O gigante americano da integração de dados Palantir defende uma aliança entre empreendedores da tecnologia e o Estado pelo rearmamento do Ocidente, em um manifesto publicado na rede social X no último dia 18.
A proposta é criar uma “república tecnológica”, inspirada na ideia de governo de filósofos de Platão —com a diferença de que, no lugar dos pensadores clássicos, estariam empreendedores do setor. Segundo o texto, esses atores estariam sendo limitados por regulações formuladas por profissionais sem conhecimento técnico.
Os argumentos, apresentados em 22 tópicos na plataforma, são desenvolvidos no livro “A República Tecnológica”, de Alexander Karp, CEO da empresa.
A Palantir presta serviços nas áreas militar e de segurança pública dos Estados Unidos. Mais recentemente, desenvolveu para o ICE (serviço de imigração) uma ferramenta de identificação biométrica de migrantes irregulares. A tecnologia, usada pelo governo do presidente Donald Trump, é alvo de denúncias de vigilância em massa.
Embora Karp, um ex-aluno do cientista político Jürgen Habermas, se declare democrata e defensor dos valores liberais americanos, suas ideias têm recebido críticas da esquerda e elogios de setores da direita.
O cientista político espanhol Elvin Calcaño, especialista em populismo, classificou o manifesto como “tecnofascismo puro”, termo que repercutiu nas redes sociais após o lançamento do livro.
A crítica é compartilhada pelo economista grego Yanis Varoufakis, que vê na proposta um movimento em direção a um “mundo ensanguentado”, no qual a tecnologia ampliaria o poder destrutivo e o controle estatal.
Karp argumenta que os Estados Unidos são o maior motor de progresso da história e que o mercado falhou em atuar em áreas nas quais o Estado é mais vulnerável. Por isso, defende que empreendedores abandonem a resistência a colaborar com forças militares.
O executivo ainda defende abertamente o fim da diplomacia, que diz ter se esgotado, e sugere que o desarmamento do pós-guerra na Alemanha e no Japão foi uma “correção exagerada” que agora ameaça o equilíbrio global.
Para a Palantir, a era atômica foi substituída pela era da inteligência artificial, e os países do Ocidente precisam se rearmar para uma iminente Terceira Guerra Mundial.
A publicação no X que resume o livro atraiu 35 milhões de visualizações até esta terça-feira (28)
Trump já elogiou a tecnologia da Palantir por sua eficiência em conflitos armados. “Pergunte aos nossos inimigos se a tecnologia funciona”, disse o presidente.
O conselho da empresa de tecnologia é presidido por Peter Thiel, um dos primeiros bilionários do Vale do Silício a se alinhar ao trumpismo e que está em um embate com o Vaticano sobre a regulação da inteligência artificial.
O livro de Karp foi um best-seller nos Estados Unidos e recebeu elogios na imprensa. Personalidades alinhadas à direita, como o colaborador no desenvolvimento do bitcoin Peter Todd, endossaram o texto.
“Palantir é meu partido político”, escreveu Todd no X sobre o manifesto. Também no X, Elon Musk chamou Karp de “incrível”.
O ideólogo russo Aleksandr Dugin, conhecido pela proximidade a Vladimir Putin e pelas propostas utranacionalistas e autoritárias, disse que é um texto muito importante.
Apesar da retórica em defesa da liberdade, a proposta levanta questionamentos sobre soberania nacional e direitos civis.
A Palantir mantém laços estreitos com o governo americano e se declara uma empresa a serviço dos EUA, ao mesmo tempo em que presta serviços a outros países.
No Brasil, os aplicativos da Palantir estão entre os serviços de terceiros oferecidos pela estatal Serpro e em contratos de ferramentas de segurança pública de prefeituras brasileiras. O cientista político Sérgio Amadeu, professor da UFABC (Universidade Federal do ABC), afirma que a tecnologia da empresa de Karp ainda é usada na estatal paulista Prodesp e no Ministério da Educação.
Para ele, a proximidade com o governo americano levanta dúvidas sobre a capacidade de países como o Brasil garantirem que seus dados não sejam utilizados contra seus próprios interesses.
Críticos afirmam ainda que a proposta de integrar empresas de tecnologia à segurança interna e à defesa pode ampliar práticas de vigilância em massa.
Ao mesmo tempo, Karp defende maior proteção à privacidade de figuras públicas, argumentando que a exposição excessiva desestimula a participação de pessoas qualificadas na política.
Os críticos questionam se essa não seria uma tentativa de blindar políticos e empresários com contratos públicos, como o próprio Karp, do escrutínio público.
Questionada sobre as críticas, a Palantir não respondeu.
Autor: Folha








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