A cataia, conhecida como o “uísque caiçara”, acaba de ganhar o reconhecimento oficial como Patrimônio Cultural Imaterial do Paraná. A decisão da Assembleia Legislativa valoriza uma tradição que atravessa gerações e tem suas raízes no litoral do estado.
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Na Barra do Ararapira, comunidade isolada de Guaraqueçaba apontada como berço da planta e da receita original, o reconhecimento também abre espaço para novas discussões. Para os moradores, a conquista representa visibilidade, mas traz desafios relacionados à preservação da tradição e à valorização de quem mantém esse patrimônio vivo.
A história da bebida começou há cerca de quatro décadas com o pescador aposentado Rubens Jorge Muniz. Ele lembra que encontrou a folha no mato, sentiu o aroma marcante que lembra cravo e canela e resolveu testar na cachaça para ver no que dava.
Rubens distribuiu os primeiros litros da bebida, o pessoal aprovou e a ideia se espalhou por toda a região. O hábito de tomar o chá da folha para aliviar dores de cabeça ou no estômago já vinha de gerações anteriores, mas a mistura na bebida alcoólica transformou a rotina do lugar.
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Hoje, quem segura as pontas desse legado é o grupo Mulheres Produtoras de Cataia. Organizadas em uma associação criada em 2007, elas enfrentam uma rotina pesada na Mata Atlântica para fazer a coleta sustentável e o manejo das folhas.
A caminhada pelas trilhas até o local onde a árvore nasce não é fácil, o que fez muitas moradoras desistirem ao longo do tempo. O grupo, que começou numeroso há 25 anos, hoje conta com cinco trabalhadoras dedicadas ao processo artesanal e à seca das folhas ao sol.
Edina Aparecida Santana, funcionária da escola local e uma das produtoras da associação, explica que a receita original não leva mel ou cana-de-açúcar: é apenas a folha e a cachaça pura. Apesar disso, o grupo enfrenta dificuldades para transformar o trabalho em renda fixa.
A localização isolada e o acesso difícil fazem com que comerciantes de fora comprem folhas de terceiros a preço baixo para fabricar e vender por conta própria em outros pontos do litoral e até no estado vizinho, como em Cananéia e na Ilha do Cardoso. Essa concorrência direta derruba a venda das produtoras da Barra do Ararapira, que comercializam apenas pacotes pequenos e garrafas artesanais.
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Uísque caiçara impulsiona comércio no litoral
Mesmo distante do berço da planta, a bebida movimenta o comércio de comunidades vizinhas. Laurentino Souza, aposentado, pescador e dono do bar Akdov, na Vila do Superagui, conta que compra as folhas de jovens da Barra do Ararapira e produz a própria bebida para vender no estabelecimento.
“Eu aprendi com o senhor lá da Barra do Ararapira, que se chama Rubens Muniz. Ele foi o rei dessa ideia de hoje ter a cataia conhecida como uísque caiçara. Vendo em doses e em garrafas fechadas porque a procura está sendo boa”, relata.
Com a novidade na Assembleia, ele celebra o impacto no turismo: “Com o conhecimento do patrimônio do Paraná, fico muito grato e feliz por ela hoje ser um patrimônio”.
Para as mulheres que mantêm o saber tradicional vivo no meio do mato, o desejo é que a visibilidade do título venha acompanhada do respeito por quem realmente inventou, colhe e protege essa riqueza do litoral paranaense.
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