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Dia Mundial sem Tabaco: como surgiu o sachê de nicotina – 31/05/2026 – Equilíbrio e Saúde

Os sachês de nicotina hoje promovidos pela indústria como alternativa ao cigarro têm origem em um tipo de tabaco sem combustão consumido na Suécia desde o século 18, os chamados snus.

Enquanto o produto tradicional sueco é recheado com tabaco, o chamado “snus branco” costuma ter apenas nicotina, além de aditivos de sabor e aroma. Mas ambos são consumidos da mesma forma, colocados entre a gengiva e o lábio.

Proibida no Brasil, a venda de sachês de nicotina tem crescido no mercado informal e entrou na mira regulatória da Anvisa, que deve decidir se mantém a proibição ou regula o produto, buscado também por quem quer parar de fumar. Estudos apontam, porém, que, além do risco de dependência, os sachês estão associados a maior risco de câncer de boca, câncer de pâncreas e doenças cardiovasculares.

Há ainda mais evidências sobre os riscos para a saúde do snus de tabaco. Uma análise de oito estudos prospectivos com mais de 169 mil participantes, publicada em 2020 no International Journal of Epidemiology, apontou que homens não fumantes que usavam snus apresentavam risco 27% maior de morrer por doença cardiovascular do que aqueles que nunca haviam consumido tabaco.

Quanto as sachês de nicotina, mais recentes, faltam estudos independentes que possam prever seus riscos no longo prazo. O mercado, enquanto isso, cresce de forma acelerada, e as vendas no varejo ultrapassaram 23 bilhões de unidades em 2024, aumento de mais de 50% em relação ao ano anterior, movimentando quase US$ 7 bilhões (R$ 36,4 bilhões) em 2025, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Defensores do produto citam a Suécia como exemplo de redução do tabagismo. No país, o governo afirma que o snus ajudou a reduzir o número de fumantes.

A relação dos suecos com o tabaco oral (ou tabaco sem combustão) é tamanha que o país abriga um museu dedicado ao tema, Snus & Match Museum, localizado no complexo histórico do Skansen, em Estocolmo.

Segundo a narrativa apresentada no museu, o tabaco ganhou popularidade na Europa no século 16 principalmente na forma de rapé (snuff), um pó inalado pelo nariz e então associado à aristocracia. Sua difusão estaria ligada à rainha Catarina de Médici, da França, que teria usado o produto para aliviar fortes dores de cabeça, hábito depois incorporado pelas elites europeias, ainda segundo informações do museu.

Após a Revolução Francesa (1789-1799), o rapé teria perdido prestígio por sua associação com a nobreza. Na Suécia, porém, o tabaco já estava amplamente disseminado àquela altura.

Foi nesse contexto que o consumo começou a migrar do nariz para a boca. Entre os séculos 18 e 19, o snus se popularizou entre trabalhadores, sobretudo homens, e se consolidou como hábito cultural sueco.

A produção também mudou. Antes confeccionado manualmente, o snus passou a ser fabricado em pequenas porções semelhantes a sachês de chá, modelo que mais tarde daria origem aos sachês de nicotina.

A OMS alerta que o snus branco pode ser especialmente atrativo para jovens devido à sua aparência discreta e ao seu sabor adocicado.

Segundo a ativista sueca Helen Stjerna, líder da fundação sem fins lucrativos Uma Geração Sem Tabaco, os sachês brancos começaram a se espalhar na Suécia a partir de 2016, promovidos como uma alternativa supostamente menos prejudicial à saúde.

Em relato à OMS, a ativista afirmou que empresas distribuíram amostras de sachês de nicotina perto de escolas, patrocinaram festivais de música e mantiveram forte presença nas redes sociais.

A percepção de que o produto tem um espaço importante entre jovens é compartilhada pelo comerciante sueco Martin Ragnevad, 56. Ele afirma que o uso dos sachês é comum entre homens e mulheres suecos e que muitos começam ainda na adolescência, apesar da proibição a menores de idade.

Pai de um jovem de 18 anos, ele contou que o filho começou a usar snus aos 16 e tem dificuldade para interromper o consumo. “Ele tentou parar, mas não conseguiu.” Ragnevad avalia que o produto é mais aceitável socialmente por não produzir fumaça, cheiro forte ou cinzas. “As pessoas acham mais limpo”, resumiu.

Ele também relata que muitos jovens já iniciam o uso diretamente com os sachês, ao mesmo tempo em que observa que fumar perdeu espaço devido à maior conscientização sobre os danos do tabaco.

Regulação pelo mundo

O snus tradicional, feito com tabaco, é proibido na União Europeia, com exceção da Suécia, que negociou uma autorização específica ao ingressar no bloco, em 1995. Quanto aos sachês de nicotina, que não contêm folha de tabaco, as regras variam entre países.

Segundo a OMS, cerca de 160 países ainda não têm regulamentação específica sobre o produto; 16 proibiram sua venda; e 32 regulamentaram o comércio de sachês de nicotina, com restrições de sabores e vedação à publicidade, promoção e patrocínio, por exemplo.

O mercado global de sachês de nicotina é dominado por gigantes do tabaco, como Philip Morris International (Zyn), British American Tobacco (VELO) e Altria (on!), que disputam espaço no segmento de produtos sem fumaça.

Na Swedish Match Store, loja que vende apenas tabaco e nicotina oral em Estocolmo, um funcionário afirmou que as vendas de snus estão em transição, com os sachês de nicotina ganhando espaço. Segundo ele, há um fluxo constante de jovens e novos consumidores atraídos pela praticidade e pela variedade de sabores, com destaque para o de menta.

Nas prateleiras, uma caixa de Zyn custa cerca de 39 coroas suecas (aproximadamente R$ 18), enquanto produtos com tabaco variam entre 32 e 99 coroas (de R$ 15 a R$ 46).

A repórter viajou a convite da Philip Morris International

Autor: Folha

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