domingo, julho 12, 2026
12.2 C
Pinhais

Perder é morrer, vencer é viver – 12/07/2026 – CasaFolha na Copa

Eu sei um pouco o que é morrer. Trabalho há anos à beira das camas onde a vida se despede e aprendi que a morte quase nunca chega de uma vez: vem por partes.

Primeiro morre o que poderia ter sido, depois a certeza e, por fim, o corpo, quase sempre a parte menos importante da despedida.

Talvez por isso, quando olho um jogo de futebol, não vejo apenas um jogo. Vejo a coisa mais antiga do mundo encenada em 90 minutos: gente lutando para viver, gente aprendendo a morrer. Perder é morrer, vencer é viver, e entre as duas cabe tudo o que nos faz humanos.

O meu país sabe disso na carne. Em 1950, no Maracanã lotado, 200 mil pessoas viram a vida escapar entre os dedos, e ainda assim o Brasil não morreu. Levantou. Oito anos depois, daquele mesmo chão de luto, ergueu a primeira estrela.

Ninguém ressuscita sem antes descer ao fundo, e não há vitória que não tenha passado por alguma morte.

O futebol é uma escola de humanidade, e como toda escola tem suas lições difíceis. Às vezes vemos quem confunde talento com grandeza, quem ganhou um microfone do tamanho do mundo e ainda não sabe o que fazer com ele. Não é maldade, é a parte da história que ainda não amadureceu.

Mas o que me move são os outros, e são tantos! Penso no menino africano que perdeu o pai porque o vilarejo não tinha onde tratar um doente e que, com o dinheiro, voltou para casa, construiu um hospital, uma escola, um estádio, levou energia e passou a amparar cada família do lugar. Penso no jogador que, em meio à guerra civil do seu país, se ajoelhou diante das câmeras e pediu aos seus que baixassem as armas. Gente que transformou fama em cuidado e talento em gesto.

É isso que separa os vivos dos mortos, dentro e fora do campo. Não é o placar, mas o que se faz com o que se conquistou, porque a vida só faz sentido quando se reparte, e quem reparte vive duas vezes.

E há nisso uma verdade que me toca como brasileira. Que bênção termos tanto da África no sangue, e como me orgulho dessa herança. Meu desejo é que cada descendente dessa matriz potente se reconheça nela e celebre seu DNA, porque há grandeza ali, esperando ser reivindicada.

Enquanto escrevo, vai me preenchendo uma esperança: será que ainda estarei viva para colecionar um álbum de figurinhas do futebol feminino? Mulheres que correm, caem, levantam e vencem sem trair a própria grandeza. Queria colar cada uma delas e sentir que o jogo, enfim, virou o que sempre soube poder ser, um lugar onde a vitória combina com a decência.

Perder é morrer, mas morrer não é o oposto de viver. É parte de viver. O que dá sentido a tudo é a generosidade, a vida que se oferece e multiplica.

E, enquanto houver quem erga hospitais em vez de monumentos a si mesmo, quem use a voz para calar os fuzis, mulheres que joguem inteiras e sem pequenez e um povo capaz de se levantar do chão do Maracanã para voltar a sonhar, haverá vida. Profunda, dolorosa, magnífica.

E se um dia o apito final vier para todos nós, que ele nos encontre assim: dentro do jogo, suados, inteiros, tendo perdido muito, vivido mais ainda e dado de nós alguma coisa que ficou de pé depois que partimos.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas