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Viajar para caminhar e pensar: o que isso nos ensina? – 24/09/2026 – Equilíbrio

Quilômetros de caminhada, paisagens espetaculares, músculos doloridos e muito tempo para pensar. Numa travessia, a jornada começa em um ponto e termina em outro, cruzando dunas, serras, vales ou montanhas ao longo de vários dias. Embora a palavra esteja desgastada como metáfora, aqui ela recupera seu sentido literal e simbólico: quem se propõe a andar por horas a fio realmente atravessa desafios importantes, físicos e mentais.

No catálogo brasileiro de travessias, há percursos exigentes, com subidas íngremes e escaladas, a exemplo do trajeto entre os picos dos Marins (SP) e Itaguaré (MG), ou do trekking entre Petrópolis e Teresópolis (RJ). Outros requerem menos habilidades, mas cobram longas caminhadas diárias, como no Vale do Pati (BA) e nos Lençóis Maranhenses (MA). Seja qual for a escolha, uma coisa é certa: você vai voltar diferente.

Limites e superação

Após muitas subidas e descidas, noites em condições adversas e dias sem sinal de celular, é normal se perguntar se vai dar conta de chegar ao fim. Mas é justamente no encontro com o desconforto e o silêncio que surgem reflexões capazes de permanecer após o fim do trekking. Nos momentos mais difíceis, as paisagens espetaculares ajudam a lembrar por que todo aquele esforço vale a pena.

Boa parte das travessias que vêm ganhando notoriedade no Brasil não exige preparação física de atleta. Mas nem por isso é fácil. Dependendo do destino, as caminhadas diárias podem ultrapassar os 15 km, com direito a obstáculos, mudanças de temperatura, trechos de areia fofa, pedras ou travessias de rio. Por essas e outras, estar com o condicionamento em dia permite aproveitar mais o caminho e não apenas sobreviver a ele.

Uma viagem desse tipo é uma oportunidade de descobrir que o corpo tem mais força e capacidade de recuperação do que se imagina. E não há muitos atalhos para isso: embora o resgate esteja disponível em caso de emergência, o cansaço, por si só, raramente é motivo para abandonar o percurso. “Você quer, mas também não quer que acabe. Vai pegando mais gosto a cada dia, entendendo os truques, o melhor jeito de dormir, de guardar as coisas na mochila, de pisar na areia. De repente, caminhar 50 km pelas dunas vira uma missão possível”, diz Manuela Stelzer, repórter do The Summer Hunter, sobre a travessia dos Lençóis Maranhenses.

Identificar o que importa

O ideal é deixar a travessia o mais leve possível, selecionando com cuidado tudo o que vai na mochila e, especialmente, o que não merece espaço nos poucos litros disponíveis. Depois de algumas horas de caminhada, cada grama faz diferença e o supérfluo fica para trás. É impossível não se questionar, em um mundo marcado pelo consumismo e pelo excesso, de quanta coisa a gente realmente precisa. Nossos bens materiais perdem importância quando tudo o que um trekking demanda —de produtos de higiene a roupas— precisa ser carregado nos próprios ombros.

Quando o destino é a travessia em si, a viagem acontece no percurso: desconhecidos viram amigos depois de dias dividindo refeições, bolhas nos pés e anedotas pessoais; alguém recebe um cutucão no meio da noite porque o ronco está alto demais; o grupo para para esperar um colega recuperar o fôlego durante a trilha. Os guias e anfitriões locais são responsáveis por apresentar o território e a maneira de atravessá-lo com respeito. Eles sabem onde a areia afunda, qual rio é raso o suficiente para cruzar e o que fazer quando um imprevisto acontece. Andar é a maneira mais analógica de conhecer um lugar em profundidade, não apenas pela paisagem, mas pelas histórias de quem vive ali.

Recuperar a atenção

A repetição dos passos também muda nossa relação com o tempo. Sem notificações, compromissos ou muitas decisões a tomar, a mente reduz o ritmo e a atenção se volta para o que está ao redor: a mudança da luz, o vento, a textura do terreno, a própria respiração. Caminhar por horas pode parecer monótono, mas é essa falta de estímulos constantes que abre espaço para pensamentos que a rotina costuma interromper. Aos poucos, as ideias se organizam.

Claro que há perrengues e momentos em que tudo o que desejamos é voltar para o conforto do nosso lar. Mas uma travessia também ensina que alguns processos não podem ser acelerados. É preciso caminhar, descansar e, no dia seguinte, colocar as pernas para funcionar de novo. É nesse ritmo, entre um passo e outro, que a travessia cumpre seu percurso mais profundo, nos aproximando do entorno, dos outros e de quem somos quando todo o resto fica para trás.

Autor: Folha

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