O bem-estar é uma indústria global que movimenta US$ 6,8 trilhões (R$ 38,9 trilhões) ao ano, de acordo com o relatório mais recente do Global Wellness Institute. Em 2029, esse número deve atingir US$ 9,8 trilhões (R$ 56 trilhões) —e o Brasil já é o 11º maior mercado do mundo neste segmento, avaliado em US$ 125 bilhões (R$ 714 bilhões) em 2024.
De skincare a suplementos, são incontáveis os itens por trás dessas cifras que você, provavelmente, também ajuda a aumentar. Mas será que as suas escolhas nesse sentido têm sido conscientes? Em meio a tanta pressão para atingirmos “nossa melhor versão”, nem sempre é fácil diferenciar a necessidade real da empolgação com a “trend” da vez.
Vende-se uma vida feliz
Segundo a consultoria Global Consumer Insights, a indústria do bem-estar pode ser definida como “a busca ativa de atividades, escolhas e estilos de vida que levem a um estado de saúde holística”. Dentro desse universo superdiverso, cabem muitas coisas que já foram testadas e comprovadas pela ciência, a exemplo de se exercitar e meditar para controlar o estresse, ou saberes milenares de saúde —como a medicina ayurveda.
Também cabem rituais e objetos ligados ao misticismo e à religiosidade, além de outras práticas sem embasamento científico que, em alguns casos, podem até ser perigosas. Esses produtos, experiências e práticas têm algo em comum: podem ser transformados em mercadorias e vendidos como o combo para uma vida plena e feliz.
Os números e promessas da indústria do bem-estar vêm crescendo exponencialmente desde a pandemia, quando o “autocuidado” despontou como forma de mitigar as angústias do isolamento. Uma vez que os índices globais sobre saúde mental continuam sendo alarmantes, a indústria continua no lugar certo, na hora certa.
As mulheres são as principais consumidoras desse mercado. E isso não é mera coincidência. Só no Brasil, elas são sete em cada dez pessoas diagnosticadas com depressão e ansiedade, segundo dados do relatório Esgotadas, do Lab Think Olga. Também lideram os rankings de estresse e burnout.
Em busca de um atalho
É neste cenário de esgotamento que muita gente começa a testar várias práticas e produtos que prometem trazer, de forma fácil e rápida, mais qualidade de vida. Segundo a jornalista Rina Raphael, autora de The Gospel of Wellness, a indústria do bem-estar prende as pessoas porque oferece seus possíveis benefícios revestidos de certezas. Também aumenta a sensação de controle e até de pertencimento, o que faz com que ocupe um lugar de “salvação” semelhante, em alguns aspectos, ao da religião.
O mercado de bem-estar também encontrou um ótimo lugar para se proliferar: as redes sociais e seus feeds cercados pela ideia de que devemos estar sempre bem e felizes. Tudo amarrado por uma narrativa que tende a projetar metas para cada vez mais longe do alcance. Ou seja, há sempre algo a melhorar ou ser curado. Resultado? Além de exaustão, sentimos a frustração por não darmos conta das novas obrigações autoimpostas. Como afirmam os escritores e estudiosos Carl Cederström e André Spicer no livro The Wellness Syndrome, o bem-estar se tornou uma obrigação moral.
Sem perder o foco
É evidente que alguns produtos, serviços e práticas anunciados nas redes sociais realmente podem trazer alívio a determinados sintomas e aflições. O problema acontece quando a promessa de resultados fáceis nos afasta de buscar as causas reais dos nossos incômodos, e as soluções efetivas a longo prazo. Afinal, ter uma condição decente de vida, com os direitos básicos assegurados, é o que realmente resulta em bem-estar: segurança, acesso à educação e ao sistema sanitário, condições de trabalho dignas, alimentos nutritivos e acessíveis etc.
Lição de casa
Em meio a tanta dispersão, é preciso tomar cuidado para não gastar tempo e recursos em produtos e tratamentos que, além de não terem comprovação científica consistente, podem não ser indicados a pessoas saudáveis. Alcançar um bem-estar genuíno também pode exigir um questionamento mais profundo sobre o que você acredita que significa qualidade de vida. Ou seja, vale reservar um tempo para sair do piloto automático e pensar o que, seja no trabalho, seja na vida pessoal, tem impedido você de se sentir bem.
E, antes de sair gastando sua grana —e sua saúde—, é essencial pesquisar sobre os benefícios cientificamente comprovados daquela prática e os efeitos colaterais. Na dúvida, consulte profissionais que possam fornecer informação de qualidade sobre o assunto.
Autor: Folha




















