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Psicodélicos: como aprender coragem com plantas – 29/10/2026 – Virada Psicodélica

Diante do perigo, animais têm de decidir se ficam e encaram a ameaça ou se saem correndo, dilema bem capturado na concisão típica do inglês com a frase “fight or flight”. No caso de animais humanos, a primeira reação costuma ser associada com coragem, em termos morais, e a segunda, com covardia (sinta-se o leitor livre para escolher qual juízo cabe melhor para o desfecho da eleição presidencial).

No senso comum, o uso de drogas não raro se associa com fuga, na expressão “fuga da realidade”, com forte conotação moralista. Há aí algum puritanismo hipócrita contra a busca de prazer, em culturas que apesar disso chancelam o consumo de álcool. E existe uma classe de substâncias, psicodélicos como LSD e psilocibina, em que essa dicotomia carola não faz o menor sentido.

Só quem nunca tomou ayahuasca pode cometer o disparate de dizer que se faz uso “recreativo”, por exemplo, dessa bebida de origem amazônica. Durante quatro horas ou mais, a pessoa passa por vários estados mentais, que podem envolver júbilo, sim, e visões maravilhosas (“mirações”, como se diz em círculos ayahuasqueiros), mas também sofrimento, náusea, terror, sudorese e outras manifestações desagradáveis, que podem escalar e aplicar no sujeito a famosa “peia” (surra).

A ayahuasca se obtém com o cozimento horas a fio de duas plantas, a chacrona (Psychotria viridis) e o cipó mariri, ou jagube (Banisteriopsis caapi). Pode ser útil pensar no que se busca com a beberagem –com licença para a metáfora– a partir da perspectiva dos vegetais que elas são e não dos animais que nós somos. Qualquer que seja a disposição do entorno da planta, sendo ela um organismo fixo, literalmente enraizado no lugar, não existe escolha senão enfrentar o que vier.

Quem se entrega à ayahuasca ou a outro psicodélico não está necessariamente em fuga. Pode bem estar explorando o solo escuro do inconsciente, buscando os nutrientes produzidos na decomposição universal e a água que aplaca a sede de tudo que vive. Diante dos predadores, dos ventos e dos invernos, dispõe-se a sacrificar partes vitais, como folhas, flores e frutos, confiando na capacidade própria de regenerar-se. A resiliência vegetal pode nos ensinar muita coisa.

Não por acaso chacrona e jurema-preta recebem a qualificação de plantas professoras em contextos tradicionais, seres dotados de espírito que se comunicam com outros seres vivos, aí incluídos os humanos. Sob efeito do psicodélico DMT nelas presente, algumas pessoas ouvem vozes e têm lampejos que parecem vir das próprias plantas, o que pode revelar-se muito produtivo em psicoterapia, como assinalam Rodolfo Olivieri, Christine Avedikian, Mário Eduardo Costa Pereira e Luís Fernando Tófoli em artigo recente.

Chega de metáforas, passemos à etimologia. Psicodélicos são substâncias reveladoras da alma, como sugerem os radicais gregos articulados pelo médico Humphry Osmond ao cunhar o neologismo 70 anos atrás. Seu potencial terapêutico vem de moléculas que modulam a atividade cerebral de modo a desencadear uma experiência subjetiva profunda, por vezes transformadora.

Requer-se coragem para embarcar nessa viagem, como fizeram Daria e Mark no filme Zabriskie Point e Michel Foucault no mesmo deserto do Vale da Morte. Para fugir da realidade, basta ao covarde se valer de um jatinho, metafórica ou literalmente, se for adepto compulsivo do autoengano ou acumpliciar-se com Daniel Vorcaro e Willer Tomaz.


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Autor: Folha

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