“Sonhar não custa nada, acho que não afeta ninguém. Sonhar a gente sempre pode.” A frase é de João Fonseca, proferida em uma muito concorrida entrevista à imprensa depois de derrotar Novak Djokovic em cinco sets na Philippe-Chatrier, a quadra central de Roland Garros. O sonho de jogar contra o sérvio —e possivelmente vencê-lo— era antigo. Nesta sexta-feira (29), virou realidade. E agora, aos 19 anos, pela primeira vez nas oitavas de final de um Grand Slam, o carioca deixou no ar um sonho maior. “Mas uma coisa de cada vez.”
A primeira coisa que fez ao terminar o jogo foi pragmática. “Falei com os meus treinadores, eles disseram: desfruta. E eu: caraca, ganhei do Djokovic, o que está acontecendo? Primeira vez na quarta rodada. Tem que desfrutar esses momentos.”
Djokovic, na despedida na rede, disse uma palavra em português. “Ele disse ‘parabéns’ e ‘keep it going, good luck’. Para mim foi um prazer enorme compartilhar a quadra com ele. Ontem foi difícil até de dormir, muitos pensamentos. Foi simplesmente uma honra.”
Sobre a virada, Fonseca foi direto: não acreditava. “Estava difícil jogar contra ele no calor. Ele me destruía: se eu batia forte, a bola voltava mais forte. Se eu levantava, ele fazia ‘drop shot’ e ia agressivo. Eu só fiquei focando ponto a ponto, sem pensar que tinha três sets pela frente. E percebi que ele estava um pouco mais cansado. Isso me deu esperança.”
O quinto set foi o mais duro. Djokovic abriu 3/1 e parecia encaminhado para a vitória. “Eu já tinha chegado até ali, sabia que seria tudo no coração. Tomei a quebra, joguei mal alguns pontos, fiz algumas jogadas precipitadas. Mas sabia que estava fazendo boas devoluções, deixando-o incomodado no game de saque dele. Já faltavam uns sete games, já tinham sido quatro horas de jogo, então eu tinha que entregar tudo. Sabia que não ia vir de bandeja. Tinha que merecer aquela vitória.”
E sobre os três aces finais que fecharam o jogo num momento de extrema pressão: “Nunca tinha feito isso antes. Fiquei superfeliz de poder terminar assim.”
Fonseca também respondeu aos que o subestimaram —com cautela, mas sem deixar passar. “Cada um tem sua opinião, sua personalidade. Se as pessoas não gostam de mim, têm inveja ou algo assim, eu tento ficar o menos possível em rede social vendo o que falam.” E foi além: “Tanto a vitória contra o Prizmic quanto essa vêm de muito trabalho, muita expectativa, muita frustração —será que eu consigo, será que não, será que vou conseguir me manter. Então eu posso dizer às pessoas que me subestimam: acreditem nos seus sonhos, sigam firmes nas coisas que querem fazer na vida, porque os sonhos podem se tornar realidade.”
Sobre a virada técnica no terceiro set, Fonseca explicou. “Comecei a colocar devoluções mais profundas e fui mais agressivo com a margem. Fiquei mais sólido, construindo melhor os pontos. No começo ele fazia dropshot toda vez que era agressivo e comandava bem. Eu precisava ser mais agressivo nas devoluções e no saque também.”
A torcida brasileira, que tomou conta da Philippe-Chatrier, foi lembrada com carinho. “O apoio deles foi fundamental para eu continuar acreditando e continuar lutando. O quinto set foi crucial porque estava pesado para os dois —e eles estavam lá.”
Questionado sobre o desgaste físico, Fonseca foi honesto. “No começo do ano foi muito difícil. Fiz uma ótima pré-temporada, mas na Austrália me lesionei e fiquei sem ritmo. Vieram as dúvidas.” E defendeu sua equipe, frequentemente questionada. “Minha equipe é muito questionada, as pessoas têm um pouco de preconceito com o brasileiro. Mas acredito nos meus treinadores. O mais importante é a convivência no dia a dia.” Para os próximos jogos: “Recuperar o máximo possível e partir com tudo de novo, com o coração.”
Autor: Folha




















