sexta-feira, julho 31, 2026
15.8 C
Pinhais

Idade fisiológica de quem tem HIV é de 13 anos a mais – 31/07/2026 – Equilíbrio e Saúde

O sucesso da terapia antirretroviral, que transformou o HIV de sentença de morte em condição crônica, criou um problema que os sistemas de saúde do mundo ainda não sabem enfrentar: uma geração inteira envelhecendo com o vírus, e com corpos que envelhecem mais rápido do que deveriam.

Até 2040, estima-se que haverá 20,2 milhões de pessoas com 50 anos ou mais vivendo com HIV, 51% de todas as pessoas com o vírus, ante 29% em 2025, aponta relatório de uma comissão da revista The Lancet HIV, formada por mais de 30 pesquisadores de instituições como Yale, Johns Hopkins, Fiocruz e OMS (Organização Mundial da Saúde), divulgado durante o congresso internacional de Aids, que termina nesta sexta (31), no Rio de Janeiro.

A maioria dessas pessoas (96%) estará vivendo em países de baixa ou média renda, como o Brasil, e é fundamental que recebam cuidado integrado e abrangente. Em entrevista à Folha por email, Amy Justice e Keri Althoff, autoras principais do relatório, lembram que, à medida que a prevalência do HIV entre pessoas mais velhas aumenta, a incidência também aumentará.

Um dos achados mais contundentes do relatório é sobre a diferença entre idade cronológica e fisiológica: aos 65 anos, uma pessoa com HIV tem expectativa de sobrevida equivalente a alguém 13,5 anos mais velho (homens) ou 11,6 anos mais velho (mulheres).

Mesmo depois que o HIV é suprimido, essas pessoas são fisiologicamente “mais velhas” que sua idade real, correndo risco de doenças cardiovasculares, hepáticas, renais e câncer mais cedo. Outro método, baseado em “relógios epigenéticos” que estimam a idade biológica a partir de marcadores no DNA, mostra pessoas com HIV com 3,6 a 5,2 anos a mais de idade biológica que a real.

“A idade fisiológica provavelmente é um guia melhor para o manejo clínico do que a idade cronológica”, afirma Justice, ressaltando que, quando a sobrevida restante é inferior a dez anos, uma avaliação geriátrica completa é indicada—e, abaixo de dois anos, o planejamento de fim de vida deve começar.

Para ela, é preciso reconhecer que as pessoas envelhecendo com HIV têm maior risco de morbidade associada ao envelhecimento, e em idades mais precoces e integrar essas evidências aos cuidados. Os principais mecanismos envolvidos são a inflamação crônica e a disfunção imunológica.

A maioria das pessoas com HIV hoje com mais de 50 anos se infectou ainda jovem, nas décadas de 1990 e 2000, quando os protocolos recomendavam esperar a contagem de células CD4 (glóbulos brancos de defesa que coordenam o sistema imunológico) cair antes de iniciar o tratamento, deixando o vírus circular sem controle por mais tempo.

Somam-se a isso os efeitos colaterais de longo prazo dos primeiros esquemas de tratamento —hoje considerados ultrapassados—, que só agora os médicos conseguem mapear com clareza.

Segundo o médico Draurio Barreto, que coordena o programa de HIV/Aids do Ministério da Saúde, esse grupo acumula décadas de uso de um esquema medicamentoso com maior toxicidade. “O grande problema do envelhecimento é que tem gente tratando há mais de 30 anos. Então as pessoas têm problemas de osteoporose, fragilidade óssea e problemas renais”, afirma.

Na ponta da assistência, esse retrato já é rotina. “Cerca de 70% do público é de 50+, em torno de 60% são mulheres idosas, muitas já sequeladas. São pessoas que vivem com HIV há mais de 20, 30, 40 anos”, diz Américo Nunes, presidente do Instituto Vida Nova, ONG que atua na zona leste de São Paulo.

Barreto afirma que, nos últimos dois anos, o ministério ampliou progressivamente o público elegível para migrar a um esquema mais moderno, de duas drogas em comprimido único, hoje estendido a qualquer paciente com carga viral indetectável. Cerca de 500 mil pessoas no país já usam esse novo esquema.

Na experiência de Nunes, o desgaste de décadas de tratamento aparece sobretudo como sequelas motoras e psicossociais.

O relatório trata o comprometimento cognitivo como uma das “síndromes geriátricas” mais comuns nessa população. “As pessoas têm perda de memória. Você conversa, dá uma orientação, daqui a meia hora ela já não se lembra do que foi dito”, relata Nunes. “E tem o medo do abandono, o isolamento, porque nem todos revelam o diagnóstico. Ainda temem o preconceito.”

Para Justice e Althoff, esse é justamente um dos maiores desafios para a próxima década. “Será preciso abordar o estigma associado ao envelhecimento e ao HIV, que pode impedir que pessoas mais velhas acessem os recursos necessários em suas comunidades.”

Nunes concorda: “A gente trabalha isso, empoderando essas pessoas para que, quando sentirem vontade, estejam fortalecidas para falar sobre isso”. Esse cruzamento entre envelhecer e viver com HIV cria, segundo ele, uma camada dupla de discriminação —o que a comissão chama de “estigma composto”. “A gente talvez comece a perceber que essa população vai viver um duplo preconceito”, diz.

Um capítulo do relatório trata da saúde sexual de idosos: 73% das pessoas entre 57 e 64 anos relataram atividade sexual no último ano nos EUA, caindo para 26% entre 75 e 85 anos, mas menos da metade já conversou sobre isso com um médico.

“Os limites de idade para a triagem de HIV precisam ser eliminados, e as pessoas mais velhas precisarão de intervenções de prevenção ao HIV adequadamente adaptadas”, defendem as autoras, já que o rastreamento hoje simplesmente para na faixa dos 49 a 64 anos na maioria dos protocolos mundiais — um padrão associado a diagnóstico tardio em 39 de 40 estudos revisados pela comissão.

A “polifarmácia” é outro problema concreto: 89% das pessoas mais velhas com HIV tomam cinco ou mais medicamentos simultaneamente.

“É preciso ter cuidado para evitar a prescrição desnecessária de medicamentos não relacionados ao HIV entre pessoas envelhecendo com HIV, com consideração cuidadosa das possíveis interações medicamentosas”, alerta Justice. Também é preciso atenção para prevenir o ganho de peso excessivo, com orientações sobre dieta adequada e exercícios físicos.

O relatório dedica atenção a grupos pouco estudados: mulheres, migrantes mais velhos, pessoas trans e não-binárias, povos indígenas e pessoas que já passaram pelo sistema prisional.

A invisibilidade das mulheres mais velhas já aparece nos dados brasileiros, segundo a infectologista Beatriz Grinsztejn, uma das autoras do relatório. “A maior parte dos diagnósticos entre mulheres vem se dando entre mulheres que não estão na idade reprodutiva”, afirma.

Historicamente, a resposta ao HIV foi construída em torno de programas “verticais”, focados só em diagnóstico, tratamento e supressão viral —modelo que salvou milhões de vidas, mas nunca previu uma população envelhecendo dentro dele.

Para Justice e Althoff, ambas as abordagens precisam ser “diagonalizadas”, de modo que as pessoas envelhecendo com HIV tenham um cuidado informado tanto pelas necessidades especiais do HIV como pelas do envelhecimento.

Elas lembram, porém, que envelhecer bem com HIV só é possível com um tratamento antiretroviral eficaz e sustentado, apesar das mudanças no financiamento global do enfrentamento da epidemia de Aids.

A jornalista viajou a convite da IAS (International Aids Society)

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas