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‘Mãe da internet’ diz que criação a impressiona e assusta – 27/08/2026 – Tec

A internet superou as maiores fantasias sobre o seu potencial, diz Radia Perlman, 74, engenheira que projetou os primeiros protocolos de comunicação usados na então chamada rede mundial de computadores. “Jamais imaginei como a internet mudaria a sociedade —para o bem e para o mal.”

Nos anos 1980, a engenheira escreveu o código do Spanning Tree Protocol, uma das estruturas fundamentais da web. As aplicações iniciais eram o envio de emails e dados sobretudo nas universidades, recordou Perlman em entrevista à Folha. Ela esteve no Brasil nesta terça-feira (26) para refletir sobre a internet atual e do futuro na Febraban Tech, o evento de tecnologia da principal entidade brasileira do setor bancário.

Embora destaque as coisas boas da internet, Perlman afirma que a criação para a qual contribuiu “tornou-se assustadora e horrível”. “Há muita informação disponível, mas a desinformação é infinitamente maior. Ter informação real em um mar de lixo não ajuda muito.”

Para ela, a Wikipédia é um “milagre”. “Pela lógica, deveria estar cheia de pichações e bobagens, mas é uma fonte de informações precisas na maior parte do tempo.”

Perlman também diz que as redes sociais são incríveis, apesar de quase não usá-las. “É ótimo que uma pequena comunidade espalhada pelo mundo mantenha contato facilmente.”

“Por outro lado, uma pessoa furiosa e isolada não ganha espaço gritando em uma esquina, mas, se a internet permite que ela encontre 50 pessoas pelo mundo com o mesmo pensamento, elas reforçam suas crenças e se organizam para cometer atos terroristas”, emendou ela em referência aos massacres escolares articulados nas redes sociais.

O presente era impossível de projetar mesmo nas maiores fantasias dos anos 1970, de acordo com a engenheira. Ela rejeita o título de “mãe da internet”, que recebeu da imprensa americana, sob o argumento de que a internet tem outros componentes cruciais.

“Eu projetei a parte de ‘routing and bridging’ [as pontes de comunicação da rede]. Se fiz um bom trabalho, ninguém nota; deve apenas funcionar”, afirmou Perlman. No Museu da Computação na Califórnia, porém, colegas dela elogiam a elegância da solução matemática encontrada pela pesquisadora, apresentada inicialmente em um poema intitulado “Algorhyme”.

Nos anos 1970, quando a “mãe da internet” era uma das poucas mulheres em um ambiente dominado por homens, seus pares classificaram a ideia como “simples”. Desde 2014, quando ela foi incluída ao Hall da Fama dos Inventores Americanos, passou-se a reconhecer que “a simplicidade era enganosa”. O setor passou a considerar o STP como um dos pilares da infraestrutura da internet.

Segundo Perlman, sua própria carreira começou por acaso. “Nunca fiz nada do tipo. Aprendi a programar porque, na faculdade, cursava uma disciplina de física e o monitor me disse que precisava de um programador.”

“Respondi que não sabia”, recorda. O monitor então respondeu: “Sei disso. Por isso estou convidando você. Não tenho dinheiro para pagar e, se você já soubesse, esperaria receber. Você é inteligente e tenho certeza de que pode aprender”.

Ela aceitou a proposta e diz ter contado, no início, com o apoio do então namorado, que já dominava a linguagem de programação. “Quando aprendi, percebi que era divertido e que eu era boa nisso.” A sorte inicial culminou em uma das trajetórias mais proeminentes do setor: “Tive a sorte de me deparar com o design de protocolos de rede no início das redes de computadores”.

Sobre a disparidade de gênero na tecnologia, Perlman evita centralizar o debate em atritos masculinos ou femininos e prefere focar em comportamentos corporativos. “Na indústria, quase não penso sobre gênero. Tive experiências desagradáveis com bullies, mas eles são desagradáveis com qualquer pessoa que pareça vulnerável, independentemente do gênero”.

“A maioria dos meus colegas foi excelente, mas há quem seja vaidoso, tome o crédito por ideias alheias, chame as ideias dos outros de ‘estúpidas’ e seja irritante. Infelizmente, executivos às vezes os consideram gênios e os promovem”, afirma.

Para a pesquisadora, o problema ultrapassa os rótulos sociais. “Existe o estereótipo de que mulheres são doces e humildes, e homens, agressivos e incômodos. A maioria dos homens com quem trabalhei é excelente, e encontrei mulheres tão desagradáveis e exibidas quanto esses homens”.

Embora considere o progresso lento, Perlman aponta avanços na representatividade do setor. “Ainda há poucas mulheres em cargos técnicos seniores, mas há mais do que quando comecei”, diz ela que, ainda é pesquisadora sênior na Dell.

Autor: Folha

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