As camisas de futebol já não pertencem apenas aos estádios ou às malas dos atletas na Copa do Mundo. As peças conquistaram espaço no guarda-roupa de quem nem sempre acompanha o esporte, impulsionadas pelo blokecore —tendência que incorpora camisas esportivas ao streetwear.
O interesse pelo termo cresce no mundo desde 2022, segundo o Google Trends. Depois de atingir um pico em julho de 2025, as buscas voltam a subir durante o Mundial de 2026. Termos relacionados, como “blokecore fashion” e “blokecore style”, também tiveram aumento nas pesquisas.
O movimento nasceu da estética dos torcedores britânicos nas décadas de 1990 e 2000, marcada por camisas de clubes, jaquetas esportivas, jeans largos e tênis retrô. Hoje, as camisas de futebol vintage são o elemento mais conhecido do blokecore, mas a tendência é mais ampla, afirma Andreia Meneguete, coordenadora da Pós-Graduação em Negócios e Marketing Digital para Moda e Beleza da ESPM-SP.
Nas redes sociais, a hashtag blokecore reúne mais de 62 mil vídeos no TikTok e mais de 186 mil publicações no Instagram. Entre as combinações mais populares estão calças cargo ou wide leg, com modelagem mais folgada, bermudas e saias jeans, além de tênis casuais e botas.
“Esse visual nunca foi criado para ser uma tendência de moda. Era uma forma espontânea de se vestir que, anos depois, foi apropriada pela indústria fashion. Era uma maneira da cultura estar inserida no cotidiano do indivíduo, que via no esporte um jeito de interagir com o mundo”, diz Meneguete.
Moda e futebol
A Copa também impulsiona o blokecore. Em junho, a Cactus Jack, marca do rapper americano Travis Scott, e a Nike lançaram uma coleção inspirada na linha T90, sucesso nos anos 2000 —disponível para compra online.
A linha reúne jerseys, moletons, jaquetas, camisetas e bonés com referências a dez seleções, entre elas Brasil, Argentina, França, Inglaterra e Portugal. Os produtos variam de US$ 52 (R$ 269) a US$ 168 (R$ 870). Os valores não incluem taxas de importação ou frete.
O interesse pela tendência também fez outras grandes marcas incorporarem o estilo às próprias vitrines. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Adidas criou uma seção em seu site dedicada ao blokecore, reunindo tênis retrôs, como os modelos Samba, Gazelle e Campus 00s.
O mercado de camisas originais e vintage também acompanha o movimento. Para Pedro de Moraes, dono do brechó Camisa Doze, dedicado a peças de times nacionais, europeus e sul-americanos, a procura aumentou entre consumidores interessados na estética dos uniformes, e não necessariamente no futebol.
“Hoje eu foco em vender camisetas que tenham um valor estético. São peças que conversam com o streetwear, mais do que camisas muito raras voltadas para colecionadores”, afirma.
Segundo ele, os modelos mais disputados são justamente os que remetem ao futebol dos anos 1990 e início dos anos 2000.
“As camisas dessa época têm um caimento mais boxy e tecido mais grosso e isso chama bastante atenção. Também existe um fator de nostalgia muito forte, com ídolos como Ronaldo e Del Piero e com as Copas de 1994 e 1998. Acho muito interessante que as camisas de futebol vieram para ficar”.
Apesar do Mundial movimentar o interesse pela moda esportiva, o impacto nas vendas do brechó foi diferente do esperado. Como trabalha com estoques mensais, Moraes conta que não conseguiu investir na compra de camisas da seleção brasileira antes da competição.
“Quem tinha essas peças já estava vendendo muito caro. Ficou um mercado difícil de acessar. No fim, ao contrário do que muita gente imagina, a Copa acabou diminuindo um pouco as vendas da loja”, diz Moraes.
Música e entretenimento
A influência do futebol também extrapolou as marcas esportivas e chegou ao universo da música e do entretenimento. É nesse contexto que clubes passaram a recorrer a artistas para lançar coleções especiais, enquanto cantores transformaram as tradicionais camisas de futebol em peças de merchandising e identidade visual.
Um dos exemplos mais recentes é a campanha do Barcelona com a cantora Olivia Rodrigo, como parte de uma ação do Spotify, que patrocina o time. As iniciais da artista estrelaram edições limitadas do uniforme.
Nas imagens de divulgação, jogadores como Robert Lewandowski, Marcus Rashford e Lamine Yamal aparecem vestindo as camisas sem o tradicional uniforme de jogo: os calções dão lugar a calças largas, jeans e outras peças casuais, reforçando a proposta de aproximar o futebol da moda urbana.
A tendência aparece, ainda, em parcerias entre artistas e marcas esportivas, sem vínculo com clubes ou seleções. A banda Oasis lançou uma coleção com a Adidas no último ano, em novembro.
Entre os destaques estão duas jerseys em malha, nas cores verde e branca, com modelagem oversized, gola polo e ogotipo da banda estampado no centro da peça, em referência aos tradicionais patrocinadores dos uniformes esportivos.
Agora em turnê, o astro Harry Styles, ex-One Direction, também aposta nas camisas esportivas em produtos vendidos durante os shows de “Together, Together”, com edições no estádio do Morumbis, em São Paulo, nos dias 17, 18, 21 e 24 do próximo mês. Vendida exclusivamente nos shows, a jersey traz elementos típicos dos uniformes esportivos.
No Brasil, o movimento também ganhou uma adaptação própria no último ano. O cantor Jão lançou, em parceria com a Adidas, a camisa Meninos e Meninas F.C., inspirada na canção que é um de seus maiores sucessos. A peça combina listras verticais largas em azul e rosa e gola careca branca.
Para Meneguete, o sucesso das camisas esportivas na moda reflete uma mudança no significado dessas peças. Se antes elas eram usadas para demonstrar apoio a um clube ou seleção, hoje também funcionam como um elemento de identidade e estilo.
Autor: Folha








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