As relações entre Turquia e Israel, que já vinham se deteriorando nos últimos anos, atingiram o auge da tensão este mês, quando os israelenses realizaram um ataque contra a base aérea síria de Abu al-Duhur, perto da fronteira com o território turco.
Israel alegou que tropas turcas estavam prestes a ser deslocadas para o local, acusação negada por Ancara.
O conflito chama a atenção do Ocidente porque, ao contrário do Irã, do grupo terrorista Hamas em Gaza e do Hezbollah no Líbano – que Israel enfrentou em guerras recentes –, a Turquia é uma aliada do Ocidente, integrante da Otan e abriga armas nucleares americanas no seu território.
Após o ataque, o gabinete do premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, chamou o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, de “tirano antissemita que oprime o seu próprio povo”, devido ao pedido que Ancara fez à Interpol de emitir um mandado de prisão internacional contra o primeiro-ministro. Especialistas avaliam como a Otan reagiria em caso de uma guerra entre os dois países.
Em artigo recente, Purna Lal Chakma, colunista do jornal The Times of Israel, lembrou que o tratado da Otan, que em seu artigo 5 estabelece que um ataque contra um país da aliança militar é considerado uma agressão contra toda a Otan, tem nuances que certamente seriam consideradas.
“O tratado estabelece que cada aliado prestará assistência ao membro atacado adotando ‘as medidas que julgar necessárias’, incluindo o possível uso de força armada. Ele não determina automaticamente que todos os países da Otan declarem guerra”, escreveu.
Chakma também lembrou que o artigo 6 deixa claro que o artigo 5 só pode ser acionado em resposta a ataques aos territórios dos países-membros. “A situação de soldados turcos em solo sírio é diferente. O fato de integrar a Otan não transforma automaticamente em território da aliança qualquer local onde um soldado turco esteja mobilizado”, disse o colunista.
Outra questão a ser considerada é se Erdogan atacaria primeiro, já que a Otan é uma aliança defensiva. “O artigo 5 foi concebido para proteger um aliado contra agressões, e não necessariamente para protegê-lo das consequências de uma guerra que ele próprio ajudou a iniciar”, afirmou Chakma.
Guerra em Gaza e negociações sobre caças americanos elevaram tensões entre Turquia e Israel
O ataque na Síria ocorreu após anos de tensões elevadas entre os governos de Erdogan e de Netanyahu, intensificadas pela guerra entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza, atualmente em cessar-fogo.
Ancara pediu para aderir a uma ação da África do Sul na Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia, na Holanda, que investiga acusações de genocídio na ofensiva de Israel em Gaza, e enviou uma carta às Nações Unidas para solicitar a imposição de um embargo internacional de armas a Israel.
Além disso, Erdogan comparou Netanyahu a Adolf Hitler e cortou o comércio entre os dois países.
Em novembro de 2025, a Procuradoria-Geral de Istambul emitiu mandados de prisão contra 37 israelenses, incluindo Netanyahu, sob acusações de genocídio e crimes contra a humanidade na guerra em Gaza.
Antes da cúpula da Otan realizada em Ancara em julho, as tensões voltaram a crescer. No final de junho, durante um evento em Jerusalém, o ministro israelense de Assuntos da Diáspora, Amichai Chikli, afirmou que “a Turquia de Erdogan e a Síria de [Ahmed] al-Sharaa são agora muito mais preocupantes do que o Irã”.
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“A era do império xiita do Irã, da Síria de [Bashar al-]Assad e do Hezbollah chegou ao fim. O novo eixo é o eixo da [organização radical] Irmandade Muçulmana, composto pela Turquia de Erdogan, pela Síria e pelo Catar”, disse Chikli na ocasião.
Dias depois dessas declarações, Israel reconheceu como genocídio os massacres do povo armênio perpetrados pelos otomanos em 1915, o que revoltou a Turquia.
O ministro das Relações Exteriores turco, Hakan Fidan, elevou ainda mais a retórica, ao afirmar que Israel se tornou um “fardo que a humanidade não pode mais suportar”.
A parceria dos dois países com os Estados Unidos amplia a complexidade da disputa. Em reunião bilateral com Erdogan durante a cúpula da Otan em julho, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que decidirá em breve se venderá caças F-35 para a Turquia, depois de o negócio ter sido vetado pelos Estados Unidos em 2019 porque Ancara havia comprado um sistema de defesa aérea S-400 da Rússia.
A possibilidade dessa negociação se concretizar causa preocupação em Israel: em entrevista à emissora CNN, Netanyahu disse que o governo Erdogan é “um regime contaminado pela Irmandade Muçulmana, que odeia os Estados Unidos”, e que a possível venda dos F-35 “não faz da Turquia um Estado aliado dos Estados Unidos”.
Este mês, o partido conservador Likud, de Netanyahu, colocou uma imagem de IA em que Erdogan aparece ao lado do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, do novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, e do secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, em uma propaganda para a eleição nacional de outubro. “Eles querem que Netanyahu perca; não deixe que eles vençam”, diz a mensagem.
Especialista afirma que troca de farpas interessa a Turquia e Israel
Em entrevista à Gazeta do Povo, Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), disse não acreditar que a disputa entre Erdogan e Netanyahu evoluirá para um conflito direto, apesar de ambos terem agendas para a região que se chocam.
“A Turquia está aproveitando a fraqueza do governo sírio para criar uma presença militar que se torne permanente na região. Ancara quer fazer com a Síria o que esta foi durante a Guerra Fria para os soviéticos, e ainda é para a Rússia”, explicou Moita, citando as metas de Erdogan de “dominar o país por meio de um fantoche”, “esmagar atores curdos que têm muita força” no país vizinho e transformar a Turquia na grande potência da região.
Nesse sentido, o presidente turco acertou este mês uma parceria militar com o Paquistão e com a Arábia Saudita, do primeiro-ministro e príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, com quem havia se desentendido durante muito tempo devido ao assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi no consulado do país árabe em Istambul, em 2018.
Do seu lado, explicou o analista, Israel não quer que a Síria tenha “patronagem” de outro país depois da queda do regime de Assad, no final de 2024. Além disso, “pintar a Síria e a Turquia como uma ameaça à segurança de Israel cria um contexto no qual os israelenses podem se sentir ameaçados e ir às urnas em outubro com medo, e normalmente esse tipo de eleição Netanyahu vence”, acrescentou.
Moita afirmou que Trump deseja que a situação entre Israel e Turquia permaneça como está, com “rivalidade muito forte no campo retórico e não tanto em ações diretas”, e a Europa se preocupa com a disputa por causa da pressão migratória. Dessa forma, caso os discursos se tornem agressivos demais, eles devem intervir para evitar uma escalada militar.
“Não é do interesse de ninguém esse conflito, nem dos próprios dois lados. A validade dos atores como ‘espantalhos políticos’ é muito maior do que como um confronto aberto. E um confronto aberto entre esses dois países, com certeza, iria exaurir ambos, tanto a Turquia quanto Israel, pela capacidade militar que possuem”, afirmou Moita.
Nesse sentido, o especialista projetou que, se houver uma escalada, deverá haver no máximo uma guerra por procuração “nas sombras” entre Turquia e Israel, envolvendo outros agentes, com a Síria sendo o principal palco de enfrentamentos e eventuais ações de sabotagem israelenses.
Autor: Gazeta do Povo








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