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Enchentes no RS: 500 já foram mapeados em saúde mental – 26/05/2026 – Equilíbrio e Saúde

Cerca de 500 pessoas já foram mapeadas por um projeto desenvolvido pelo Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, por meio do Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde).

O objetivo do projeto Recomeçar, iniciado neste ano, é avaliar a saúde mental de pessoas com 16 anos ou mais que tenham sido diretamente afetadas pelas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.

A meta é identificar 10 mil potenciais pacientes nesta primeira fase, que vai até o final do ano. A busca ativa acontece por meio de visitas da equipe do projeto aos municípios gaúchos e também por divulgação na mídia e nas redes sociais.

O processo possui três etapas: pré-triagem online por meio de formulário de interesse; triagem para avaliação de sintomas de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático; e programa de apoio psicológico multidisciplinar.

Dos 500 mapeados até o momento, ao menos 20% iniciaram o tratamento. “Dados iniciais desses cerca de 100 participantes já nos mostram uma redução importante de sintomas”, diz o especialista.

Os impactos na saúde mental associados a experiências traumáticas podem permanecer por anos. No Rio Grande do Sul, há pessoas que ainda estão fora das suas casas e sem moradia definitiva; outras foram demitidas dos seus empregos e precisam reconstruir a carreira profissional.

“Mesmo dois anos depois, vemos muita gente com lembranças ou consequências do ponto de vista da saúde emocional vinculadas ao evento de 2024. E houve enchente no Rio Grande do Sul também em 2025, ainda que não da mesma magnitude”, afirma Christian Kieling, diretor da Unidade de Pesquisa em Saúde Mental do Hospital Moinhos de Vento e professor de psiquiatria da infância e adolescência da Faculdade de Medicina da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

O protocolo utilizado no projeto é o Enfrentando Problemas (EP+), desenvolvido pela Opas (Organização Pan-Americana da Saúde). São feitos sete encontros, todos remotos —para maior abrangência da população—, nos quais são oferecidas ferramentas para manejo do estresse e dos problemas do dia a dia e para melhoria do bem-estar.

“O protocolo é baseado em princípios da terapia cognitivo-comportamental [TCC]. Envolve treinar técnicas de relaxamento, técnicas de resolução de problemas. Questões que para a maior parte da população podem ser simples de resolver se tornam desafiadoras para quem está emocionalmente mais abalado”, explica o psiquiatra.

“Também envolve a busca de apoio social. Pessoas mais deprimidas podem se fechar e não procurar ajuda. Então, auxiliamos no processo de estabelecer vínculos e relações sociais“, completa Kieling.

Os resultados, segundo Kieling, também poderão auxiliar no entendimento da ansiedade climática. Embora não seja classificado como transtorno mental, o quadro é caracterizado por um sofrimento individual derivado da preocupação com o futuro do clima.

“Pode estar relacionada a situações que lembrem o evento climático que a pessoa passou. Pode ser uma notícia na imprensa sobre um desastre climático na Ásia, por exemplo, e isso traz a lembrança”, afirma.

Segundo Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento, a ideia é oferecer um modelo de tratamento psicológico para situações de desastres climáticos que possa apoiar futuras políticas públicas, além de contribuir com dados científicos para o preparo do sistema de saúde brasileiro diante de eventos climáticos extremos.

A repórter viajou a convite do Hospital Moinhos de Vento.

Autor: Folha

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