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Sim, o red pill catalisa a violência contra as mulheres – 14/04/2026 – Bruno Gualano

Lygia Maria defende nesta Folha que a agenda jornalística superdimensiona a cobertura sobre a misoginia. Alega que o conceito foi inadvertidamente estendido para falas sexistas (“acordou de chico”). Vê, além disso, “tentativa de atestar causalidade direta entre grupos red pill na internet e feminicídios, sem respaldo robusto para isso”.

Concedo que machismo per se não é crime, mas idiotia. Fosse o atributo passível de prisão, o risco seria de os libertos serem minoria. Mariliz Pereira Jorge desenvolve o argumento com precisão.

Minha discordância é com a suposta ausência de evidência direta que vincule discursos misóginos à violência.

As comunidades online de supremacia masculina, na qual se inscrevem os red pills, são espaços de disseminação de crenças hostis, assédio e violência por parceiro íntimo —tanto online quanto offline. Esses grupos, pertencentes à dita “manosfera”, difundem uma visão de mundo ancorada no essencialismo biológico, na primazia masculina e na ideia de que o feminismo ameaça o sexo oposto. Nesse enquadramento, as mulheres são frequentemente retratadas como manipuladoras, sexualmente promíscuas e exploradoras dos homens, na ânsia de tomar-lhes o poder.

Não se trata apenas de livre expressão de ideias. Os perigos palpáveis que essas comunidades misóginas representam às mulheres fundam-se em diversos níveis de evidências, incluindo as qualitativas, as correlacionais, as orientadas por modelos teóricos, que apontam na mesma direção.

Como mencionado, fóruns da manosfera têm sido amplamente caracterizados como difusores de ideologias de masculinidade hostil, “direito ao sexo” (crença de que se tem direito ao sexo, independentemente do desejo ou consentimento do outro) e desumanização feminina —fatores clássicos associados a maior risco de agressão e violência sexual contra mulheres.

Numa amostra representativa do Reino Unido, níveis mais altos de misoginia associaram-se com maior apoio à violência contra mulheres, maior disposição para violência interpessoal e maiores intenções de violência extremista, mediadas por hipermasculinidade e desejo de vingança.

Outro estudo com dados de mais de 400 áreas nos EUA mostrou que tuítes misóginos estavam associados a maiores taxas locais de violência doméstica e familiar e que a quantidade desses tuítes em um ano predizia, de modo modesto, mas significante, níveis de violência no ano seguinte. Peças favoritas de evidência no campo das políticas públicas, as meta-análises mostram que o sexismo hostil —fundamentado na crença misógina e de dominância masculina— associa-se a atitudes que favorecem ou justificam a violência contra a mulher, bem como a comportamentos violentos, incluindo assédio e agressão sexual.

Se, para admitir “causalidade direta”, Lygia Maria procura estudos controlados e randomizados, aos moldes da ciência biomédica, não os achará. Expor experimentalmente homens à manosfera e observar se passam a violentar mais mulheres seria, por óbvio, eticamente inconcebível. Esgarçar os limites ético-metodológicos da ciência, cobrando dela algo que não pode entregar, é uma postura pseudocientífica.

Ainda que as evidências sejam imperfeitas (e quando não são?), a literatura mostra uma relação robusta: quanto mais fortes os discursos misóginos, maior o endosso e a prática de violência contra mulheres. A ligação é em grande parte indireta (via normas de gênero, hipermasculinidade, aceitação da violência), mas suficientemente consistente para tratar misoginia como alvo central na prevenção da violência de gênero. Para que não se banalize a perda de seis brasileiras por dia para o feminicídio, faz bem o jornalismo incorporar o tema como prioridade de agenda.


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Autor: Folha

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