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Desigualdade no trabalho amplia sobrecarga nas mulheres – 15/06/2026 – Equilíbrio

A arquiteta paulistana Tatiana Fló Cosenza, 43, teve que passar por situações de esgotamento para conseguir melhorar sua relação com o trabalho. Na primeira, há mais de 20 anos, ela desmaiou enquanto dirigia na estrada. Seu carro foi parar embaixo de um ônibus.

A última foi no início da pandemia, quando seu chefe a mandou participar de uma reunião presencial enquanto ela estava com Covid. Mesmo doente, foi à reunião. Mas, antes que seu corpo e sua mente pifassem de novo, pediu demissão.

“Eu era cobrada em um nível muito alto. Fiquei em um estado que meu marido não me reconhecia mais, de tão exausta que eu estava”, diz.

Tatiana, que é mãe e lida também com tarefas da casa, hoje tem seu escritório e, com outras duas sócias, coloca limites na rotina. Embora preste mais atenção à sua saúde mental, ainda se sente sobrecarregada —há dias em que conversa com 57 pessoas diferentes no WhatsApp, entre fornecedores, clientes, amigos e família.

Para não enlouquecer, ela diz que deixa de pegar novos projetos, terceiriza alguns trabalhos e, quando para de trabalhar, tenta não olhar mais o celular.

Com um ritmo de trabalho menos pesado, ela conseguiu escapar da realidade de muitas brasileiras. De acordo com o Ministério da Previdência Social, as mulheres representaram 63% dos 546,2 mil casos de afastamento por problemas ligados à saúde mental em 2025.

“Muitas vezes, a mulher, que já é responsável pela maioria dos afazeres domésticos, precisa trabalhar mais no emprego para ter o mesmo reconhecimento de colegas homens. E vai receber menos”, diz a psicóloga organizacional Patrícia Ansarah, fundadora do Instituto Internacional em Segurança Psicológica.

Outras experiências que a mulher vive profissionalmente e geram problemas mentais e emocionais são as interrupções que sofrem e a apropriação de ideias. “Elas também têm que lidar com comentários sobre a aparência e personalidade, situações que são microviolências.”

Patrícia cita a exigência de disponibilidade total, mesmo quando têm que cuidar de filhos ou pais idosos. “Se surge uma reunião às 18 horas, não importa se você precisa buscar seu filho na escola. Se você, responsável por uma função que poderia ser compartilhada com o pai da criança, não participar, pode ficar de fora de um plano de sucessão. Já o homem, se vai buscar o filho, é o herói.”

Essa realidade, afirma Patrícia, aumenta ainda mais a sobrecarga mental e emocional das mulheres, que sequer podem reclamar no trabalho, a não ser com pessoas muito próximas.

Mesmo mais escolarizadas, inclusive com nível superior, as brasileiras ganhavam quase 20% menos do que os homens em 2022, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Outra pesquisa, “Mulheres no Conselho: Uma Perspectiva Global”, realizada pela Deloitte, empresa de auditoria, consultoria e gestão de riscos, apontou que, em 2023, elas ocupavam 23,3% dos assentos de conselhos administrativos em empresas do mundo todo. E apenas 6% eram CEOs.

Não por acaso, oito em cada dez mulheres em cargos de liderança afirmaram que barreiras de gênero dificultaram promoções, segundo estudo deste ano da Todas Group em parceria com Nexus, de pesquisa e inteligência de mercado.

Sem reconhecimento e com dificuldade para trabalhar fora e cuidar da casa e da família, muitas mulheres escolhem movimentações laterais em seus empregos, como diz Ana Paula Vitelli, administradora e autora do livro “A Mulher (In)visível: Vida, Trabalho, Caminhos e Escolhas” (Appris Editora).

A obra, de 2022, é uma revisitação às conversas com 42 mulheres em cargos de gerência que Ana Paula teve em 2012 para sua tese de doutorado na FGV (Fundação Getulio Vargas). Em uma década, ela diz que o mundo passou a falar mais da mulher no mercado de trabalho, mas ainda há muito a avançar.

“Chamo de ‘mulher invisível’ porque parece que ela está em todos os lugares, mas não está em lugar nenhum. Está tentando encontrar onde se encaixa.”

Na pesquisa para o livro, Ana percebeu que algumas mulheres optam por não subir mais na carreira por não conseguir manejar toda a carga imposta a elas. “Elas enfrentam lutas infinitas no trabalho e em casa. Já os homens, não. Entram para fazer carreira e vão percorrer aquele caminho. O mundo corporativo foi construído assim.”

Na tentativa de melhorar o cenário, começaram a valer em maio as mudanças na NR-1 (Norma Regulamentadora 1), que obrigam as empresas a reduzir riscos à saúde mental dos funcionários. “Não é um processo de mudança rápido, mas dá esperança de que vamos melhorar”, afirma Patrícia.

Autor: Folha

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