha”, afirmou o PP no X, em reação a informações da imprensa britânica de que o presidente da Fifa, Gianni Infantino, teria oferecido ao Marrocos a oportunidade de sediar a final de 2030 em troca de apoio na sua campanha de reeleição.
A federação negou que Infantino tenha feito a promessa e afirmou que a decisão sobre a sede da final ainda não foi tomada.
VEJA TAMBÉM:
-

Trump defende presidente da Fifa em meio à pressão por sua saída
-

Trump diz que EUA viraram “um país do futebol” e sugere sediar outro Mundial
Especialista diz que 2030 pode ser decisivo para o futuro das Copas em vários países
A Copa de 2030 terá partidas de abertura no Uruguai, na Argentina e no Paraguai, em uma homenagem ao centenário do torneio. Em 1930, a primeira edição foi sediada pelo Uruguai, que fez a final contra a Argentina. Depois das partidas de abertura na América do Sul, o Mundial seguirá para Espanha, Portugal e Marrocos.
A edição de 2030 ocorrerá depois de a primeira experiência de sediar a Copa em três países, em 2026, ter seu espírito de cooperação comprometido pelas disputas tarifárias e diplomáticas dos Estados Unidos com México e Canadá.
Defensores do modelo afirmam que ele ajuda a amenizar os custos para os organizadores e se tornou ainda mais necessário depois que a Fifa expandiu o Mundial: a Copa deste ano foi a primeira com 48 times, o que exigiu mais estádios por aumentar o número de partidas de 64 para 104. A Fifa estuda elevar o número de seleções participantes para 64 já em 2030.
Em entrevista à Gazeta do Povo, Rodolfo Coelho Prates, professor do curso de ciências econômicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), disse que, devido aos elevados custos já assumidos, aos interesses econômicos e diplomáticos dos três países e ao fato de que haverá quatro anos “para questões migratórias e outras tensões políticas na região se acomodarem”, é pouco provável que a Copa de 2030 deixe de ser sediada por Espanha, Marrocos e Portugal.
“Para inviabilizar o Mundial, seria necessária uma deterioração muito mais profunda e duradoura das relações entre Espanha e Marrocos, envolvendo cooperação migratória, segurança e a questão territorial de Ceuta e Melilla, principalmente em momentos mais próximos da realização da Copa”, argumentou o analista.
“O risco mais imediato é a crise afetar a distribuição dos jogos e, principalmente, a escolha da sede da final, disputada politicamente por Espanha e Marrocos”, projetou.
Prates afirmou que a Copa de 2026 mostrou que países com divergências momentâneas podem organizar juntos um Mundial, “pois os interesses econômicos são maiores”, mas disse que a experiência de 2030 pode ser decisiva para o futuro das Copas com sedes em vários países.
“Se funcionar bem, poderá demonstrar que uma Copa pode inclusive integrar Europa e África. Se as disputas migratórias, territoriais e políticas contaminarem a organização, provavelmente servirá de argumento para que a Fifa volte a privilegiar um único anfitrião ou grupos de países com integração econômica, institucional e geopolítica muito elevada”, afirmou o analista.
A Copa de 2034 terá sede única, na Arábia Saudita. Para 2038, candidaturas conjuntas de França e Alemanha e dos Estados Unidos sem parcerias com países vizinhos (como fizeram em 1994) estão sendo especuladas.
Autor: Gazeta do Povo








.gif)












