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Psicodélicos: Regulamentação avança com audiência na FDA – 24/09/2026 – Virada Psicodélica

A popularidade de Donald Trump está em queda nos EUA, mas segue intacto seu poder de alavancar mudanças –quase sempre para o mal, com o caso dos psicodélicos como exceção a confirmar a regra. Sua ordem executiva de abril mandando acelerar pesquisas pôs a máquina estatal ianque em marcha, como se viu na audiência pública da agência de fármacos FDA em 14 de setembro.

O mote era “Considerações sobre o Potencial Uso Terapêutico Futuro de Drogas Psicodélicas”. Cerca de 300 pessoas compareceram ao campus White Oak da FDA em Maryland e outro milhar acompanhou pela rede digital o encontro em que 80 apresentadores tiveram dois minutos cada para vender seu peixe.

Além de funcionários graduados da agência, a mesa tinha representantes das repartições federais Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (Nida), Departamento de Assuntos de Veteranos (VA), Administração de Abuso de Substâncias e Serviços de Saúde Mental (Samhsa) e Agência para Projetos de Pesquisa Avançada em Saúde (Arpa-H). Todos se limitaram a ouvir, sem perguntas.

Josh Hardman, do boletim Psychedelic Alpha, fez um esclarecedor relato da sessão. O tom geral foi quase de propaganda, com a maioria dos apresentadores defendendo presteza do governo na regulamentação dos tratamentos para transtornos como estresse pós-traumático e depressão e expondo suas visões sobre protocolos, segurança e credenciamento de profissionais ou clínicas.

Ouviram-se poucas vozes contrárias ou pedindo cautela. Uma foi a de Susan Taymor Sagy, que relatou a morte da filha de 21 anos depois de usar psicodélicos. A educação pública não pode ser tratada como algo secundário, ela disse ao painel, pois a aprovação de um psicodélico pela FDA teria enorme peso cultural.

O único crítico direto foi Kevin Sabet, ativo no campo das políticas sobre drogas. Ele enfatizou não ter conflitos éticos a declarar, em oposição a outros oradores: “Posso afirmar com segurança que sou um dos poucos aqui sem interesse financeiro na expansão do uso de psicodélicos”.

“Os psicodélicos devem obter aprovação da mesma forma que qualquer outra classe de medicamentos: por meio da ciência e de ensaios clínicos, não da política ou de podcasters”, afirmou, em alusão a Bryan Hubbard, da organização Americans for Ibogaine, e ao influenciador Joe Rogan, que lideraram o lobby junto a Trump.

“Continuo muito preocupado ao ouvir defensores –inclusive alguns dos mais populares, aqueles que chegaram ao Salão Oval– cogitando uma revolução violenta caso os psicodélicos não sejam aprovados”, disse Sabet, segundo Hardman referindo-se a um vídeo de Hubbard com a frase de John F. Kennedy no tempo da Guerra Fria: “Aqueles que tornam impossível a revolução pacífica tornarão inevitável a revolução violenta”.

Não parece provável que Hubbard e Rogan peguem em armas caso a FDA rejeite novamente uma terapia psicodélica, como fez em 2024 com a MDMA (ecstasy), até porque agora a agência dá sinais de que fará a regulamentação a toque de caixa. Mas o tom belicoso tem algo a ver com a entrada da direita na arena psicodélica, numa cruzada em favor dos veteranos mentalmente arrasados nas sucessivas guerras imperialistas dos EUA.

A firma Resilient (ex-Lykos, ex-Maps PBC) confia que a FDA sob nova direção trumpista reexaminará sua solicitação fracassada de licença sem ter de realizar novo e milionário estudo de fase 3 de MDMA para estresse pós-traumático, como exigido em 2024. Mas a bola da vez não é a herdeira da Maps (Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos), mas sim a psilocibina (princípio ativo dos cogumelos “mágicos”) em fórmula sintética para depressão da empresa Compass Pathways, que deve formalizar pedido à agência no ano que vem.

A expectativa na reunião da FDA sugere que a agência permita algum psicodélico no mercado ainda em 2027, porém isso não garantiria acesso amplo à inovação. A depender das regras de segurança e controle nas futuras bulas, seguros de saúde poderão ou não aceitar reembolsar os tratamentos –caso incluam, por exemplo, a concomitante psicoterapia que não poucos oradores declararam imprescindível e que algumas empresas, como a Compass, preferem limar dos protocolos.

Outros países seguem vias diferentes de regulamentação, como Alemanha, Austrália, Canadá, República Tcheca ou Suíça, entre outros lugares em que MDMA e/ou psilocibina podem ser receitados em casos especiais. Um dos avanços recentes se deu na Nova Zelândia, que havia autorizado psilocibina há pouco mais de um ano e agora fez o mesmo com MDMA; em ambos os casos, contudo, apenas dois psiquiatras –sim, DOIS– receberam a permissão do órgão regulador Medsafe.


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Autor: Folha

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