
O número de empresas em recuperação judicial cresceu 20,5% em um ano, passando de 6.409 para 7.726 organizações, segundo levantamento da consultoria de reestruturação corporativa RGF Associados. O crescimento ocorreu entre junho de 2025 e junho de 2026.
Quem puxou essa expansão foi o agronegócio, com alta de 66%, o equivalente a mais de três vezes o crescimento nacional. No fim do primeiro semestre, eram 1.263 empresas e produtores rurais em recuperação judicial, mais de dois terços deles de microempresas ou empresas de pequeno porte.
O agro foi seguido pelo comércio, que registrou alta de 22% nas recuperações judiciais em 12 meses, e pela indústria de transformação, com avanço de 9%. Nos serviços, o cenário é mais heterogêneo, com alguns segmentos sob forte pressão e outros apresentando redução nos pedidos de recuperação judicial.
Para especialistas ouvidos pela reportagem, o ambiente de juros elevados, crédito mais caro e restrito e menor capacidade de consumo e investimento tem pressionado o caixa de muitas empresas brasileiras e levado um número maior delas a buscar uma saída pela via judicial.
A esses fatores macroeconômicos se somam, porém, problemas específicos de cada setor, como as oscilações dos preços das commodities e eventos climáticos no agro, a concorrência e a mudança nos hábitos de consumo no comércio e os custos de produção e financiamento na indústria.
Crise no campo é financeira
A proporção de empresas e produtores rurais em recuperação judicial no agro chegou a 1,8 caso a cada mil empresas ativas, mais de duas vezes e meia o índice da indústria de transformação, de 0,7 por mil.
Segundo a RGF, quatro fatores ajudam a explicar a pressão sobre o setor: queda nos preços das commodities, eventos climáticos, necessidade elevada de capital de giro e encarecimento do crédito rural.
A combinação desses fatores pressionou o caixa dos produtores. A cadeia da soja concentra o maior número de recuperações judiciais no campo, seguida pela pecuária de corte. A cana-de-açúcar também aparece entre os segmentos mais pressionados.
Segundo a RGF, o produtor rural tem uma particularidade em relação a empresas de outros setores: a terra, principal ativo do negócio, continua sendo produtiva. A recuperação judicial pode, portanto, permitir a reorganização das dívidas e a continuidade da atividade em vez da liquidação do negócio.
A pressão financeira não se limita aos produtores rurais. Ela também alcança empresas que fornecem insumos, máquinas e serviços ao agronegócio.
Usinas de açúcar e frigoríficos apresentam índices elevados de recuperação judicial. Nas usinas, são 52,6 casos a cada mil empresas; nos frigoríficos, 17,3 por mil.
Fabricantes de fertilizantes e defensivos, além de empresas de máquinas e equipamentos agrícolas, também sofrem com margens comprimidas e crédito caro. Com o juro real brasileiro próximo de 9% ao ano, ficou mais pesado financiar estoques e bens de capital de longo prazo, como colheitadeiras e tratores.
Um dos principais casos do setor é o da Agrogalaxy, que comercializava fertilizantes, defensivos e outros insumos para produtores rurais. Quando pediu recuperação judicial, em setembro de 2024, a empresa acumulava R$ 4,1 bilhões em dívidas. Entre os problemas estavam o elevado endividamento, o cenário adverso no campo e quebras de safra.
Indústria: recuperações crescem menos, mas empresas quebram mais
A indústria de transformação tinha 1.455 empresas em recuperação judicial ao fim de junho, alta de 9% em 12 meses. Foi um crescimento bem menor que o registrado no agro.
Segundo a RGF, o setor sofre com o alto custo do crédito e com dívidas contraídas em períodos anteriores de juros mais baixos. A maior seletividade dos bancos, com exigência de mais garantias e spreads elevados, dificulta a renegociação desses passivos.
“O ambiente de crédito permanece restritivo e, embora o ciclo de flexibilização monetária tenha sido iniciado, os cortes de juros seguem graduais e insuficientes para alterar de forma relevante as condições de financiamento das empresas”, diz a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack.
A fabricante de brinquedos Estrela é um exemplo. O plano de recuperação judicial da empresa foi protocolado em agosto e ocorre em meio a dificuldades financeiras e à mudança nos hábitos de consumo infantil, com o avanço das alternativas digitais.
A indústria também apresenta uma proporção relevante de falências. Segundo a consultoria, o número de empresas que chegam à falência equivale a pouco mais da metade do volume de recuperações judiciais em andamento no setor.
Comércio e serviços vivem realidades diferentes
O comércio concentra o maior número absoluto de empresas em recuperação judicial no país. Eram 1.649 CNPJs no fim do primeiro semestre, alta de 22% em 12 meses.
As varejistas enfrentam uma combinação de margens pressionadas, juros elevados e dificuldade para carregar dívidas. O crédito mais restrito e a perda de poder de compra das famílias também reduzem o consumo.
A Casas Bahia é um dos casos mais recentes. A varejista pediu recuperação judicial em agosto, após registrar prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre. A empresa enfrenta dificuldades relacionadas aos juros elevados, à inadimplência e à concorrência no setor.
Nos serviços, o comportamento é mais heterogêneo. O transporte de cargas concentra três em cada quatro recuperações judiciais do setor e é particularmente sensível aos preços do diesel, aos valores dos fretes e às taxas de juros.
Na saúde, por outro lado, o número de empresas em recuperação judicial caiu de 128 para 123 CNPJs no segundo trimestre de 2026, uma redução de 3,9%.
Os casos mais graves entre empresas de grande porte nem sempre aparecem nas estatísticas de recuperação judicial. Companhias maiores podem recorrer a acordos extrajudiciais para renegociar dívidas bilionárias. É o caso da Oncoclínicas, que está entre as empresas que reorganizaram passivos por essa via. O relatório da RGF-Bizdoc aponta que Raízen, GPA e Oncoclínicas reorganizaram, juntas, cerca de R$ 75 bilhões por meio de recuperações extrajudiciais.
“A demanda estrutural crescente não protege contra o crescimento financiado por dívida cara, recebíveis longos de operadoras fragilizadas e caixa curto”, explicam os especialistas da RGF Associados.
Autor: Gazeta do Povo








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