A porcentagem de brasileiros que acreditam que o Brasil conquistará a Copa do Mundo é 29%, o menor índice da série do Datafolha, inaugurada em 1994. O recorde de pessimismo se registrara na pesquisa anterior, de julho de 2025, quando 33% dos pesquisados acreditavam no título. Essa tendência é uma ótima notícia. Mais ou menos como preconizava Antonio Gramsci, a Canarinho em Copas só consegue mobilizar o otimismo da vontade quando temperado pelo pessimismo do intelecto.
Chegar como favoritos sempre foi péssimo. Para Copas anteriores a 1994, os medidores não eram tão precisos, mas toda a evidência empírica sugere que em 1950 e 1982, por exemplo, nossa percepção de favoritismo era altíssima. Em 2006, registrou-se o recorde da série do Datafolha, 56%. Fomos vice-campeões em uma dessas Copas e não chegamos sequer às semifinais nas outras duas.
Só os cracudos saberão, mas aquela que é considerada a maior seleção da história saiu do Brasil desacreditada em 1970, abalada pela troca de técnico no último minuto e derrotada, em pleno Beira-Rio, por uma Argentina que nem havia conseguido se classificar para o torneio.
Não é trivial apontar que os 29% da Canarinho não configuram liderança. Quem vence por pluralidade são os 35% que respondem à pergunta “na sua opinião, quem vencerá a Copa do Mundo de 2026?” com um sábio “não sei”.
A soma das outras seleções ultrapassar a brasileira (34% a 29%) não é índice de crise e sim indicador de amadurecimento do torcedor brasileiro, que parece ir se desapegando da ideia de que basta o Brasil “jogar como Brasil” para que o título aconteça naturalmente. É sempre saudável que o torcedor compute os méritos do adversário na avaliação da própria equipe.
O salto da França, de 6% na pesquisa de julho de 2025 para 17% nesta última, não é prova de alguma súbita ascensão. No amistoso de março, o torcedor brasileiro médio, não cracudo, pôde observar o poderio da seleção francesa. A volatilidade é uma marca essencial do torcedor. Bem mais que na política, as pesquisas de opinião no futebol costumam registrar mudanças repentinas.
O aumento na porcentagem de brasileiros que defendem a convocação de Neymar ao serem questionados sobre isso subiu de 48%, em junho de 2025, para 53%. É uma pena que o Datafolha não tenha usado pergunta semelhante à que chamamos, em pesquisa eleitoral, de espontânea (em que o eleitor deve se lembrar do nome do candidato), por oposição à estimulada (em que o eleitor recebe uma lista).
Ante uma pergunta neutra, como “há algum jogador não convocado por Ancelotti que você levaria para a Copa?”, minha suspeita é que o resultado seria bem diferente do de 2002, quando jornalistas não podiam sair às ruas com um microfone para conversar sobre a seleção sem ouvir “queremos Romário”.
Para quem segue o dia a dia das arquibancadas e das redes, a reivindicação da convocação de Neymar se configura como um lobby, no sentido estrito. Longe de vir organicamente da torcida, o reclamo parece fabricado por influencers, um setor do jornalismo e ex-jogadores submetidos à economia dos cliques. Nas redes, esse reclamo tende a ser rejeitado pela maioria.
Em suma, nem o aumento no apoio a Neymar (na estimulada, insisto, não na espontânea) significa que ele tenha voltado a jogar algo que se assemelhe a futebol de alto nível competitivo, nem a diminuição do nosso favoritismo significa que as chances hoje sejam menores. O melhor combustível da Canarinho em Copas sempre foi chegar desacreditada.
Autor: Folha




















