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O dia em que a mulher de Oscar tomou as dores dele comigo – 18/04/2026 – O Mundo É uma Bola

No jornalismo, tão marcante quanto transmitir e/ou publicar a notícia em si são as memórias guardadas das pessoas, dos eventos, dos lugares.

Em meu início de carreira na editoria de Esporte desta Folha, na segunda metade dos anos 1990, fui designado para fazer reportagens de esportes olímpicos, com enfoque principal no basquete.

Desse modo, tive chance de acompanhar treinos e jogos de equipes, conversar com atletas e treinadores, deslocar-me para algumas cidades paulistas (Santo André, Franca, Ribeirão Preto, Americana, Campinas) para a cobertura de finais.

Entrevistei gente que cresci vendo na TV, como os treinadores Hélio Rubens, Cláudio Mortari, Maria Helena, Antonio Carlos Barbosa e Antonio Carlos Vendramini e ídolos como Hortência, Paula, Janeth… e Oscar Schmidt.

Foi um baque quando chegou a notícia, nesta sexta-feira (17), da morte do camisa 14. Quando eu era garoto, nos anos 1980, camisa 14 famosa era a do Oscar, ala do basquete, não a do Cruyff, craque holandês do futebol.

Eu jogava futebol e adorava ver futebol. Mas curtia também o basquete, os jogos do Sírio (que rivalizava com o Monte Líbano e com o Corinthians em São Paulo), com o Oscar e o pivô Marquinhos Abdalla (que morreu neste ano, em março), e principalmente as partidas da seleção brasileira, de Oscar, Marcel, Marcelo Vido, Nilo, Cadum.

O Oscar era espetacular, sempre foi. Raçudo, vibrante, atlético. Era um show quando ele finalizava, na chamada “ponte aérea”, com uma enterrada um passe do Carioquinha.

Então, quando na profissão, cerca de 15 anos depois, deparei-me com o Oscar, eu levava na carteira uma invisível “carteirinha de fã”. Visível fosse, não seria mostrada. Meu profissionalismo nunca me permitiu tietar ninguém.

Foram poucos os encontros com o Mão Santa, que retornava ao Brasil depois de longa temporada europeia para, ainda em altíssimo nível, encestar, encestar, encestar, por Corinthians, depois por Barueri, depois por Flamengo. Não era incomum fazer mais de 40 pontos por jogo. Fazia muito não só porque era craque, mas porque era fominha. A bola laranja vinha e não voltava.

Uma vez estive na casa dele, espaçosa e bonita, no bairro nobre de Alphaville, no final dos anos 1990, e fui muito bem recebido. Não me lembro da pauta, porém marcou-me ele ter relatado que seu sucesso, sua precisão, devia-se basicamente ao esforço pós-treinos, quando ficava arremessando, arremessando, arremessando.

Disse-me que, na época em que migrou para a Europa, onde jogou por 14 anos (1982 a 1995), primeiro na Itália e depois na Espanha, só evoluiu, para tornar-se o especialista nos arremessos de três pontos que todos conhecemos, porque a esposa, Cristina, ficava dia a dia ao seu lado, passando-lhe as bolas. Sem ela, assegurou-me, não teria conseguido.

Outra vez, em 1998, fui ao gabinete no qual ele despachava como secretário de Esportes, Lazer e Recreação da cidade de São Paulo. Achou um jeito, e tempo, de se dividir entre o esporte e a política. Era para falar sobre a proximidade dos 40 mil pontos. Já estava, naquele momento, atrás somente do lendário norte-americano Kareem Abdul-Jabbar.

Saí de lá com esta conclusão: não havia como se comprovar a pontuação que ele tinha acumulado, devido ao levantamento ser incompleto. Além disso, a Federação Internacional de Basquete não validava a marca.

Contei a história nas linhas do jornal, só que o editor carregou a tinta no título: “Oscar prepara-se para ‘falsos’ 40 mil”. Para quê? Em um evento na semana seguinte, o de comemoração pela chegada aos 40 mil, fui impedido de chegar perto do Oscar. Pela Cristina. Que se doeu pelo marido. “Você não.”

Tentei explicar o “falsos”, em vão. Ela estava, se não ao ponto do furor, irritadíssima. Percebi que Oscar tinha ciência do que acontecia, bem como os meus colegas de ofício. Toda a imprensa tinha encampado, dado como certa, a grandiosa marca. Só a Folha que não. O olhar geral para mim era condenatório, como se dissessem em pensamento: “Como você pôde? Ele é nosso ídolo!”.

Felizmente, o tempo cura certas mágoas, e Oscar voltou a falar comigo. Continuei a acompanhar sua carreira enquanto ele esteve na Grande São Paulo, e em uma conversa falei estar impressionado com seu novo estilo nos tiros de três pontos: usando a tabela. Passou a fazer isso com frequência, e com elevado índice de acerto. Ninguém fazia, só ele.

Dias depois, em uma partida no clube Pinheiros, eu via o jogo da arquibancada. Não estava cheio, e Oscar me notou lá. Na jogada seguinte, recebeu a bola, a longa distância da cesta. Mirou em um segundo. Arremessou. Tabela. Barbante. Três pontos.

Fiquei admirado. Ao voltar para a defesa, olhou para mim e, do alto dos seus 2,05 m, deu um aceno cordial, sorriso discreto e maroto no rosto. A mensagem: “Viu? É fácil”.

Ao vivo, é minha lembrança mais marcante do Oscar. Junto com o pito da Cristina.

Autor: Folha

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