Metade dos adultos americanos com menos de 50 anos agora obtém informações sobre saúde e bem-estar de influenciadores ou podcasters, segundo uma análise publicada na quinta-feira (14) pelo Pew Research Center. O relatório, que analisou os perfis de quase 13 mil contas de saúde e bem-estar com pelo menos 100 mil seguidores nas redes sociais, também oferece uma visão de quem exatamente está dando esses conselhos.
Menos de um em cada cinco eram profissionais convencionais, como médicos, dentistas ou enfermeiros. Muitos listavam outra qualificação, descrevendo-se como “coaches” de dieta ou de vida, empreendedores ou pais em suas biografias.
O estudo aponta que essas contas têm alcance vasto: 8% tinham mais de um milhão de seguidores. E cerca de metade dos consumidores desse conteúdo disse que os influenciadores os ajudaram a entender melhor como ser saudáveis.
“Estamos absolutamente subestimando os influenciadores de bem-estar”, diz Mariah Wellman, que estuda comunidades digitais de bem-estar na Universidade Estadual de Michigan, nos EUA. “Eles não apenas moldam mais o que compramos ou vestimos”, afirma, mas também “influenciam nossas escolhas de estilo de vida, o que colocamos em nossos corpos”.
O fato de muitos dos criadores de conteúdo de saúde mais influentes não fazerem parte da medicina convencional não é totalmente surpreendente, diz Rachel Moran, pesquisadora de desinformação em saúde na Universidade de Washington. Na verdade, isso pode ser grande parte de seu apelo.
A confiança nas agências governamentais de saúde vem caindo desde a pandemia, e embora a maioria dos americanos ainda confie nas recomendações de seus médicos, a parcela que diz confiar diminuiu nos últimos anos.
“Coaches” e empreendedores, que representavam quase 50% dos principais influenciadores, conseguem transitar nessa linha tênue, diz Moran. Eles podem alegar experiência profissional em saúde sem serem vistos como parte do “establishment”.
Quase uma em cada cinco contas não dava nenhuma explicação sobre por que estavam qualificadas para postar sobre temas de saúde e bem-estar. Mesmo assim, conseguiram conquistar enormes bases de seguidores em plataformas como Instagram, TikTok e YouTube.
“Eles não precisaram estabelecer esse tipo de credibilidade ou expertise para acumular essas audiências”, afirma Galen Stocking, diretor associado de pesquisa do Pew.
Alguns dos influenciadores com os maiores números de seguidores incluíam Jay Shetty, que treinou como monge e agora posta conselhos de saúde mental; Muneeb Shah, dermatologista que posta sobre cuidados com a pele; e Jen Selter, que posta sobre fitness e lanches saudáveis.
Os pesquisadores encontraram que alguns dos influenciadores citavam suas experiências pessoais, como gerenciar sua própria condição médica ou ser pai ou mãe, como sua principal qualificação.
Wellman afirma que entende por que anedotas pessoais eram tão convincentes. Sua pesquisa anterior encontrou que vulnerabilidade e transparência são fatores cada vez mais importantes nas decisões das pessoas sobre em quem confiar para informações de saúde. Compartilhar sua própria experiência de perda de peso ou diagnóstico de câncer é uma forma rápida de construir confiança.
Mas há perigos em aplicar a experiência pessoal de alguém à sua própria vida, diz Moran.
“A parte da desinformação surge, não necessariamente porque algo não é verdade, mas porque simplesmente não pode ser generalizado.”
Os usuários relataram ouvir sobre uma ampla gama de tópicos: perda de peso, saúde mental, suplementos alimentares, aparência pessoal e mais. Wellman, que estuda esses influenciadores desde 2016, quando o conteúdo era focado principalmente em fitness, disse que isso mostrava o quanto a indústria do bem-estar havia se expandido.
O novo relatório não examinou se as postagens dos influenciadores eram baseadas em evidências. Mas em uma pesquisa de acompanhamento, os pesquisadores apontam que cerca de 20% dos americanos que consomem conteúdo de bem-estar online disseram que as informações eram “extremamente ou muito diferentes” dos conselhos de seus próprios médicos.
Muitos médicos e especialistas em saúde pública estão receosos com a ascensão dos influenciadores de bem-estar, que frequentemente estão por trás de desinformação viral sobre saúde, como a alegação de que protetor solar causa câncer e nicotina pode reverter o Alzheimer.
Alguns médicos tentaram competir online pela confiança e atenção dos usuários de redes sociais, seja criando seu próprio conteúdo explicativo ou desmentindo desinformação de outros criadores de conteúdo.
No mês passado, a Associação Médica Americana lançou um novo podcast, “Health vs. Hype” (Saúde vs. Hype), que visa verificar os fatos sobre “tendências de bem-estar e alegações de saúde de influenciadores que inundam nossos feeds de redes sociais todos os dias”.
Embora alguns médicos tenham encontrado grandes audiências online, eles ainda são minoria.
Pesquisadores de desinformação em saúde são céticos de que encher as redes sociais com mais profissionais médicos seja a resposta. Wellman alerta que eles teriam dificuldade em alcançar pessoas que já não concordam com eles.
Moran afirma que eles também teriam que lidar com uma verdade inconveniente na internet: informações de saúde nuançadas e baseadas em evidências frequentemente não se disseminam tanto quanto a promessa de uma cura milagrosa ou uma anedota pessoal de um influenciador.
“Eles oferecem certeza: ‘Compre este produto, assuma o controle da sua vida desta forma, inscreva-se neste programa meu'”, diz Moran. “A medicina nem sempre pode oferecer isso a você.”
Autor: Folha








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