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NatGeo: filme sobre polvos omite estudo brasileiro – 27/09/2026 – Marcelo Leite

Só na sexta-feira (25), uma rede social mostrou dois posts sobre inteligência e sono em polvos. Sinal de que o algoritmo não dorme no ponto e já detectou um interesse. Mas não dá pista sobre o apagamento de estudo brasileiro que contribuiu para muita gente deixar de comer o simpático e esperto bicho.

Sua popularidade ganhou impulso com obras como “Outras Mentes” (2016), do australiano Peter Godfrey-Smith. O livro tem a profundidade reflexiva que se pode esperar de um filósofo da ciência mergulhando no comportamento de cefalópodes (lulas e sépias incluídas).

Depois viria “Professor Polvo” (2020), documentário ganhador do Oscar em que o cineasta Craig Foster entabula relação pessoal com um polvo na África do Sul. A Netflix explorou de novo o filão com “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” (2026), melodrama narrado por um polvo-gigante-do-pacífico, Marcellus, que rendeu um Emmy a Sally Field.

No filme, o xará de oito braços tem consciência e… sonhos. Aquém da liberdade ficcional, por ora a ciência só pode afirmar com certeza que esses moluscos dormem alternando fases de sono quieto e ativo, tendo este certa semelhança com o sono REM de mamíferos.

Essa forma de dormir foi constatada primeiro na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Em artigo publicado em 2021 no periódico iScience, Sylvia Medeiros e colegas, sob orientação de Tatiana Leite e Sidarta Ribeiro, filmaram Octopus insularis adultos dormindo e quantificaram os dois tipos de sono.

Na fase tranquila, com duração mediana de 415 segundos, o polvo permanece pálido e relaxado. Na ativa (41 s), as cores da pele e sua textura mudam depressa, e os olhos se mexem. Há clara analogia com o movimento rápido dos olhos (REM, em inglês) que caracteriza nossos sonhos, porém insuficiente para afirmar que o polvo está também fabulando experiências vívidas com base em memórias.

Em visita ao National Geographic Museum of Exploration em Washington, DC, Tatiana Leite teve uma surpresa desagradável: a apresentação “Os Polvos Sonham?” só mencionava a bióloga australiana Alexandra Schnell, exploradora da NatGeo, omitindo a pesquisa pioneira (detalhe: a própria Schnell comentara o estudo da UFRN uma semana após a publicação).

O apagamento se repete no documentário “Secrets of the Octopus“, da NatGeo, constatou Leite (não é minha parenta). Em 25 de agosto ela escreveu para a National Geographic Society pedindo que se retificasse a atribuição.

“Descobertas científicas provenientes da América Latina e de outras regiões fora dos grandes centros da ciência internacional já enfrentam desafios significativos para obter a visibilidade e o reconhecimento adequados”, ponderou Leite.

“Quando uma organização de mídia internacional de grande influência apresenta, posteriormente, a mesma descoberta sem identificar os cientistas que originalmente realizaram o trabalho, o registro histórico da contribuição científica acaba sendo distorcido.”

Um mês após a queixa, a pesquisadora ainda não recebeu resposta da sociedade. Como diz Marcellus no filme: “Humanos. Em sua maioria, vocês são monótonos e desajeitados. Mas, ocasionalmente, podem ser criaturas extraordinariamente brilhantes”.


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Autor: Folha

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