O aumento da presença de agentes e recursos de inteligência dos Estados Unidos em Cuba ocorre em um momento de crescente pressão sobre o regime cubano e de uma rara contestação interna às reformas econômicas anunciadas pelo governo da ilha, segundo informações divulgadas nesta terça-feira pelo site americano Politico e confirmadas à publicação por duas fontes sob condição de anonimato.
De acordo com o Politico, a administração do presidente Donald Trump reforçou nos últimos meses a atuação de inteligência em Cuba. Uma das fontes afirmou que a medida representa um passo tático que poderia abrir caminho para uma eventual incursão militar americana, embora tenha ressaltado que isso não confirma a existência de planos concretos nesse sentido. Outra pessoa ouvida pela publicação descreveu o movimento como um aumento da presença da CIA na ilha, sem detalhar prazos ou participantes.
A ampliação das atividades ocorre em meio à intensificação da estratégia de Washington para pressionar o regime cubano a promover mudanças profundas ou deixar o poder, segundo informou a agência de notícias EFE.
Nos últimos meses, os Estados Unidos ampliaram sanções econômicas, adotaram medidas contra investidores estrangeiros que atuam em Cuba e restringiram o fornecimento de petróleo à ilha, agravando uma crise econômica já atribuída pelo governo americano a anos de má gestão das autoridades cubanas.
Na segunda-feira, Cuba registrou dois apagões de grandes proporções em menos de 24 horas, elevando para sete o número de blecautes nacionais neste ano.
Ainda segundo o Politico, a escalada incluiu uma viagem do diretor da CIA, John Ratcliffe, a Cuba em maio, quando teria levado uma mensagem de mudança às autoridades da ilha. Dias depois, o Departamento de Justiça dos EUA apresentou acusações criminais contra o ex-ditador cubano Raúl Castro, de 95 anos. Também em maio, dados da plataforma FlightRadar24 indicaram a realização de ao menos 25 voos militares americanos nas proximidades de Cuba para coleta de informações de inteligência.
A administração Trump, especialmente o secretário de Estado Marco Rubio, tem classificado Cuba como uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.
Reformas provocam reação entre setores da esquerda cubana
Paralelamente ao aumento da pressão externa, o regime enfrenta críticas incomuns vindas de setores ligados à própria esquerda cubana após anunciar um pacote de 176 medidas para descentralizar a economia.
Segundo a EFE, as mudanças foram apresentadas pelo governo como “urgentes e necessárias”. No entanto, grupos de militantes, veículos alternativos de esquerda e integrantes do Partido Comunista de Cuba (PCC) passaram a questionar publicamente a direção das reformas.
Em editorial, o site cubano Punto y Aparte afirmou que parte das medidas representa um retorno ao “capitalismo puro e duro”, amplia desigualdades e configura uma rendição da Revolução Cubana aos interesses da nova burguesia e do capital financeiro internacional.
Um documento interno de militantes do Partido Comunista de Cuba, ao qual a EFE teve acesso, afirma que algumas propostas ultrapassam os limites historicamente aceitos pelo socialismo cubano e pede que as transformações sejam debatidas abertamente nas comunidades.
Manifestação semelhante foi feita por Alejandro Sánchez, secretário da União de Jovens Comunistas na Universidade de Havana, que defendeu maior participação popular e criticou um exercício de poder concentrado “somente desde cima”.
Papel de neto de Raúl Castro amplia controvérsia
Outro foco de insatisfação é o protagonismo assumido por Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto e ex-guarda-costas do ex-ditador Raúl Castro, que passou a atuar como interlocutor da parte cubana nos contatos com os Estados Unidos, apesar de não ocupar cargo formal no governo.

O jornalista Michel Torres, apresentador do programa estatal “Con filo”, criticou esse papel em artigo publicado pelo jornal uruguaio Mate Amargo. No texto, acusou Rodríguez Castro de usurpar funções do governo e exercer um papel público para o qual não foi escolhido, além de classificar sua atuação como exemplo de nepotismo.
Em declarações à EFE, Torres defendeu que haja espaço para posições críticas dentro da ilha, desde que a unidade do regime seja preservada. Segundo ele, “o inimigo não está nem no Comitê Central nem no governo cubano: o inimigo está em Miami, em Washington”. Também afirmou que a unidade não deve ser “acrítica”, mas precisa permanecer “monolítica” para evitar, em sua avaliação, o enfraquecimento do processo revolucionário.
Autor: Gazeta do Povo








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