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Dizer ‘não’ é ato de resistência, diz psicóloga – 06/07/2026 – Equilíbrio

Alex Kueng entrou para a polícia de Minneapolis (EUA) com o objetivo declarado de ser uma ponte entre a instituição e sua comunidade. Conhecia de perto o que significava não confiar na polícia; homem negro, quatro de seus irmãos adotivos já tinham sido abordados com violência.

Era seu terceiro dia de trabalho quando participou de uma abordagem de rotina e seu colega mais experiente pressionou o joelho na nuca de George Floyd. Kueng obedeceu ao seu colega e segurou as pernas do homem enquanto ele perdia seus batimentos no chão, mesmo que isso significasse ir contra tudo o que acreditava.

Para a médica especialista em psicologia organizacional Sunita Sah, o que aconteceu com o policial não é diferente do que poderia acontecer com qualquer pessoa.

Em seu recém-lançado livro “Ouse Dizer Não”, traduzido no Brasil pela editora Sextante, ela aponta que somos tão condicionados a obedecer que costumamos seguir a “maré” mesmo quando sabemos que não deveríamos, e que dizer “não” –quando fizer sentido– pode ser um ato de resistência.

Ela diz que a ansiedade da crítica direta –a preocupação ou inquietação que sentimos ao sinalizar uma avaliação negativa de outra pessoa para essa mesma pessoa– é uma das forças mais subestimadas do comportamento humano.

“A incapacidade de dizer ‘não’ raramente tem a ver com fraqueza de caráter. Tem a ver com uma pressão que a maioria de nós nunca aprendeu a reconhecer, muito menos a resistir”, afirma.

Na maioria das vezes, Sah diz que falamos ‘sim’ para proteger a imagem da outra pessoa, na ilusão de estarmos sendo gentis. “Mas isso não é gentileza, é uma transferência de custo”, diz. Ou seja, para poupar alguém de um momento de constrangimento, assumimos o dano e deixamos que ele recaia sobre nós ou sobre outros de quem gostamos.

Para os brasileiros, que vivem a cultura de “dar um jeitinho” e valorizam a cordialidade, pode ser especialmente difícil dizer “não”. Para a autora, a cultura pode criar pressão para obedecer e pode estabelecer o preço da desobediência.

Ela afirma que, quanto mais uma cultura recompensa a harmonia, mais uma recusa parece uma afronta pessoal, em vez de uma simples escolha. “Mas mesmo nos EUA e no Reino Unido, países que se orgulham de independência, autonomia e pensamento livre, vejo níveis extremamente altos de conformidade”, diz.

Além da cultura, há certos grupos sociais que enfrentam desafios maiores ao sequer pensar em desobedecer.

No caso de Alex Kueng, um homem que vivenciou a repressão policial e o preconceito durante toda a sua vida, e ainda submetido a uma hierarquia profissional, não seria tão simples simplesmente dizer “não”.

Sah argumenta que existe uma hierarquia da desobediência: “uma ordem social, governada por normas, estereótipos e expectativas, que silenciosamente decide quem tem permissão para se manifestar e quem deve obedecer”. As consequências da desobediência, nesses casos, não são as mesmas para todos.

Isso mostra, segundo ela, que há um certo nível calculado de submissão para a sobrevivência. A diferença entre se render a um comportamento por autopreservação é a consciência de estar fazendo isso por esse motivo, e não simplesmente no modo automático, o que ela considera ser o verdadeiro problema.

Dizer “não” para tudo também não é a saída que Sah propõe. Para ela, o cerne da questão é agir conforme seus próprios valores. Tudo bem dizer “sim” se essa for a sua vontade genuína; ao mesmo tempo que o “não” deve partir da sua própria integridade.

Para saber como reconhecer se está de fato seguindo seus princípios, ela sugere separar valor de moral.

“Uma convicção moral pode parecer uma verdade absoluta e objetiva. Então pergunte a si mesmo claramente: ‘Estou recusando porque isso viola quem eu sou, ou porque meu grupo espera que eu recuse?'” Recusar simplesmente por recusar ou para agradar, complementa, é apenas outra forma de ser controlado.

A desobediência não é para ser impulsiva, mas é uma prática construída a partir de pequenos atos, aponta. Para ela, não é um ato que exige coragem, mas disciplina.

“Quando decidimos que a rebeldia pertence apenas aos corajosos, aos ousados ou aos extraordinários, convenientemente nos isentamos do trabalho”, argumenta. “Você não precisa se tornar alguém mais corajoso. Você precisa se tornar mais quem você já é.”

Autor: Folha

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