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Meu dia de macaca de laboratório – 23/07/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Já falei aqui que não entro mais em redes (anti)sociais, mas isso não quer dizer que não passo tempo olhando para a tela do meu telefone e interagindo com ela. Adoro um joguinho, sobretudo os de raciocínio espacial. HighRise, 1010!, Cast, TripleTown, Royal Match (sucedâneo do meu adorado Candy Crush) e Woodoku são meus favoritos naquela meia hora de limbo entre fechar a porta do avião e chegar em altitude cruzeiro, quando posso abrir o laptop para escrever.

Em geral ignoro facilmente os anúncios, mas, entre rodadas de Woodoku, um me prendeu a atenção. Sem instruções, uma mesa com um drinque tropical distante e outro menor, mais próximo e com uma linha de mira saindo dele, convidavam o dedo à ação. Fácil: tentativa e erro logo mostraram que era só tocar o drinque menor, movê-lo para os lados, e tirar o dedo da tela para fazê-lo deslizar até o fim da mesa ao encontro do drinque maior, e um novo drinque aparecia. Joguei outro, e mais outro, pois eu já sabia que a cruzinha pra fechar o anúncio e voltar ao Woodoku só apareceria assim.

Mas então a mágica aconteceu: um drinque, em resposta à minha ação, encontrou outro igual, e os dois se transformaram em um drinque maior, mais enfeitado, de nova cor. Senti luzinhas se acenderem em meu cérebro, que imediatamente vislumbrou novas possibilidades: de um besta puxar-e-soltar inicial, minhas ações ganharam upgrade para pensamento estratégico, sobretudo quando a tentativa-e-erro mostrou que havia uma hierarquia de drinques, ou seja, quais se transformavam em quais. Já já meu cérebro estava se deliciando em montar reações em cadeia altamente satisfatórias.

E então acabou o jogo-amostra-anúncio. A neurocientista de plantão deste lado da tela sabia perfeitamente o que estava acontecendo: a frustração da expectativa de mais uma oportunidade de ação bem-sucedida leva o cérebro a agir em busca de mais. Hesitei, pois detesto cair em golpes e obviamente ali estava mais um, mas baixar o jogo era gratuito, deletar é fácil. Por via das dúvidas, resolvi transformar a experiência em pesquisa.

Pois o jogo que abriu era só mais um joguinho besta de fazer pares, em que é preciso tocar em desenhos na tela para fazê-los produzir novos desenhos —incluindo os tais drinques coloridos que se transformavam em outros. Mas tocar nos diabos dos desenhos era tão convidativo que eu me descobri trabalhando para ganhar bônus de mais 100 toques, depois mais 100. O objetivo do jogo, claro, é fazer você comprar mais toques.

Não comprei, mas notei que eu estava me comportando exatamente como os macacos cujos neurônios meus colegas estudam em laboratório, conforme os animais tocam em telas feito nós humanos em nossos telefones, não porque precisam, mas porque podem e querem. Enquanto nossas ações derem resultados interessante e às vezes inesperados, escolhemos continuar agindo —e ali fiquei, na esperança de que o nível seguinte enfim fosse o jogo que eu queria, o do anúncio.

A pamonha aqui levou três dias para o córtex pré-frontal assumir o controle da situação, interromper o joguinho besta e ir perguntar ao Google quando o jogo do anúncio apareceria como um nível novo. A resposta, que eu deveria ter antecipado, foi clara: nunca. O joguinho não era bet em nome, mas era na prática, ao me fazer apostar que minha próxima ação teria por fim o resultado que eu queria —e me fazer pagar por isso.


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Autor: Folha

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