Menstruação que demora para vir, ciclos com intervalos muito curtos e sangramento intenso podem ser sinais de diferentes doenças, como endometriose, miomas e Somp (Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina).
Antes chamada de síndrome dos ovários policísticos, a condição foi rebatizada de Somp em 2026 para refletir de forma mais fiel a natureza hormonal, metabólica e reprodutiva da doença.
Neste mês de conscientização sobre a Somp, a reportagem ouviu Anne Pereira, ginecologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, e Cristina Laguna Benetti Pinto, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), para falar sobre causas, sintomas, diagnóstico e tratamento da doença.
O antigo nome, SOP (Síndrome do Ovário Policístico), focava alterações visíveis nos ovários, como aumento de tamanho e presença de pequenos cistos. Isso, porém, sempre foi apenas parte do quadro clínico, afirma Cristina Laguna.
“O ovário é parte da história, não é a história inteira”, diz Anne Pereira. Segundo ela, uma mulher pode ter a síndrome sem apresentar a clássica imagem de ovários policísticos no ultrassom, e o objetivo da mudança de nome é evitar que o diagnóstico e o tratamento fiquem restritos a esse achado.
Na origem do distúrbio está uma alteração metabólica chamada resistência insulínica, explica Cristina Laguna. É esse problema, que se não tratado tem repercussões graves no organismo da mulher, que o novo nome procura destacar. Por afetar diferentes glândulas e sistemas do corpo, a síndrome também passou a ser chamada de poliendócrina.
Sintomas mudam ao longo da vida
O diagnóstico costuma ocorrer ainda na juventude, na idade da menarca, geralmente motivado pela irregularidade do ciclo menstrual e por sinais de excesso de andrógenos, como acne, aumento de pelos e queda de cabelo. Alterações na ovulação também estão entre as manifestações mais comuns, segundo as especialistas.
Com o tempo, a síndrome pode se refletir em maior risco de obesidade, com acúmulo de gordura principalmente na região abdominal, resistência à insulina e diabetes tipo 2. Essas alterações metabólicas, somadas a mudanças no perfil de colesterol e triglicérides, aumentam as chances de doenças cardiovasculares, como infarto e AVC.
A irregularidade do ciclo também está associada a sangramentos mais intensos durante a menstruação e a maior risco de câncer de endométrio.
Entre as mulheres com a síndrome, a dificuldade para engravidar é uma das queixas mais frequentes. Distúrbios do sono, ansiedade, depressão e alterações na imagem corporal também aparecem com mais frequência entre essas pacientes, afirma Anne Pereira.
Por esses motivos, a condição não pode ser tratada apenas como um problema ginecológico e deve ser acompanhada ao longo de toda a vida da mulher.
A dor pélvica não é uma manifestação diretamente associada à síndrome. Segundo Cristina Laguna, a dor pélvica persistente precisa ser investigada e não deve ser atribuída automaticamente à Somp. Um ovário aumentado, por exemplo, pode elevar o risco de torção ovariana, mas o quadro é raro, diz a especialista.
As múltiplas causas da Somp
A síndrome resulta da interação entre predisposição genética e fatores epigenéticos e ambientais, não de um único gene, afirma Anne Pereira. Ter familiares com a condição aumenta a atenção para o diagnóstico, mas não significa que a mulher necessariamente vá desenvolver a doença.
O oposto também é verdadeiro. Uma mulher pode manifestar a síndrome mesmo sem nenhum caso conhecido na família. Existe predisposição hereditária, mas não há um destino genético inevitável, diz a ginecologista.
Diagnóstico complexo e tratamento individualizado
Não existe um exame isolado capaz de diagnosticar a síndrome, e um ultrassom com ovários aumentados ou com múltiplos folículos, por si só, não fecha o diagnóstico. Ao menos 1 em cada 4 mulheres jovens tem esse achado no exame sem ter a doença, afirma Cristina Laguna.
O hormônio antimülleriano também já é usado como alternativa ao ultrassom para avaliar a morfologia dos ovários.
Em mulheres adultas, o diagnóstico de Somp considera três componentes principais: a irregularidade da ovulação, o excesso de andrógenos e a morfologia ovariana policística.
A presença de pelo menos dois desses fatores, depois de descartadas outras doenças com sintomas parecidos, pode confirmar o quadro. Alterações na glândula adrenal, por exemplo, podem provocar sinais clínicos semelhantes aos da Somp, explica Cristina Laguna.
Por não existir uma fórmula única, o tratamento também é individualizado, de acordo com a idade da paciente, os sintomas apresentados e o desejo ou não de engravidar.
Atividade física, alimentação equilibrada e controle de peso são recomendados para todos os casos, junto ao acompanhamento de diferentes especialidades médicas.
Autor: Folha








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