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O prazer das pequenas incertezas da vida – 04/06/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Quando eu era criança, os verões eram passados na aldeia de pescadores onde meus avós e tios-avós (aquela que me iniciou no carteado) construíram casas de frente para o mar, atraentes para os não iniciados, enquanto os locais, mais espertos, faziam suas casas nas ruas de trás, protegidas do vento por um declive.

Na minha visão de criança, o idílio tinha um problema grave: o mar aberto era incerto. Calmo feito as águas do Caribe num dia, no outro ele podia estar só “bravo” ou, pior, “de ressaca“, as expressões divertidas do português que traduzo literalmente para meu marido, estrangeiro, e ele adota em inglês.

A criança que eu era queria mar de piscina todo santo dia. Ou pior: havia meses de janeiro escorchantes, e outros, como o famoso “Verão da Sucessora”, quando só chovia o dia todo, todo dia.

Naquele verão, a família andava com barracas de praia e se reunia para assistir à tal novela e jogar cartas; nós crianças líamos gibis e desenhávamos o resto do dia. Quando terminavam as aulas, não havia como saber que tipo de verão teríamos. A única previsão era a imprevisibilidade.

Hoje, neurocientista, adulta e ciente do luxo de morar alguns meses do ano na mesma praia, acho maravilhoso ter na vida essas pequenas incertezas do clima e do mar.

Aqui, ao contrário de outros lugares onde morei, a meteorologia não acerta, porque não tem como acertar: são fatores demais tornando o jogo complexo. A previsão promete chuva já de manhã, mas o dia começa glorioso. Promete o sol, e cai um pé d’água. Às vezes, só para chatear, ela até acerta.

O mar também continua caprichoso, e hoje acho isso fantástico. Faz parte da rotina levantar e ir descobrir em que humor Iemanjá acordou.

As marés também não casam com as 24 horas do dia, então a gente, que não vive do mar e não presta atenção, não sabe prever a altura da água pela manhã.

O resultado dessas pequenas incertezas combinadas é que quando a chuva para, o sol pinta tudo de amarelo e o mar está um chão, a gente sabe que é para mostrar apreciação pela sorte que tem de estar vivo e ir tomar banho de mar.

Já fui presenteada com lagamar tão fundo que dava para nadar de braçada. Até meu pai, que não quer mais se arriscar na areia, botou a sunga e veio comigo. A gente acha que o prazer da vida está em antecipar e acertar, mas não está.

O cérebro age e se expõe aos acontecimentos decorrentes, e extrai informação quando uma coisa acontece junto com a outra, sim. Mas, depois de feita a conexão entre dois eventos, não há mais informação alguma se eles invariavelmente acontecem juntos.

Há todo um sistema de estruturas cerebrais interconectadas que a gente hoje sabe envolver as capacidades de associação e previsão do cerebelo…”

Há todo um sistema de estruturas cerebrais interconectadas que a gente hoje sabe que envolve as capacidades de associação e previsão do cerebelo, que toma nota quando algo foge do esperado. Esse sistema dito de recompensa libera a tal da dopamina, mas o que ela sinaliza é afinal não a promessa de prazer, mas sim aquilo que vale o esforço de partir para a ação.

O que é garantido perde a graça porque tanto faz a ação acontecer agora ou mais tarde, como ir a um mar que está sempre um chão.

Ter surpresas dignas de formar memórias faz parte da experiência de estar vivo, e não sobra qualquer chance de surpresa com o inesperado quando a previsão sempre acerta.

A única certeza que ajuda é a da morte no horizonte: com ela, descobrir-se vivo mais um dia se torna algo digno de nota e comemoração.


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Autor: Folha

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