Não bastasse a OMS revelar que o número de mortos pela Covid, entre 2020 e 2023, superou 22 milhões de pessoas, o triplo do que se imaginava; não bastasse saber que esta mortalidade equivale ao recuo de uma década na expectativa de vida média no planeta; não bastasse ter resistido ao discurso irresponsável dos negacionistas: os vírus voltam ao noticiário.
Primeiro, com o surto de hantavírus em um navio de cruzeiro na rota Ushuaia–Cabo Verde, tendo a bordo passageiros de várias procedências. Além de permanecer incubado por meses e de poder ser assintomático, o vírus dos Andes há tempos perdeu o selo de baixa transmissibilidade. Pacientes seguem em quarentena ou internados e o navio passa por descontaminação no porto de Roterdã.
Em seguida explode o surto de ebola na República Democrática do Congo, avançando pela vizinha Uganda, já com mais de 600 contaminados e 139 mortes suspeitas. O vírus que se espraia é variante para a qual não há vacinas.
Confirmando a visão de Donald Trump sobre saúde pública e, em particular, sobre gente pobre, a ordem da Casa Branca foi barrar a entrada no país de viajantes vindos da África Centro-Oriental e direcionar americanos contaminados para tratamento na Alemanha.
E há o aumento dos casos de Aids na Zâmbia, onde 1,3 milhão de pessoas sobrevivem graças ao uso contínuo de retrovirais. Mas, perdem acesso a eles: guiado pelas nulidades que hoje comandam a saúde dos EUA e mal lidam com o surto de sarampo, Trump decepou o financiamento do programa global de combate ao HIV. Este programa não é trunfo americano, mas fruto de longo esforço interdisciplinar, envolvendo pesquisadores e especialistas mundo afora.
O caso de Zâmbia é revoltante. Em março deste ano, divulgou-se que o governo Trump cogita excluir o país de toda ajuda HIV-Aids, caso não seja formalizado um acordo sobre minerais críticos. Acima das vidas, os interesses americanos.
Zâmbia exporta cobre e tem reservas cobiçadas de lítio e cobalto. Marco Rubio, ao afirmar que não tolera ver a China beneficiada neste comércio, circulou um termo de compromisso entre várias nações africanas, para garantir o acesso preferencial americano. Zâmbia hesita em assinar. Zimbábue e Quênia não assinaram. Como castigo, perdem assistência e fundos.
Sistemas de saúde como campo de batalha em disputas globais é tema de um interessante artigo de dois pesquisadores, Federico e Sebastián Tobar, para os Cadernos Fiocruz sobre Saúde Global e Diplomacia da Saúde.
Ao repassar o processo evolutivo da saúde pública no século passado, os autores apontam a emergência do prisma geopolítico, definido como um conjunto de relações de poder, conflitos, cooperação e dependências estruturadas, em escala internacional. É o que se vê hoje.
Não há dúvida de que crises humanitárias e desequilíbrios climáticos geram situações de risco, do ponto de vista epidemiológico. No entanto, o que se promove são guerras e conflitos insolúveis, com deslocamentos humanos forçados, pauperização e desnutrição extremas, degradação ambiental.
Mais perverso do que tudo isso é ver que a ajuda devida às nações pobres depende de que elas franqueiem riquezas naturais às potências. É a exploração colonial repaginada, na era da IA.
Parece que o mundo pouco aprendeu com a Covid. Na geopolítica atual, viver ou morrer tornou-se mero ativo estratégico.
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Autor: Folha








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