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Vinho chileno: Veja dez tintos que merecem atenção – 28/09/2026 – Isabelle Moreira Lima

Sabe aquela história de que a gente não valoriza o que tem? Acho que é o caso da cabernet sauvignon —ao menos para nós, bebedores brasileiros. Encontramos tantas e tão boas garrafas feitas com essa uva por aqui que acabamos menosprezando e escolhendo algo diferente.

Entendo também que ela é vítima do pêndulo da moda. Já foi a queridinha do mercado, quando todo mundo queria um vinho mais encorpado, na era Parker. Mas desde que começou a onda dos vinhos leves, frescos e fáceis de beber, foi entrando num ostracismo desagradável.

Um engano, claro, porque frescor é uma das características da cabernet sauvignon. O problema é quando o vinho feito com ela fica enclausurado por tempo demais em barrica nova, uma moda dos anos 2000, e incorpora mais tanino, ganha mais músculo e fica, sim, potente demais.

De origem francesa, a uva mais plantada do mundo demora a amadurecer e precisa de calor. Quando isso acontece e o vinho é feito com atenção e sem excessos, fica bom demais. Por aqui é fácil de achar esses vinhos pela nossa proximidade comercial com o Chile, que fez da uva um de seus ícones.

A versão chilena costuma ter um sabor frutado e direto e não precisa de tanto tempo em garrafa para ser agradável como alguns franceses. Pode ter toques de ervas, chocolate e até uma nota mentolada, além da clássica nota de cassis, misteriosa para os brasileiros já que não temos essa fruta (mas vale pensar no licor e nas geleias que temos no mercado). Há muita textura e taninos, além de uma acidez que nos faz salivar.

Pensando nisso tudo, reuni alguns exemplares de cabernets feitos no Chile e convidei o consultor de vinhos Eduardo Milan e a comunicadora especializada em vinhos Pri Matta para prová-los comigo. Fomos ao Ráscal do Conjunto Nacional, que tem bom serviço de vinho. Ao analisar os rótulos, percebemos que havia ali três níveis: os de entrada, mais amigos do bolso; os intermediários, de até R$ 200; e os que custam mais de R$ 200. A feliz conclusão é que há boas escolhas nos três níveis.

Mais barato da primeira seleção, o Casillero del Diablo Reserva 2022 (R$ 44 no Hirota) é o que tem mais “cara de cabernet”: tem corpo, tanino e um toque herbáceo que é bastante tradicional. O Emiliana Adobe 2023 (R$ 79 na Vino Mundi) é o que encanta mais rapidamente, mostra bastante fruta madura e uma doçura final (que pode agradar uns e afastar outros).

Já o Miguel Torres The Green Road 2022 (R$ 69 na Degusti) é a dica mais certeira para quem quer estudar e aprender sobre a uva e não pode gastar muito: traz o caráter herbáceo e uma boa qualidade de fruta. O Perrito 2023 (R$ 99 na Enclos vinhos) traz o cassis típico, mas se distancia das demais características, leve e de textura mais lisa.

No próximo nível, de vinhos intermediários, o J. Bouchon Reserva 2023 (R$ 89 na World Wine) é o que traz melhor relação preço-qualidade do grupo: tem uma fruta deliciosa e mais adstringência, um achado. O Marqués de Casa Cocha 2022 (R$ 119 no Extra) é indicado para uma boa carne, por sua textura, com taninos mais presentes e rascantes. Traz notas de especiarias, com uma sensação de picância na boca e um toque de pimenta no nariz. É uma escolha sem erros.

Aos que gostam de uma nota mais doce, o Miguel Torres Cordillera de los Andes Rio de Rocas 2022 (R$ 159 na Vinhos Mundi) tem boa sensação de boca, com bom corpo, taninos presentes e reativos —pode ser a estrela de um churrasco. Já para quem quer uma pegada mais contemporânea, a escolha é o Santa Carolina El Pacto Cabernet Sauvignon (R$ 169 na Casa Flora), o mais fresco e tenso do grupo, uma vez que vem de altitude e não tem passagem por madeira, só por concreto.

Chegando ao patamar mais alto, o Emiliana 57 Rocas 2019, do Maipo (R$ 195 na promoção da La Pastina), biodinâmico, é o que se pode chamar de um grande vinho. Encorpado e austero, é pouco filtrado e rico em fruta —o famoso cassis, de novo— e em textura. O Tabali Talud Cabernet Sauvignon 2022 (R$ 246 na Casa Flora) é redondo, tem taninos menos marcados, é fácil de beber e bastante fluido. Mas, não se engane, é o falso simples. Se levar uma garrafa dessas para casa, dedique tempo e atenção à sua taça.


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Autor: Folha

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