Por restrição orçamentária, o Redome (Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea) — coordenado pelo Inca (Instituto Nacional do Câncer), um órgão do Ministério da Saúde— anunciou que limitaria o número de importações de medula óssea para o Brasil.
Um comunicado chegou a ser enviado neste mês, por email, aos responsáveis dos centros de transplantes pelo país. “Considerando o aumento significativo no número de importações de células-tronco hematopoéticas (CTH) nos últimos anos, o Redome, após criteriosa avaliação técnica e administrativa, precisou estabelecer um limite mensal de aproximadamente 20 importações, quantitativo considerado operacional e financeiramente viável”, diz trecho do texto, enviado à reportagem por médicos que tiveram acesso ao ofício.
O transplante de medula óssea pode ser autólogo, quando o paciente recebe suas próprias células-tronco, coletadas e congeladas previamente, ou alogênico, em que são usadas as células-tronco hematopoéticas de um doador saudável, parente ou não. Quando não há doador nacional compatível, a busca internacional segue como alternativa, algo que até então ocorria sem limite de importações.
Diante da repercussão, o Ministério da Saúde negou que estivesse limitando o número de importações, disse que o ofício em questão foi revogado e que novas diretrizes serão divulgadas em breve.
“As orientações sobre importação de medula óssea aplicam-se exclusivamente às situações em que já tenham sido identificados doadores nacionais com grau de compatibilidade equivalente ao doador internacional localizado. Para casos em que não houver doador nacional compatível, a busca internacional segue como alternativa, sem restrições de quantidade”, diz a pasta, em nota enviada nesta terça-feira (14) à reportagem.
“Para melhor esclarecimento, o Redome revogou o ofício anterior e divulgará novas orientações nos próximos dias”, acrescenta.
A Folha também perguntou ao ministério qual é o orçamento atual do Redome, mas não obteve resposta.
O presidente da SBTMO, Fernando Barroso Duarte, disse que encaminhou na manhã desta terça um ofício ao Sistema Nacional de Transplantes pedindo a anulação da medida que limitaria as importações de medula óssea. O documento é assinado por SBT MO, Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia), ABHH (Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular) e Ameo (Associação da Medula Óssea).
Uma das preocupações dos médicos se deve à corrida contra o tempo dos pacientes que precisam de um transplante de medula óssea, uma vez que o procedimento deve ser realizado em um prazo curto após a quimioterapia. Caso contrário, há risco de recidiva. Além disso, o processo deixa o paciente vulnerável a infecções graves devido à falta de defesa. A urgência é maior nos casos de doenças hematológicas agressivas como leucemia, linfoma, mieloma múltiplo e anemia aplástica, por exemplo.
O ofício foi enviado aos centros de transplante em um momento em que há também desabastecimento de Genuxal (ciclofosfamida) 1 g (frasco-ampola) é fundamental na prevenção de complicações graves pós-transplante e no tratamento de diversas doenças hematológicas, neurológicas e autoimunes. De acordo com a SBTMO (Sociedade Brasileira de Terapia Celular e Transplante de Medula Óssea), o medicamento está em falta há cerca de dois meses em todo o país.
Questionado também sobre isso, o Ministério da Saúde afirma que adquiriu, “de forma excepcional e emergencial”, um lote de 140 mil comprimidos de 50 mg e 80 mil frascos-ampolas de 1 g do medicamento ciclofosfamida, que serão distribuídas aos centros de referência de todo o país a partir da próxima semana. “Após estabilidade no fornecimento por parte da fabricante responsável, o medicamento volta a ser adquirido por estados e centros oncológicos, conforme pactuação na Comissão Intergestores Tripartite”, diz a pasta.
Wagner Fernandes, gestor da Ameo São Paulo, afirma que as entidades médicas aguardam explicações sobre a tentativa de limitar o número de importações de medula óssea. “Pedimos que a coordenação geral do câncer e o sistema de transplantes possam explicar, ainda nesta semana, o que está acontecendo para que possamos resolver o problema de forma conjunta”, diz Fernandes.
Para Fernando Barroso, a despeito de novas drogas, terapia celular, imunoterapia, o transplante ainda é e será por muitos anos uma terapêutica importante e necessária.
“Em nosso país, especificamente, passamos a fazer mais transplantes para pessoas acima de 60 anos. Isso aumentou o número de procedimentos também. É um campo em expansão. Então, naturalmente, você tem mais pacientes. Isso precisa ser considerado”, afirma Barroso.
De acordo com o Ministério da Saúde, o Redome é o terceiro maior registro de doadores voluntários de medula óssea do mundo, com mais de 6 milhões de pessoas cadastradas. De acordo com o Ministério da Saúde, em 2025 foram realizados 3.258 transplantes de medula óssea —cerca de 10% do total de transplantes feitos no país.
Quem pode doar medula óssea no Brasil
- Para se cadastrar, é necessário ter entre 18 e 35 anos
- Estar em bom estado geral de saúde
- Não ter histórico de câncer, doenças infecciosas transmissíveis pelo sangue ou autoimunes
- Comparecer a um hemocentro com documento oficial com foto
Autor: Folha








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