A Doutrina Donroe, criada pelo presidente americano, Donald Trump, com base na Doutrina Monroe do século XIX e que busca afastar a influência de países de outras regiões do mundo nas Américas, sofreu um duro golpe na sua imagem em agosto.
Representantes de governos de direita latino-americanos, próximos ideologicamente do mandatário dos Estados Unidos, estiveram na China para encontros com autoridades do regime comunista, deixando claro que, apesar da pressão de Trump, a influência de Pequim no continente segue forte.
“A influência da China na região decorre de um amplo conjunto de fatores, especialmente o comércio”, disse Margaret Myers, consultora sênior do programa de Ásia e América Latina do think tank Diálogo Interamericano, em entrevista à agência Bloomberg. “Naturalmente, os líderes tomam decisões políticas levando em conta seu principal parceiro comercial.”
O comércio da China com a América Latina cresceu de cerca de US$ 14 bilhões em 2000 para mais de US$ 500 bilhões em 2024, e em vários países o gigante asiático substituiu os Estados Unidos como principal parceiro comercial.
Em agosto, o presidente da Assembleia Legislativa de El Salvador, Ernesto Castro, aliado do presidente Nayib Bukele, esteve em Pequim e se reuniu com Zhao Leji, presidente do Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional (APN) da China.
“A Assembleia Legislativa de El Salvador está pronta para fortalecer o aprendizado mútuo por meio de intercâmbios com a APN da China, construindo uma ponte para o desenvolvimento das relações bilaterais e o avanço da cooperação prática”, disse Castro na ocasião, segundo informações da agência estatal chinesa Xinhua.
Também no mês passado, o ministro das Relações Exteriores do Chile (país presidido pelo conservador José Antonio Kast), Francisco Pérez Mackenna, fez uma visita de cinco dias à China, onde se reuniu com seu homólogo, Wang Yi, e líderes empresariais locais.
Em agosto, o presidente do Equador, Daniel Noboa, se encontrou no país asiático com o ditador Xi Jinping e retornou com sete acordos de cooperação bilateral assinados, em áreas como segurança, comércio, educação, energia, economia digital e prevenção de riscos, segundo informações da imprensa equatoriana.
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A parceria comercial da China com países latino-americanos governados pela direita foi fonte de atritos recentes com os Estados Unidos.
Na semana passada, o deputado americano Carlos Gimenez, do Partido Republicano, próximo do secretário de Estado, Marco Rubio, publicou um artigo no site The Washington Reporter no qual chamou de “Dragão de Troia” o Porto de Chancay, no Peru, construído e operado por uma estatal chinesa.
Em junho, um tribunal do Peru ordenou que o governo do país supervisionasse o porto, anulando uma decisão de janeiro que isentava o terminal de Chancay de certas formas de supervisão por parte da Ositran, a agência reguladora de infraestrutura peruana.
O embaixador dos EUA no Peru, Bernie Navarro, celebrou a decisão judicial, postando no X emojis de mãos batendo palmas ao compartilhar uma notícia sobre o assunto.
Em 27 de julho, um dia antes de tomar posse, a nova presidente do Peru, a conservadora Keiko Fujimori, se reuniu com um enviado especial do regime chinês, Yin Hejun, e o Porto de Chancay foi um dos temas abordados no encontro.
Em agosto, o embaixador americano na Argentina, Peter Lamelas, se manifestou contra a presença de tecnologia chinesa na região dos campos de gás e petróleo de Vaca Muerta e em outros setores estratégicos do país sul-americano, governado por Javier Milei.
Analista afirma que EUA precisam oferecer alternativas
Em entrevista à Gazeta do Povo, João Alfredo Lopes Nyegray, professor dos cursos de negócios internacionais e relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), disse que o fato de dirigentes de direita e politicamente próximos de Trump continuarem dialogando com Pequim não significa, por si só, uma ruptura com Washington.
“O que está aparecendo na América Latina é uma dissociação cada vez mais clara entre alinhamento político e alinhamento econômico. El Salvador, Chile e Equador podem apoiar os Estados Unidos em temas de segurança, combate ao crime, migração, Venezuela ou defesa hemisférica e, simultaneamente, manter relações comerciais e de investimento com a China”, explicou o analista, que destacou que as interlocuções de agosto com Pequim não significam que a estratégia de Trump tenha fracassado.
“Washington pode obter resultados importantes em segmentos específicos. Um governo latino-americano pode aceitar excluir empresas chinesas de redes de telecomunicações ou de determinados projetos estratégicos e, ao mesmo tempo, continuar exportando commodities para a China”, disse Nyegray.
“O resultado mais provável, portanto, não é uma escolha binária entre Estados Unidos e China, mas uma negociação permanente sobre quais áreas permanecem abertas a Pequim e quais serão reservadas ou aproximadas dos interesses americanos”, afirmou.
Nesse sentido, Nyegray disse que não bastará a Washington exercer pressão: para frear a expansão chinesa nas Américas, precisará recuperar espaço comercial e ajudar no financiamento de infraestrutura, duas áreas em que Pequim exerce influência na região.
No primeiro ponto, os Estados Unidos “podem ampliar acesso ao seu próprio mercado, reduzir barreiras e desenvolver acordos comerciais mais ambiciosos” e buscar compromissos sobre minerais críticos em que os países latino-americanos recebam uma parte maior da industrialização e do valor agregado; e no segundo, mobilizar instrumentos como a International Development Finance Corporation, o Exim Bank, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e capital privado americano para apresentar propostas competitivas, afirmou o analista.
Autor: Gazeta do Povo








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