Há dois anos, a Apple anunciou sua primeira incursão na IA (inteligência artificial). Construída principalmente com modelos desenvolvidos internamente, a “Apple Intelligence” prometia transformar a assistente Siri em uma assistente pessoal tão inteligente quanto os chatbots mais avançados, mas com a vantagem de ter acesso aos dados pessoais do usuário. O esforço foi um fracasso constrangedor, com a Apple entregando pouco do que se propôs a oferecer.
Agora a empresa está fazendo uma segunda tentativa. Na segunda-feira (8), em seu evento anual de software, o CEO prestes a deixar o cargo, Tim Cook, apresentou novamente uma “nova Siri”, que os usuários podem operar usando a voz, uma barra de pesquisa deslizante ou um aplicativo no estilo chatbot.
Em vez de desenvolver seus próprios modelos, a empresa está usando os do Google, empresa na dianteira da IA. A Apple está apostando que seus dispositivos, e os dados pessoais armazenados neles, se tornarão os portais pelos quais os usuários terão acesso à tecnologia. Será que a estratégia vai dar certo?
Os tropeços anteriores da Apple com IA não lhe causaram danos evidentes. O preço das ações subiu mais de 50% nos últimos dois anos —menos que a Alphabet, dona do Google, mas mais que Amazon, Microsoft e Meta, todas as quais queimaram montanhas de dinheiro para liderar a corrida da IA. A Apple, por outro lado, conseguiu ficar de braços cruzados e embolsar até 30% das receitas geradas por aplicativos de chatbot instalados em seus dispositivos.
Mesmo assim, a concorrência está se aproximando. A OpenAI, criadora do ChatGPT, está trabalhando com Jony Ive, o designer de muitos dos produtos mais famosos da Apple, para criar seu próprio dispositivo com IA. Google e Meta estão investindo em óculos inteligentes. E a Amazon está lançando novos recursos de IA em sua assistente Alexa.
A Apple tem pelo menos duas grandes vantagens sobre aqueles que esperam usar a IA para acabar com o reinado do iPhone. A primeira é o tipo de dados a que tem acesso. Muitas das novas habilidades da Siri dependem da capacidade da Apple de escanear informações como mensagens ou a agenda do usuário.
A segunda é a competência da Apple em hardware e semicondutores. Muitos recursos novos e avançados serão executados nos próprios dispositivos, em vez de precisarem ser roteados por um servidor externo, reduzindo atrasos e garantindo que possam ser usados mesmo sem conexão com a internet.
Isso também significa que a Apple não precisará investir em data centers na mesma proporção que outros provedores de IA. (Alguns recursos de IA computacionalmente exigentes que não podem ser executados nos dispositivos, como estender e reenquadrar fotos, terão limites diários de uso, embora assinantes do serviço iCloud+ da Apple possam ter mais acesso.)
Segundo informações, a Apple está pagando ao Google US$ 1 bilhão por ano por sua tecnologia —uma ninharia comparada ao que custaria desenvolver uma alternativa internamente. E uma vez que os usuários estejam viciados na Siri, a Apple poderia cogitar trocar os modelos subjacentes, dando-lhe a vantagem nas negociações. “Será construída com tecnologia do Google, mas a Apple vai ser dona desse relacionamento com o consumidor”, observa Gil Luria, da firma de investimentos D.A. Davidson.
Os investidores, por sua vez, ainda estão digerindo a novidade; o preço das ações da Apple caiu cerca de 2% no dia do anúncio. Isso pode refletir o fato de que, após anos de atraso, os novos recursos ainda não estão prontos para os consumidores: a Siri atualizada estará disponível nos Estados Unidos no outono do hemisfério Norte, mas não em iPhones na União Europeia ou em qualquer dispositivo Apple na China devido a entraves regulatórios. Inicialmente, a nova Siri também não funcionará em outros idiomas além do inglês.
John Ternus, o futuro chefe da Apple e atual líder de hardware, não falou na conferência, que focou apenas em software. Mas o cronograma da empresa indica que ele supervisionará a maior parte do lançamento. Horace Dediu, um veterano analista da Apple, observa que, embora a empresa trabalhe devagar, “ela tende a entregar em algum momento”. Ternus terá que provar que isso ainda é verdade.
Texto de The Economist, traduzido por Helena Schuster, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com
Autor: Folha








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