O percentual de empresas em dívida ativa quase triplicou em seis anos, de acordo com levantamento da proScore, bureau digital de crédito, divulgado com exclusividade pela Gazeta do Povo.
O estudo mostra que a parcela de empresas ativa inscritas no cadastro, que reúne os tributos e demais valores devidos que não foram pagos no prazo, saltou de 7,3% em 2020 para 20% em 2026. Os empresários individuais puxaram o aumento, com alta de 374% nas inscrições entre 2020 e 2026.
Os ramos mais afetados dependem diretamente de consumo, circulação de pessoas e fluxo diário de caixa. São eles:
- comércio varejista de roupas;
- restaurantes e lanchonetes;
- cabeleireiros;
- promotores de vendas.
“São negócios em que uma ruptura relativamente pequena no capital de giro pode rapidamente comprometer a capacidade de pagar fornecedores, funcionários, tributos e manter a operação”, diz a CEO da proScore, Mellissa Penteado.
Empreendedorismo sem estrutura de capital
O estudo aponta que os problemas gerados pela pandemia ainda persistem e ganham tração com a deterioração do cenário econômico. A escalada não se restringiu ao período emergencial: seguiu mesmo depois da reabertura da economia, o que indica que o ambiente econômico ainda pesa sobre negócios dos mais variados segmentos e portes.
“Há uma dificuldade estrutural de recomposição do caixa e de sustentabilidade financeira de uma parcela relevante das empresas”, afirma Penteado.
Outro fator que contribuiu para o aumento do número de empresas na dívida ativa foi a mudança no perfil dos empreendedores. A executiva aponta que muitas pessoas buscaram no empreendedorismo individual uma opção de renda.
“O problema é que abrir um CNPJ é muito mais simples do que construir uma empresa financeiramente sustentável. Parte desses empreendedores entrou em uma atividade empresarial sem estrutura de capital para suportar períodos prolongados de baixa liquidez e baixas vendas”, destaca.
É o que vem ocorrendo agora, em ritmo cada vez mais fraco. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o volume de vendas no varejo ampliado — que inclui material de construção, veículos e autopeças — cresceu apenas 0,8% nos 12 meses encerrados em junho de 2026, frente a igual período anterior.
Inadimplência empresarial bate recordes
A expansão no número de empresas inscritas na dívida ativa é só mais um reflexo da fragilidade das finanças empresariais. A inadimplência entre as empresas registra recordes. Eram 9,1 milhões nessa situação em junho de 2026, com dívidas de R$ 232,9 bilhões, de acordo com a Serasa Experian. Foi o quinto mês consecutivo de alta. O número de empresas com pendências aumentou 16,7% na comparação com junho de 2025.
O número de empresas em recuperação judicial também cresceu e chegou a 7.980 ao final do primeiro semestre de 2026. O avanço é de 8% em relação ao mesmo período de 2025, aponta o levantamento da RGF Associados, consultoria especializada em reestruturação corporativa.
Já os casos de recuperação extrajudicial passaram de 35 para 36 no mesmo comparativo, conforme o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre), mantido pela Biochi Advogados.
Selic em 14% encarece capital de giro
Os juros elevados formam o pano de fundo do avanço. A Selic, em 14% ao ano, encarece o custo do capital de giro. Empresas endividadas precisam justamente de liquidez para continuar funcionando, destacam especialistas ouvidos pela reportagem.
“Se a população não consegue ter previsibilidade de compras e acesso a bens de consumo mais acessíveis, se torna um ciclo insustentável. Ao mesmo tempo, o setor público enfrenta uma necessidade permanente de equilíbrio fiscal”, ressalta Penteado.
A executiva avalia que empresas e governo disputam o mesmo ambiente de liquidez. Por isso, também é preciso analisar com cuidado a velocidade de transferência de recursos do setor produtivo para o caixa público. A carga tributária correspondeu a 32,4% do PIB em 2025, conforme dados do Tesouro Nacional — o maior nível desde 2010.
“A arrecadação é necessária, mas não pode estrangular a base econômica que continuará produzindo, empregando e pagando impostos amanhã”, conclui Penteado.
Split payment vai afetar capital de giro
A reforma tributária já entrou em fase de implementação. 2026 é o ano de teste para a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Paralelamente, a infraestrutura do split payment está em fase de preparação. No mecanismo, o imposto sai direto da transação antes de chegar à conta da empresa. A previsão é de operação em 2027.
Especialistas estimam que o split payment afetará diretamente o fluxo financeiro das empresas. Muitas delas dependem da folga no caixa, do prazo concedido a clientes e do dinheiro que circula na economia para permanecer operando.
“Muitas companhias cresceram utilizando o ciclo entre recebimento, pagamento de fornecedores e recolhimento de impostos como parte da dinâmica do capital de giro. Quando essa lógica muda, o empresário precisa entender com mais precisão o ciclo financeiro do negócio. Quanto tempo leva para transformar venda em caixa? Qual é a margem real de cada operação? Onde estão os gargalos que consomem recursos?”, diz Dema Oliveira, CEO da Goshen Land, empresa especializada em expansão de negócios.
Para Penteado, os efeitos serão profundos. Ela lembra que um negócio que perde liquidez deixa de investir e de contratar, corta fornecedores e, em última consequência, reduz a própria capacidade futura de gerar arrecadação. “Estamos modernizando a arrecadação na mesma velocidade em que conseguimos preparar e proteger o caixa de quem produz?”, questiona a executiva.
Além disso, ela pondera que a alíquota do futuro Imposto sobre Valor Agregado (IVA) pode ser prejudiciais para muitas empresas. O percentual é estimado em 27,91% pelo Comitê Gestor do IBS (CGIBS). A alíquota será a maior do mundo considerando um levantamento da consultoria PwC que abrange 146 países.
“Em uma empresa capitalizada, isso pode ser administrável. Em uma empresa que opera com margem estreita e depende do prazo entre receber do cliente e pagar fornecedores, impostos e despesas, a dinâmica de caixa ganha outra dimensão.”
Autor: Gazeta do Povo








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