A guerra entre Rússia e Ucrânia ganhou um elemento tático antes vista na Guerra do Vietnã e na Faixa de Gaza: o combate também está ocorrendo no subsolo. Tropas russas vinham usando gasodutos enterrados a quatro metros de profundidade para se infiltrar no território ucraniano e atacar a retaguarda de seu oponente.
Mas na última semana a Ucrânia concluiu uma operação para caçar os russos dentro de um gasoduto de cerca de 15 quilômetros próximo à cidade de Kupiansk, na frente leste de batalha. A ação resultou na eliminação de ao menos 100 combatentes russos e na prisão de 30.
Em vez de se deslocarem exclusivamente por estradas, campos e florestas expostos ao ataque de drones, soldados passaram a usar os gasodutos desativados para chegar a posições próximas da linha de frente, transportar mantimentos e munições e retirar militares feridos.
A adaptação se explica em um campo de batalha dominado por drones. Os equipamentos aéreos não tripulados, empregados para observar e atacar alvos, tornaram arriscado qualquer deslocamento na superfície. Nesse cenário, estruturas subterrâneas construídas originalmente para transportar gás passaram a funcionar como corredores militares.
O jornal americano New York Times comprovou que esse tipo de combate está se intensificando ao enviar repórteres para acompanhar o combate nos gasodutos em Kupiansk. Os jornalistas classificaram o cenário visto como “pós-apocalíptico” e relataram que o combate ocorre em canos de 1,2 metro de diâmetro e túneis de apoio cavados próximo dessas estruturas.
Os militares não conseguem permanecer em pé dentro dessas tubulações. Mesmo assim, passam períodos prolongados no subsolo, enfrentando condições difíceis e utilizando pequenos veículos elétricos para percorrer os corredores. A estrutura serve tanto para o deslocamento de tropas quanto para o transporte de alimentos, munições e outros materiais necessários à manutenção das posições.
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Como gasodutos da Ucrânia viraram rotas de infiltração e batalhas ocultas
A infraestrutura de transporte de gás natural que atravessa o território ucraniano ligando a Rússia a países europeus se converteu em um campo de batalha subterrâneo no leste da Ucrânia. A recente “Operação Veles” expôs o uso das galerias de gasodutos como eixos estratégicos de infiltração militar e combate tático na frente de Kupiansk.
Com tubulações de cerca de 1,20 metro de altura, o que obriga os combatentes a se deslocarem curvados, e enterrados a aproximadamente 4 metros abaixo do solo, os dutos oferecem abrigo contra a vigilância e o ataque de drones de superfície, setor em que as forças ucranianas mantêm vantagem tática.
A estratégia russa consistia em utilizar a malha subterrânea para cruzar barreiras aquáticas estratégicas, como o rio Oskil, por baixo d’água, evitando os riscos de uma travessia anfíbia exposta na superfície. Registros do campo de batalha indicam que tropas russas chegaram a empregar pequenos carrinhos e motocicletas adaptadas no interior das galerias para movimentar homens e suprimentos entre as localidades de Holubivka, Radkivka e Mirove, flanqueando posições defensivas.
Ao identificar a rota de infiltração e a reduzida presença russa em determinados trechos, as forças armadas da Ucrânia deflagraram uma incursão direta para dentro dos dutos a partir dos acessos em Mirove e Radkivka, travando combates no interior da tubulação até alcançarem Holubivka.
Os ucranianos enfrentaram os russos com metralhadoras e granadas dentro do gasoduto. Sem conseguir avançar, cortaram as paredes do gasoduto, cavaram um túnel paralelo e novamente cortaram a parede do gasoduto mais à frente, flanqueando a posição de defesa dos russos.
A manobra resultou na captura de prisioneiros e na retomada do controle ucraniano sobre os trechos subterrâneos que ultrapassam a margem do rio.
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Resistência das estruturas e impasse tático
A destruição total da rede por meio de explosivos se mostrou inviável por conta da alta resistência da estrutura metálica, cujas paredes superam 1,5 centímetro de espessura de aço, associada à espessa camada de solo. Em vez de explodir os dutos, os ucranianos passaram a implementar táticas de entupimento e bloqueio físico das galerias para impedir novas incursões.
Por sua vez, as tropas russas têm recorrido também à perfuração externa das paredes dos tubos e a escavações laterais na tentativa de desobstruir as passagens, sinalizando o desdobramento de uma guerra subterrânea contínua pelo controle das rotas ocultas no front leste.
De corredores de gás a rotas militares
Os gasodutos utilizados pelas forças ucranianas faziam parte de uma infraestrutura construída para transportar gás natural entre Rússia e Ucrânia. A interrupção do trânsito de gás russo pelo território ucraniano, em 1º de janeiro de 2025, ocorreu após o encerramento do acordo de transporte com a Gazprom. A decisão colocou fim ao fluxo de gás russo por aquela rota, mas não significa que toda a rede tenha sido abandonada ou esteja sendo utilizada pelas Forças Armadas. A operação militar descrita pelo The New York Times ocorre em trechos desativados nas proximidades de Kupiansk.
Na região, segundo a reportagem, existem aproximadamente 130 quilômetros de tubulações fora de operação. A extensão da rede e sua localização subterrânea transformaram parte dessa infraestrutura em uma alternativa para movimentar militares em uma área onde a exposição ao céu pode representar uma ameaça constante.
A utilização dos dutos não começou com os ucranianos. Tropas russas foram as primeiras a recorrer a essas estruturas durante a guerra, retomando uma prática que lembra o uso de túneis em conflitos anteriores, especialmente na Primeira Guerra Mundial.
No fim de 2025, militares russos utilizaram os corredores subterrâneos para se infiltrar em Kupiansk. Haviam feito o mesmo na campanha de retomada de territórios em Kursk (Rússia).
A movimentação levou as forças ucranianas a estudar a rede e preparar sua própria operação. O 2º Corpo da Guarda Nacional (Khartiia) procurou mapas das tubulações e recorreu a antigos engenheiros que haviam participado da construção do sistema. Um dos desafios teria sido a instalação de ventilação para permitir a permanência dos soldados no ambiente fechado.
O emprego dessa infraestrutura demonstra como instalações civis podem ganhar uma função militar em situações de guerra. No caso ucraniano, a adaptação também responde a uma dificuldade concreta: manter o abastecimento e a circulação de tropas em áreas submetidas à vigilância e aos ataques aéreos.
Operação Veles: avanço subterrâneo de 15 quilômetros
A dimensão mais recente dessa estratégia apareceu em outubro, quando a unidade Khartia anunciou a Operação Veles, realizada na região de Kupiansk. De acordo com informações divulgadas pela unidade militar ucraniana e reproduzidas por veículos internacionais, as tropas avançaram aproximadamente 15 quilômetros por gasodutos subterrâneos até alcançar a retaguarda de posições russas.
O comando ucraniano afirmou que a operação foi planejada depois que seus militares identificaram o uso dos mesmos corredores pelas forças russas para infiltração. A ação teria combinado a movimentação subterrânea com operações na superfície. Segundo o Khartia, mais de 30 soldados russos foram capturados e mais de cem sofreram baixas. Esses números foram divulgados pelas autoridades militares ucranianas.
A operação foi descrita como uma inversão da estratégia utilizada anteriormente pelos russos: depois de identificar a movimentação adversária pelos dutos, os ucranianos passaram a recorrer à mesma infraestrutura para alcançar posições inimigas. A novidade não está apenas na utilização de túneis, conhecidos em conflitos militares há muito tempo, mas na adaptação de uma rede de transporte de gás em escala industrial para a movimentação de tropas em uma guerra marcada pela presença de drones.
A agência ucraniana Ukrinform também publicou informações sobre a operação, citando o comandante do Corpo Khartia, general de brigada Ihor Obolienskyi. Segundo o relato, os militares ucranianos observaram previamente a movimentação russa e prepararam a própria atuação subterrânea.
A Euronews informou em 28 de outubro que a ação permitiu às forças ucranianas utilizar a rede de tubulações para chegar à retaguarda russa em Kupyansk. A emissora destacou que a tática havia sido empregada anteriormente pelas forças de Moscou e foi posteriormente incorporada pelos ucranianos.
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Uma estratégia que pode se expandir
O êxito atribuído às operações subterrâneas levou autoridades ucranianas a considerar outras formas de ampliar o uso de estruturas abaixo da superfície. Segundo duas autoridades militares ouvidas pelo The New York Times, as Forças Armadas avaliam os custos de construir uma rede de túneis que conecte postos de observação, depósitos de suprimentos e unidades de apoio localizadas na retaguarda.
Parte da produção militar e da logística ucraniana já foi transferida para estruturas subterrâneas, segundo a reportagem. A possibilidade de conectar diferentes pontos por meio de túneis indica que a experiência com os gasodutos pode ultrapassar o uso pontual de corredores industriais abandonados.
A operação perto de Kupiansk foi classificada como um sucesso tático por uma equipe liderada pelo analista militar Franz-Stefan Gady, de Viena, com base em pesquisas de campo na Ucrânia. A avaliação citada pelo Times é de que a ação desacelerou o avanço russo, mas não o interrompeu completamente. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, também afirmou que a operação contribuiu para a defesa da cidade, embora os combates na região continuassem.
Autor: Gazeta do Povo








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