Se a cena boêmia paulistana parece hoje consolidada, a coisa não era exatamente assim nos selvagens e deliciosos anos 1990 —época em que a mixologia preferia clássicos a autorais e cervejas diferentonas eram as importadas do pub, e do Frangó.
A cada semana, meia dúzia de novos bares se instalavam na Vila Madalena; e outros tantos, comandados por aventureiros descuidados, fechavam.
Diante de um cenário com muito a ser explorado, surgiu o bar Original, em Moema, com uma proposta de resgate da alma botequeira clássica, pautada no atendimento atencioso, petiscos tradicionais e um chope muito bem tirado (da Brahma).
Tanto no menu como no ambiente, era inegável desde o início uma mistura de inspiração e homenagem aos botecos do Rio de Janeiro, vizinho com histórico boêmio muito mais antigo —herança de uma cidade que foi a capital do país.
Mas os ladrilhos hidráulicos da casa avarandada já estavam ali desde o início, na casa que funcionou desde os anos 1940 como uma venda de secos e molhados, e que caiu na graça dos sócios do novo bar, lembra Ricardo Garrido, um deles.
E um chope bem tirado é uma arte que não deve ser minimizada —com o colarinho no tamanho ideal (três dedos, ou dois, se o sujeito tiver a mão bojuda), numa limpa e cristalina caldereta e sem o copo previamente congelado (não sei quem inventou que o copo tem que passar pelo congelador antes).
Em tempos pré-cervejarias artesanais, guias, revistas e afins elegiam como o melhor bar de cervejas do ano justamente aquele que dominava a arte de tirar o chope. E o Original estava invariavelmente no pódio, assim como o Léo, na região central, e o Elídio, na ZL —bares que também foram inspiração na criação do Original, no cardápio e no atendimento.
Garrido lembra que o primeiro dia do bar, 29 de agosto de 1996, teve uma mistura de caos e orgulho —o que me lembra a temporada final no restaurante de “O Urso”, guardadas as devidas proporções.
“Abrimos numa sexta-feira, tínhamos uma equipe minúscula, sem um processo de atendimento organizado e estoques suficientes para atender uns poucos amigos. O computador e o sistema de pedidos não ficou pronto, então fechávamos as contas na mão. Não esperávamos muitos clientes, mas às 18h já tinhamos fila de espera, e nem sabiamos como organizar essa fila… Foi uma correria cheia de improvisos, surpresas, mas com muita vontade de cuidar de quem veio nos conhecer”, conta Garrido.
Curiosamente, ou não, quando os bares secretos começaram a virar modinha, o Original abriu um especializado em cervejas, o Câmara Fria. No início, as torneiras eram dominadas por marcas da Ambev, com destaque para a mineira Wäls. Hoje, artesanais de São Paulo ganham espaço na taplist, como Dádiva, Japas e Tarantino.
O Original foi a pedra fundamental para o grupo Cia. Tradicional de Comércio, que se estabeleceu com várias casas em São Paulo que misturam prestígio e popularidade, como Astor (e Subastor), Pirajá, Bráz Pizzaria e Lanchonete da Cidade. Mas se os outros bares mostraram sua vocação para rede, o primeiro deles permanece comum e único, Original.
Original – R. Graúna, 137, Moema, região sul, @baroriginal
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Autor: Folha








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