Há tempos que não entro mais no poço de sujeira mental e ralo de tempo que viraram as tais redes sociais. Tal qual a vida, elas evoluem por auto-organização dentro dos limites do sistema, onde acontece aquilo que pode, não o que é “necessário” ou “melhor”. Na vida, são moléculas e células que se auto-organizam, dadas as limitações da física e do que está escrito nos genes, que sempre varia um pouco, então novidades acontecem, e como o mundo é um lugar enorme, tem lugar para todos. Tem sistema nervoso? Tá ótimo. Não tem? Tá bom também. Pôs todas as energias num filho só? Funciona. Dividiu em milhares, dos quais só um punhadinho vai ter condições de seguir adiante? Funciona também.
As plataformas sociais, onde os elementos que se auto-organizam são os usuários, também começaram assim, onde tinha gosto e oportunidade para tudo, e cada um encontrava sua turma. Mas, ao contrário da vida, que não tem agente, os lordes das plataformas meteram o dedo, porque podiam, e, em nome da maximização do lucro, impuseram uma nova limitação: a lógica Darwinista da sobrevivência do mais apto, na forma de algoritmos que empurram para cima tudo o que já estava subindo sozinho.
Ao contrário da vida, onde continua existindo lugar para todo mundo justamente porque ninguém precisa ser o mais-mais para ter lugar ao sol e portanto a diversidade prevalece, nas plataformas sociais –que hoje incluem YouTube, cooptado como tal– impera a mesmice porque todo mundo é forçado a ver primeiro o que está dando mais ibope.
As redes poderiam ser um lugar razoável ainda assim, se o que desse ibope fosse bonito, construtivo, edificante, aquele tipo de coisa que vale nosso tempo e esforço de rolar tela. Mas não: o que mais dá ibope e engajamento é o que gera repulsa, indignação e ódio, então as redes, graças aos algoritmos de sobrevivência do mais forte, viraram um poço de sujeira. Por que a sujeira dá tanto ibope?
Tenho minha teoria: porque passar à ação exige motivação, que é aquela sensação gerada pelo cérebro de que o esforço vai valer a pena. Para o cérebro, usar energia mental para manifestar apoio e concordância não vale muito a pena, pois aquilo em que você acredita já está ali, dito na tela. Aos olhos dos circuitos que avaliam qual será sua próxima ação, seu esforço não terá grandes consequências; sua ação não vai mudar grandes coisas.
Mas quando você discorda, o cérebro entende que o outro lado precisa ser iluminado pela sua sabedoria, e que agir para protestar vale o gasto de energia. E quanto mais ultrajante é o que os algoritmos botam na sua tela, mais motivação o cérebro encontra para agir em resposta, e mais rápido você se manifesta –que é exatamente o que os algoritmos, o “cérebro” do outro lado, usam para decidir o que os outros verão a seguir. O resultado inevitável desta lógica da riqueza-gera-riqueza, em vez da celebração da diversidade, é que o ódio impera nas redes sociais.
Há duas soluções evidentes. Uma é os lordes das plataformas abolirem a sobrevivência do mais apto-a-gerar-engajamento e voltarem a deixar a diversidade reinar.
Enquanto esse dia de São Nunca não chega, a outra solução está ao seu alcance: não dar seus neurônios, digo, ibope, para o ódio. Não há nada que o ódio deteste mais do que ser ignorado…
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Autor: Folha




















