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Sucesso de Marrocos melhora imagem de países muçulmanos – 08/05/2026 – Esporte

Primeira seleção africana a se classificar para a Copa do Mundo de 2026, Marrocos levará para a América do Norte não apenas o futebol que o transformou na primeira nação do continente a alcançar uma semifinal de Mundial, em 2022, mas também a imagem que ajudou a projetar para o mundo, de um país de maioria muçulmana, pronto para desafiar estereótipos.

Após cada uma de suas marcantes vitórias no Qatar, como superar a Espanha nos pênaltis nas oitavas de final e passar por Portugal de Cristiano Ronaldo nas quartas, os jogadores marroquinos se ajoelhavam no gramado, com suas cabeças tocando o chão, em um gesto coletivo de agradecimento a Alá.

A cena, repetida diante de milhões de espectadores ao redor do mundo todo, transformou momentos esportivos em manifestações públicas de fé e identidade, a despeito da proibição da Fifa de exibições desse tipo em partidas oficiais.

Nas arquibancadas, a mobilização da torcida, que soube aproveitar a primeira edição em um país árabe, também chamou a atenção. Embalada por instrumentos e bandeiras, os marroquinos protagonizaram festas vibrantes ao longo da competição, comparável apenas à dos argentinos, que carregaram sua seleção até o título.

Para Marrocos, no entanto, mais do que resultados esportivos, a jornada no Qatar ajudou a construir uma narrativa que superou o futebol. “O bom desempenho de Marrocos reconfigurou a imagem de sociedades islâmicas, que muitas vezes são associadas ao terrorismo ou à opressão”, afirmou Francirosy Campos Barbosa, pesquisadora com pós-doutorado em teologia islâmica pela Universidade de Oxford.

O país africano tem 99% de sua população professando a fé muçulmana. A religião é oficial de Estado, apesar de o país ser tolerante com cristãos e judeus.

“O Islã é muito comunidade, muito família, e isso apareceu na Copa, como nas imagens dos jogadores com suas mães”, acrescentou Francirosy, também especialista em islamofobia.

As mães dos jogadores marroquinos construíram um capítulo à parte no Mundial. Levadas aos Qatar pela Real Federação Marroquina de Futebol, que hospedou boa parte dos familiares no mesmo hotel da delegação, elas foram reverenciadas por seus filhos.

A dança do meia-atacante Sofiena Boufal com sua mãe no gramado, o abraço do então técnico da seleção Walid Regragui e o beijo do lateral Hakimi também direcionados a suas mães foram reflexos da criação árabe-muçulmana, que tem a figura materna quase como uma entidade na família.

“Pensamos sobre os detalhes de trazer nossos familiares para tentar construir um espírito de equipe e isso nos ajudou a ir longe no torneio”, disse Regragui pouco depois da vitória sobre Portugal.

A projeção construída no Qatar ganha novos contornos em 2026. Marrocos disputará a Copa do Mundo com seis jogos concentrados nos Estados Unidos, onde os muçulmanos representam cerca de 1% da população e onde o Islã frequentemente ocupa espaço em debates políticos e culturais marcados por tensões.

Uma das sedes do torneio será o eixo Nova York e Nova Jersey, tratado pela Fifa como uma única praça, palco do confronto com o Brasil e também um dos palcos mais simbólicos do Mundial.

Nova York passou a ter em 2026 seu primeiro prefeito muçulmano, Zohran Mamdani. A presença de um líder muçulmano à frente da cidade adiciona uma dimensão política ao cenário em que a seleção marroquina voltará a se apresentar ao mundo.

Se, no Qatar, Marrocos atuou em um ambiente culturalmente próximo, em um Mundial realizado pela primeira vez em um país árabe, nos Estados Unidos o contexto será outro, com uma vitrine global em que sua imagem dialoga diretamente com percepções externas sobre o mundo islâmico.

Para pesquisadores, o futebol não funciona apenas como esporte, mas como espaço simbólico de disputa e afirmação de identidades nacionais.

“O futebol opera como uma arena em que identidades nacionais são encenadas e contestadas”, afirma Vitória Baldin, pesquisadora e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo.

Essa dimensão também é observada na geopolítica dos grandes eventos. Vinculada ao Centro Henry A. Kissinger para Assuntos Globais, da Johns Hopkins University School of Advanced International Studies, a historiadora Kristina Spohr estuda como esporte e o poder se entrelaçam na construção de imagem internacional.

“Grandes eventos esportivos são usados há décadas para projetar imagem, influência e identidade nacional”, diz.

Nesse cruzamento entre futebol, política e identidade, a seleção marroquina pode repetir em território americano o papel que desempenhou em 2022, transformando o jogo em disputa simbólica.

“O futebol pode ser uma fonte de resistência, de quebra de estereótipos e de aproximação entre culturas.”

Autor: Folha

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