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Cérebro: o que ativa o sistema de recompensa e dá prazer – 21/07/2026 – Equilíbrio

Comer uma comida gostosa, ouvir música, praticar exercícios, fazer sexo, contemplar a natureza ou ajudar alguém parecem seis experiências muito diferentes. No cérebro, porém, todas acionam o sistema de recompensa e produzem formas distintas de prazer. Cada uma ativa circuitos e substâncias diferentes, com efeitos que vão da euforia ao relaxamento.

O prazer surgiu como um mecanismo evolutivo para aumentar a chance de as pessoas repetirem comportamentos importantes para a sobrevivência e para a vida em sociedade, afirma Diogo Haddad, neurologista e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

“O prazer funciona como um sinal biológico dizendo ao cérebro que aquela experiência foi benéfica e merece ser repetida”, afirma. Além de gerar bem-estar, ele ajuda a consolidar memórias e orientar decisões futuras.

Embora a dopamina seja popularmente conhecida como a “molécula do prazer”, essa definição é uma simplificação, afirma Haddad. O neurotransmissor está mais relacionado à motivação, à expectativa e ao aprendizado do que ao prazer propriamente dito.

A sensação de prazer envolve também outras substâncias, como opioides endógenos, serotonina, endocanabinoides e ocitocina.

Para Normando Guedes, neurologista e professor da Afya Brasília, a ciência já não fala em um único prazer, mas em uma família de estados positivos. Alguns são intensos e passageiros; outros, suaves e duradouros.

No Dia Mundial do Cérebro, celebrado nesta quarta-feira (22), a ciência ajuda a entender por que essas seis experiências acionam os gatilhos do prazer, e por que o órgão aprendeu a nos recompensar por elas.

Comida

A alimentação ativa intensamente o sistema de recompensa porque está diretamente ligada à sobrevivência, afirma Jorge Moll, neurologista, neurocientista cognitivo e pesquisador do Idor (Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino).

Nesse processo, entram em ação a dopamina, que estimula a busca pelo alimento, e o sistema opioide endógeno. Esse conjunto de substâncias produzidas naturalmente pelo organismo, como as endorfinas, está relacionado à sensação de prazer quando a recompensa é obtida.

Sexo

Assim como a alimentação, o sexo ativa intensamente o sistema de recompensa. Segundo Moll, isso ocorre em parte porque a atividade sexual, do ponto de vista evolutivo, está ligada à reprodução e à preservação da espécie.

A experiência envolve tanto a dopamina, relacionada ao desejo e à motivação, quanto o sistema opioide endógeno, associado ao prazer. A ocitocina, conhecida como “hormônio do amor”, também ganha importância quando há vínculo afetivo, por fortalecer a conexão entre as pessoas.

Música

A música ativa o sistema de recompensa de uma forma diferente das demais experiências. O cérebro tenta prever continuamente qual será a próxima nota ou como a melodia vai continuar, segundo Guedes. Quando a música confirma ou surpreende essa expectativa de maneira agradável, surge a sensação de prazer.

Moll acrescenta que a música também ativa o sistema opioide e pode provocar respostas físicas, como os arrepios —reação que aciona as mesmas regiões cerebrais de um prazer intenso e imediato.

Diferentemente da comida e do sexo, a música não tem uma função direta para a sobrevivência, observa o neurologista. Ainda assim, é capaz de produzir intenso prazer e fortalecer o senso de pertencimento. Uma das principais hipóteses é que ela tenha surgido nos rituais coletivos dos primeiros hominídeos, em que cantar ou tocar em sincronia ajudava a reforçar os vínculos sociais.

Exercício físico

Ao contrário da comida e do sexo, o exercício costuma ser recompensador apenas depois do esforço. Durante a atividade há dor e desconforto. O cérebro chega a pedir para parar, e o bem-estar só vem quando o treino termina.

A sensação de leveza e calma após a atividade se deve principalmente a moléculas produzidas pelo organismo, ligadas ao sistema endocanabinoide e a opioides endógenos, afirma Guedes. Essas moléculas agem em áreas do cérebro associadas ao bem-estar.

A prática também estimula a produção de BDNF, proteína ligada à plasticidade cerebral. Isso ajuda a explicar por que o exercício é hoje uma das intervenções mais bem documentadas para depressão, ansiedade, insônia, dor crônica e perda de memória, acrescenta Guedes.

Moll destaca outros mecanismos. As endorfinas —opioides produzidos pelo próprio corpo— são liberadas durante e depois da atividade. Elas respondem por boa parte da sensação de bem-estar que surge com o fim do esforço.

O exercício leva ainda à liberação de moléculas conhecidas como exercinas, produzidas pelos músculos e capazes de atuar em diferentes órgãos, inclusive no cérebro, com efeito até de retardar o envelhecimento, diz Moll. O especialista destaca também um componente psicológico, a sensação de realização por cumprir um objetivo.

Tempo na natureza

O contato com ambientes naturais produz um tipo de prazer diferente daquele provocado por comida ou sexo. A natureza reduz a atividade de áreas cerebrais relacionadas ao estresse e diminui a ativação do sistema nervoso simpático, responsável pelas respostas de alerta, segundo Haddad.

Ao mesmo tempo, aumenta a atividade do sistema nervoso parassimpático, ligado ao relaxamento, à redução da frequência cardíaca e à sensação de calma. Os estímulos visuais e sonoros tendem a ser mais previsíveis e menos competitivos do que no ambiente urbano. Isso reduz a sobrecarga cognitiva e permite um descanso dos sistemas de atenção.

Atos de generosidade

Ajudar alguém também ativa o sistema de recompensa. Estudos mostram que dar um presente ou fazer o bem desperta as mesmas áreas cerebrais envolvidas quando recebemos algo, segundo Guedes.

Além disso, a generosidade parece reduzir a atividade da chamada rede de modo padrão (default mode network), ligada à ruminação e aos pensamentos voltados para si.

Moll destaca que esse tipo de recompensa também envolve mecanismos relacionados à cognição social e à ocitocina, hormônio associado aos vínculos interpessoais. “É um prazer que não vem de adicionar uma sensação, mas de diminuir o ruído dos próprios pensamentos”, resume Guedes.

Autor: Folha

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