Grande parte dos Estados Unidos e da Europa tem enfrentado um verão de calor extremo.
Cientistas alertam que temperaturas extremas como essas tendem a se tornar o “novo normal” nessas regiões.
Na França, estima-se que mais de 2.000 pessoas morreram em decorrência da onda de calor recorde do fim de junho. Na Inglaterra e no País de Gales, estima-se que mais de 2.700 pessoas possam ter morrido em decorrência das sucessivas ondas de calor registradas desde maio.
Nos Estados Unidos, pelo menos 44 mortes associadas ao calor foram registradas durante o fim de semana do feriado de 4 de Julho, quando o país enfrentou altas temperaturas.
O Brasil também tem enfrentado episódios de calor extremo. No fim de 2025, por exemplo, uma onda de calor levou o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) a emitir alerta vermelho para áreas do Centro-Sul do país, após vários dias de temperaturas muito acima da média e recordes em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.
Para muita gente, esse aumento das temperaturas foi um choque. É uma nova realidade à qual as pessoas precisam se adaptar, à medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes e intensos por causa das mudanças climáticas.
“As pessoas não percebem que este não é o mesmo calor de dez anos atrás. Hoje, ele é mais intenso porque, em muitos lugares, as temperaturas já não caem durante a noite”, disse Jennifer Marlon, pesquisadora da Universidade de Yale, nos EUA, que estuda os impactos do calor extremo, em entrevista à BBC.
Nosso organismo depende das temperaturas mais amenas durante a noite para se recuperar do calor acumulado ao longo do dia.
Mas, para uma cidade dos EUA em particular, o calor intenso não é novidade. Há anos, autoridades de Phoenix, no Arizona, vêm adotando medidas para reduzir as mortes provocadas pelas altas temperaturas. A estratégia parece estar dando resultado e pode servir de modelo para outras partes do mundo.
O condado de Maricopa, onde fica Phoenix, registra algumas das temperaturas mais altas dos EUA. Por isso, está na linha de frente das iniciativas para proteger a população do calor extremo, com programas que oferecem acesso a centros de resfriamento e aparelhos de ar-condicionado gratuitos.
Phoenix foi a primeira cidade do mundo a criar, em 2021, o cargo de diretor de calor extremo. “Temos a vantagem de saber que o calor extremo será um problema todos os anos. Mas ele está se tornando cada vez mais grave e também mais previsível em comunidades de todo o mundo”, disse Nicholas Staab, diretor médico do condado de Maricopa, à BBC.
Os esforços do condado para reduzir as mortes provocadas pelo calor têm dado resultado nos últimos anos. Depois de atingir o pico de 645 mortes em 2023, o número caiu para 405 em 2025. Muitos especialistas atribuem parte dessa redução às mudanças nas políticas públicas.
Grande parte das iniciativas se concentra em ampliar o acesso ao ar-condicionado, já que muitas das vítimas eram pessoas de baixa renda ou em situação de rua. Idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas exigem atenção especial durante as ondas de calor.
O condado mantém centros climatizados abertos ao público de forma contínua. O horário de funcionamento desses espaços também foi ampliado e, em alguns casos, eles operam 24 horas por dia, oferecendo abrigo para quem precisa sair das ruas e escapar do calor.
Outro programa oferece reparos ou a substituição de aparelhos de ar-condicionado para moradores que atendem aos critérios de elegibilidade dessas políticas públicas.
“O mundo tem muito a aprender com o condado de Maricopa”, afirma Marlon, da Universidade de Yale.
Mas ainda não há certezas sobre o impacto dessas medidas, e a tendência de queda das mortes pode não se manter.
Até 11 de julho deste ano, o condado de Maricopa havia registrado 23 mortes relacionadas ao calor, enquanto outras 282 ainda estavam sob investigação. Se todos esses casos forem confirmados, o total poderá superar o registrado no ano anterior.
A estratégia do Arizona pode ser reproduzida em outros lugares?
Ladd Keith, diretor da Iniciativa de Resiliência ao Calor da Universidade do Arizona, disse à BBC que outras cidades poderiam seguir o exemplo de Phoenix e criar o cargo de responsável pelas políticas de calor extremo, encarregado de coordenar iniciativas e a comunicação entre diferentes órgãos do governo.
“É fundamental que alguém seja responsável por essa questão. Se não for responsabilidade de ninguém, ninguém vai enfrentá-la”, disse Keith à BBC.
Com coordenação e planejamento, cidades de outras regiões dos EUA, menos acostumadas ao calor intenso, também poderiam criar centros climatizados, diz Jennifer Marlon, da Universidade de Yale.
Mas, para isso, é preciso que a população e os governos reconheçam a gravidade do problema e entendam que ele não é passageiro, afirmam os especialistas.
As ondas de calor se tornaram mais frequentes, mais intensas e mais duradouras em razão das mudanças climáticas provocadas pela atividade humana. Desde o início da era industrial, a temperatura média global já subiu mais de 1,1°C e continuará aumentando por algum tempo, mesmo que os governos adotem cortes expressivos nas emissões de gases de efeito estufa.
É essencial que cidades e governos entendam que o calor extremo não é apenas um problema de saúde pública, mas também de infraestrutura e da economia, segundo os especialistas.
Estradas continuarão a sofrer deformações e voos seguirão sendo afetados pelo calor extremo, alerta Marlon.
Acima de tudo, diz Keith, da Universidade do Arizona, é fundamental que as pessoas compreendam que esse calor intenso veio para ficar.
“Precisamos deixar de planejar com base no calor que enfrentamos no passado e começar a nos preparar para o calor que teremos nos próximos cinco a dez anos”, afirma. “Se as pessoas acham que está ruim agora, vai ficar mais quente e por mais tempo. Os recordes de temperatura continuarão sendo quebrados, praticamente todos os anos, em diferentes partes do mundo.”
Autor: Folha








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