domingo, julho 19, 2026
12.8 C
Pinhais

Onde se encontram Pelé e Messi no futebol dos EUA – 18/07/2026 – Esporte

O futebol finalmente chegou aos Estados Unidos”, anunciou Pelé, em 10 de junho de 1975. Em concorrida cerimônia no “21”, em Nova York, ele assinou seu contrato com o New York Cosmos e foi tratado pelo jornal The New York Times como “um missionário”.

Aos 34 anos, o craque brasileiro deixava a aposentadoria para apresentar o esporte mais popular do planeta a um país. Não faltavam credenciais ao Rei do Futebol, porém ele teve de responder a perguntas sobre a própria idade, considerada elevada para a prática profissional.

“Minha idade não é um inconveniente. Encontro-me em forma e poderia jogar até os 40 anos sem dificuldades. O futebol é um esporte de criatividade, não de força física, como o chamado futebol americano. Quando alguém se cuidou e tem o corpo são, não importam 34, 35 ou 37 anos. O futebol, na realidade, é como um baile”, afirmou.

Pouco mais de meio século depois, Lionel Messi está em Nova York para dar razão a Pelé. O argentino, aos 39, carregou a seleção de seu país até a final da Copa do Mundo, a ser disputada a alguns quilômetros do “21”, do outro lado do rio Hudson, neste domingo (19).

O veterano marcou oito gols e distribuiu quatro assistências em sete jogos no caminho à decisão, no MetLife Stadium, em East Rutherford. O estádio foi construído ao lado de onde ficava o Giants Stadium, palco do fim da carreira de Pelé, em 1977, com a famosa mensagem: “Love, love, love”.

O Giants Stadium foi demolido em 2010, e seu terreno hoje é estacionamento do MetLife Stadium. Ficou a memória do “missionário do futebol”, que chegou aos Estados Unidos atraído por um substancial contrato da Warner Communications, dona do Cosmos.

O acordo foi firmado no paraíso fiscal das Bermudas, mas era preciso realizar uma cerimônia para a assinatura simbólica em Nova York, na ilha de Manhattan. E o local escolhido foi o “21”, provavelmente o mais célebre dos “speakeasies”, os bares clandestinos que funcionaram nos tempos de Lei Seca.

Inaugurado na “era da proibição”, que de 1920 a 1933 baniu a fabricação, o transporte e a venda de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos, o bar sobreviveu a ela e passou a atrair uma clientela sofisticada. Exceção feita a George W. Bush, todos os presidentes do país desde Franklin Roosevelt (1933-1945) estiveram no estabelecimento, transformado em um restaurante de luxo.

Estrelas como Marilyn Monroe, Humphrey Bogart, Orson Welles, Lauren Bacall, Ernest Hemingway, Frank Sinatra e Ava Gardner estavam entre os habitués. Alguns deles tinham placas de bronze indicando suas mesas no local, que mantinha o charme secreto, com as portas camufladas e a adega oculta dos tempos de Lei Seca.

O ar de exclusividade era parte importante do encanto do lugar –que viria a ser cenário de vários filmes, como “Wall Street” (1987). Em reportagem dos anos 70 da revista New York, um porteiro do “21”, em frente às estátuas de jóqueis que adornavam a fachada, vangloriava-se do tratamento hostil que reservava aos desconhecidos. “Por que eu vou ser gentil? Eu nem sei quem são.”

Ele sabia quem era Pelé. Mas, se estava trabalhando naquele 10 de junho de 1975, deve ter se irritado com os jornalistas que se amontoaram para registrar a cerimônia, sem a classe de Ava Gardner.

“‘Senhores da imprensa, será que dá para se comportarem?’, disse Clive Toye, gerente-geral do Cosmos, quando dois cinegrafistas se envolveram em uma troca de socos que terminou sem vencedor, com o som de vidro se estilhaçando no bar ao fundo da sala”, relatou The New York Times.

De acordo com a Folha, o craque “repetiu 60 vezes o gesto de assinar, atendendo a dezenas de fotógrafos e ‘cameramen’ que se empurravam e disputavam um melhor ângulo”. “Sorrindo sempre, Pelé acompanhou toda a confusão das 300 pessoas que lotavam uma sala com capacidade para apenas 100. Atendeu a todos os pedidos e fez as declarações estudadas para a ocasião”, descreveu o jornal.

“Para mim é um sonho. Sempre esperei o dia em que o futebol pudesse se tornar conhecido nos Estados Unidos e por isso me decidi a vir jogar aqui”, declarou o jogador, que chamou Nova York de “capital mundial do esporte”, usou um broche com o símbolo da cidade na lapela e arriscou uma ou outra resposta em inglês.

Cinco dias depois, o atleta do século fez sua estreia pelo Cosmos, marcando um gol de cabeça no empate por 2 a 2 com o Dallas Tornado. Um público de 21.278 espectadores acompanhou a partida em outro estádio de Nova York que não existe mais, o Downing Stadium, demolido e substituído pelo Icahn Stadium.

Com Pelé, a média do campeonato americano saltou de 7.597 pessoas por jogo em 1975 para 13.585 em 1977. No jogo da despedida, 77.691 ouviram a mensagem de amor no Giants Stadium. Porém os Estados Unidos não estavam prontos para o futebol profissional, e a liga deixou de existir ao fim da temporada de 1984, embora sementes tenham sido plantadas.

O país recebeu a Copa do Mundo de 1994 –vencida pelo Brasil e acompanhada pelo Rei do Futebol nas tribunas– e voltou a ter uma liga nacional profissional em 1996. A MLS (Major League Soccer) vem atraindo craques veteranos e tem justamente em Lionel Messi, do Inter Miami, seu grande nome.

Messi é quase um anfitrião extraoficial do Mundial de 2026, que tem outra vez os Estados Unidos como sede principal –houve jogos no México e no Canadá até as oitavas de final. Viraram motivo de piada as controversas decisões da arbitragem a favor da Argentina, como se o presidente da Fifa (Federação Internacional de Futebol), Gianni Infantino, fizesse questão de ter o jogador na final.

É inegável, porém, o excepcional talento do camisa 10, que levou adiante a frase dita por Pelé no “21” e vai fazendo o que nunca ninguém fez no futebol em sua idade.

O restaurante, hoje, está trancado. Se resistiu à “era da proibição”, não resistiu à pandemia de Covid-19. Dona do imóvel desde 2018, a gigante do luxo LVMH não lhe deu outra destinação desde o fechamento das portas, em 2020.

Sua marca mais famosa, a Louis Vuitton, confeccionou o baú que vai transportar e exibir a taça do Mundial neste domingo. Messi, 39, estará de olho.

“Não importam 34, 35 ou 37 anos. O futebol, na realidade, é como um baile.”

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas