
O ataque dos houthis do Iêmen fechou um dos principais aeroportos da Arábia Saudita nesta semana no momento em que Riad mais precisa da confiança externa. O governo confirmou nesta segunda-feira (12) que uma nova onda de mísseis e drones, mantém interditado o Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, a capital do país.
A ofensiva atinge o reino durante o Congresso Mundial de Energia (WPC), vitrine do plano saudita de atrair capital estrangeiro. Segundo a Reuters, os disparos interditaram parte do espaço aéreo e interromperam voos na capital. O episódio acendeu o alerta sobre a infraestrutura que sustenta o maior exportador de petróleo do mundo.
Os episódios recentes marcam a reentrada direta da monarquia na guerra civil iemenita. A intervenção busca desalojar os rebeldes das imediações do Estreito de Bab el-Mandeb, rota crucial para o escoamento global de óleo bruto e via de acesso marítimo às exportações sauditas.
Impacto logístico e retaliação no setor energético
Fontes militares iemenitas citadas pela Reuters indicam que, apesar de pequenos progressos obtidos por forças locais apoiadas por Riad na região de Bab el-Mandeb, as tropas aliadas continuam em desvantagem em outras frentes. Militares ponderam que qualquer tentativa de sufocar a milícia exigirá tempo significativo para produzir efeitos práticos.
Em resposta, a aviação militar saudita intensificou incursões aéreas contra posições rebeldes, incluindo alvos na província de al-Jawf. O grupo armado, porém, mantém a ameaça sobre aeroportos e redes de refino — a engrenagem do produto interno bruto (PIB) e do financiamento das metas de transição econômica do reino.
Na abertura do WPC, o ministro de Energia saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman, respondeu aos ataques mais letais em anos contra o reino com uma mensagem de desafio. “Quero compartilhar com vocês algo que os sauditas temos sempre muito presente, algo que talvez alguns desconheçam. A palavra ‘medo’ no dicionário saudita… simplesmente não existe. Os sauditas somos um povo valente, combativo e decidido, e demonstraremos ao mundo que, sem importar as dificuldades que enfrentemos, as superaremos”, disse o ministro na cerimônia de inauguração, segundo a agência EFE (tradução do espanhol).
Em contato com o jornal The New York Times, ele adotou tom mais sóbrio: “Os eventos das últimas semanas são graves […] Nossa resposta deve ser igualmente grave” (tradução do inglês). O ministro garantiu ainda que o governo segue focado na atração de capitais estrangeiros, pilar dos planos de diversificação da economia saudita.
Oferta diplomática e hesitação de investidores
Do lado diplomático, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, declarou nesta segunda-feira (12) que Teerã se dispõe a mediar as conversações entre o governo saudita e a milícia iemenita. “Expressamos repetidamente nossa disposição em ajudar a facilitar o diálogo entre as partes”, afirmou o porta-voz.
O The New York Times confirmou que o chanceler iraniano Abbas Araghchi telefonou ao ministro saudita Faisal bin Farhan na noite de domingo (11) para propor a intermediação.
O clima de insegurança já afeta a confiança corporativa global. Executivos-chefes das gigantes petrolíferas ExxonMobil e BP cancelaram as agendas no evento em Riad. Dados reunidos pelo periódico britânico The Economist apontam que os ataques ao aeroporto da capital deixaram 13 mortos e 309 feridos no mesmo dia, mantendo o setor empresarial internacional em sobressalto.
Gargalos fiscais e a equação do desenvolvimento
É precisamente essa engrenagem que está sob pressão. A retração de capitais externos atinge o centro dos planos de modernização da liderança saudita.
Reportagem do The Wall Street Journal revela que o Ministério das Finanças da Arábia Saudita e a consultoria Capital Economics projetam contração real de 3,6% do PIB em 2026, na comparação anual com 2025. As despesas militares adicionais ameaçam ampliar o déficit orçamentário, que parte de um orçamento anual de US$ 350 bilhões.
Analistas internacionais destacam o impasse geopolítico do poder central. O especialista em Golfo Pérsico do Baker Institute da Rice University, Kristian Coates Ulrichsen, pontuou ao The Wall Street Journal: “Qualquer resposta militar corre o risco de se aprofundar em um conflito assimétrico no qual os houthis demonstraram capacidade de infligir danos simbólicos e significativos”.
Autor: Gazeta do Povo








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