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Urbanização prejudica a qualidade do sono; entenda – 13/07/2026 – Equilíbrio

Viver em um ambiente urbano pode contribuir para o desenvolvimento de distúrbios do sono, uma vez que a iluminação artificial e a poluição sonora interferem diretamente nos mecanismos biológicos.

Para entender até que ponto a urbanização é hostil ao descanso noturno, a reportagem conversou com Alexandre Pinto de Azevedo, psiquiatra e coordenador do Programa de Transtornos do Sono do IPq (Instituto de Psiquiatria) do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), Lucio Huebra, neurologista e médico do sono da ABS (Academia Brasileira do Sono), e Luciana Palombini, pneumologista e pesquisadora do Instituto do Sono.

Os especialistas responderam às seguintes perguntas:

O problema é individual ou a urbanização moderna prejudica a qualidade do sono?

A boa qualidade do sono depende de questões internas individuais e de estilo de vida, mas sofre importante influência de fatores ambientais, como iluminação do quarto e climatização, bem como do processo de urbanização.

As grandes cidades operam com excesso de estímulos e condições inadequadas para o relaxamento e o sono, como ruído, luz artificial, tráfego intenso, calor urbano e poluição do ar. Isso pode elevar o estresse e a ansiedade, com prejuízo à qualidade do sono. É por isso que o sono deve ser encarado como uma questão de saúde pública e pauta importante para o planejamento urbano.

Como a poluição sonora e a iluminação artificial interferem no relógio biológico?

A OMS (Organização Mundial da Saúde) reconhece o ruído ambiental como fator associado a distúrbios do sono e recomenda controle à exposição sonora noturna. Barulho de carros, motos e buzinas mantêm o sistema nervoso em estado de alerta, favorecendo a ocorrência de microdespertares, o que pode gerar estresse e dificuldade de memória e concentração.

Quanto à iluminação, o relógio biológico humano foi moldado para receber luz intensa durante o dia e escuridão à noite, e isso funciona como pista para funções biológicas alternantes. Quando a noite urbana permanece iluminada —por postes de luz, LEDs, painéis, vitrines e telas—, há maior risco de atraso do ritmo circadiano, supressão parcial da liberação da melatonina endógena, dificuldade para adormecer e potencial piora da qualidade do sono.

O cérebro não se acostuma ao barulho?

Há uma habituação subjetiva. A pessoa pode achar que se acostumou aos ruídos, mas isso não significa ausência de resposta fisiológica cerebral, uma vez que o estímulo está lá.

Essa adaptação se dá às custas de estresse, irritabilidade e prejuízos cognitivos. Há evidências de que o corpo pode reagir com aumento da frequência cardíaca, elevação transitória da pressão arterial e liberação de cortisol.

O que é pior, som intermitente ou ruído contínuo?

Sons intermitentes tendem a ser reconhecidos como mais perturbadores porque o cérebro detecta variações sonoras como potenciais sinais de alerta. Motos, buzinas e sirenes produzem picos acústicos que podem induzir o despertar durante o sono, provocando também mudanças no estágio do sono e respostas cardiovasculares transitórias.

Existe um limite de ruído seguro para o sono?

Existe uma ideia geral de que o ideal não deve ultrapassar 35 decibéis. Barulho acima de 40 decibéis pode causar prejuízos ao sono. Essa sensibilidade, contudo, varia de pessoa para pessoa.

Dormir mal é fator de risco para doenças e declínio cognitivo?

Sim. Noites mal dormidas aumentam o risco de episódios de infarto e AVC (acidente vascular cerebral) e impactam também a saúde mental, favorecendo quadros de depressão e ansiedade.

Também é fator de risco para demências e pode causar problemas cognitivos imediatos, com piora da concentração e prejuízo da memória de curto prazo. A situação pode ser ainda mais danosa para crianças em fase de maturação cerebral e idosos, por apresentarem capacidade de processamento já reduzida.

O sono ideal apresenta três aspectos: qualidade adequada, quantidade suficiente e regularidade estável.

Para ter boas noites de sono é preciso avaliar os níveis de exposição a telas, outras fontes de luz e ruídos e fazer os ajustes necessários. A recomendação é reduzir os estímulos uma hora antes de dormir, no mínimo. O ideal é que o ambiente esteja escuro e silencioso. Nas grandes cidades, janelas antirruído e protetores de ouvido ajudam a bloquear o barulho externo.

Mudanças no estilo de vida, com prática regular de atividade física, controle do estresse e alimentação adequada também contribuem para um sono de qualidade. Outra dica é evitar usar a cama para fazer refeições ou trabalhar, assim o cérebro poderá entender que cama é lugar para dormir.

Autor: Folha

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