Uma das incontáveis hipóteses médicas levantadas durante a pandemia previa que a testosterona poderia influenciar a gravidade da Covid. A ideia partia da observação de que homens apresentavam quadros mais graves, enquanto meninos pré-púberes —com níveis mais baixos de hormônios androgênicos— pareciam menos suscetíveis à doença. Entusiastas da hipótese também viam na alta frequência de homens calvos em UTIs um possível sinal da participação dos andrógenos na gravidade da doença, já que a alopecia androgenética está associada à maior sensibilidade a esses hormônios.
Ainda em 2020, um adulto jovem infectado pelo coronavírus procurou a clínica privada do endocrinologista Flávio Cadegiani. O paciente fazia uso de esteroide anabolizante, o que teria agravado seu quadro. Recuperou-se com tratamento com droga que bloqueia a ação da testosterona: a proxalutamida.
Embalado pelo êxito, Cadegiani –voz ativa do “tratamento precoce”– avançou para um amplo ensaio clínico em 2021. Os achados foram extraordinários: redução de 92% na mortalidade no grupo que recebeu o medicamento em comparação ao placebo. Pela façanha, recebeu láurea de um grupo médico adepto de “terapias alternativas” contra a Covid e, das redes, a alcunha de “melhor cientista do mundo”.
Mas a narrativa hollywoodiana de um obstinado cientista que desafia o “establishment” para salvar a humanidade de uma pandemia letal seria contaminada pelo odor enxofrento da fraude.
Da comunidade científica vieram os questionamentos iniciais, direcionados à mortalidade anormalmente alta no grupo placebo, falhas no desenho do estudo (inconsistências de protocolo, por exemplo), além de possíveis conflitos de interesses e falta de transparência, incluindo vínculos de autores com empresas que lucram com a droga e a recusa em disponibilizar os dados brutos da pesquisa. As críticas culminaram na retratação das publicações.
Investigações posteriores revelariam mais do que simples descuidos científicos. Segundo a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), os participantes teriam sido usados como “cobaias” em uma pesquisa “voltada ao lucro acionário”.
A Unesco classificou o estudo como “um dos episódios mais graves de infração à ética em pesquisa e violação dos direitos humanos dos participantes da história da América Latina, envolvendo a morte suspeita de 200 pessoas”, e cobrou investigação aprofundada. A Anvisa suspendeu a importação e o uso da droga pelo pesquisador e acionou a PGR (Procuradoria-Geral da República). Já a CPI da Covid incluiu o médico entre os indiciados por crime contra a humanidade.
Eis que, finalmente, o MPF ajuizou ação civil pública contra Cadegiani, seu colaborador Daniel Nascimento da Fonseca, diretor-técnico da rede hospitalar Samel, que abrigou o braço amazônico do estudo, e a União, por falha no dever de supervisão. Reportagem de Carlos Madeiro (UOL) detalha as irregularidades apuradas pela Procuradoria, como o uso da nebulização de hidroxicloroquina fora do protocolo e a transferência da pesquisa de Brasília, com casos leves, para o Amazonas, com pacientes graves, sem anuência do comitê de ética. Para o órgão, o estudo configurou um “laboratório humano em regime de clandestinidade e desprezo pela vida”.
A ação do MPF é um acerto de contas —tardio e acanhado— com aqueles que, em nome da ideologia ou do lucro, negaram ou desvirtuaram a ciência e, cada qual à sua maneira, contribuíram para um excedente de centenas de milhares de mortes. A União também pode figurar como ré, mas não foi ela que contrariou normas sanitárias, atrasou vacinas e oxigênio, fez troça de doentes ou ofereceu cloroquina a emas. Os artífices têm carne, osso e, alguns, até dispositivo eletrônico de geolocalização. Nada falta para que sejam responsabilizados.
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Autor: Folha




















