Para Marynna Vieira Batista, 3, a ida ao Graacc (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer), na Vila Clementino, na zona sul de São Paulo, é um passeio. Enquanto aguardava o homem-aranha conduzi-la à sala de radioterapia, a menina quis retocar o “look”. O batom escolhido combinou com o laço rosa nos cabelos.
Em maio de 2026, quando chegou ao Graacc, transferida do Hospital Municipal de Barueri, na Grande São Paulo, Marynna recebeu o diagnóstico de ependimoma de fossa posterior, um tumor maligno que afeta o sistema nervoso.
Segundo a mãe da criança, a auxiliar de cozinha Mariana Vieira da Silva, 28, ela sentia dor de cabeça forte e frequente havia mais de um mês, além de vômitos. De UBS a hospitais, nenhum médico da cidade desconfiou do quadro grave.
No total, no Graacc, foram duas cirurgias e 30 sessões de radioterapia —a última, realizada na terça (25). A reportagem acompanhou o antes e o depois do procedimento.
“Nós já tínhamos ouvido falar em câncer, mas nunca entendemos até acontecer com a gente. Costumo dizer que no Graacc o céu se abriu e foi tudo rápido. Quando chegamos, em questão de horas ela fez a ressonância e a drenagem. Era o líquido que causava compressão e as dores de cabeça. Minha filha acordou da cirurgia sem os sintomas”, conta Mariana.
O encontro de Marynna com o super-herói, na sala pré e pós-anestésica, foi envolto em alegria. Na maca, ela escolheu descer a rampa que vai até o local da sessão conduzida pelo personagem, como se estivesse numa montanha-russa.
A sala de radioterapia é decorada de acordo com o gosto do paciente. A de Marynna tinha bonecas, pelúcias, música e um “céu estrelado”. O procedimento foi feito com sedação para garantir a imobilidade e a precisão da radiação. A técnica é indicada a crianças que não conseguem ficar sozinhas e estáticas. Antes de adormecer, Marynna segurou o Algodão Doce (um bichinho de pelúcia) nos braços e “o sedou”.
A dinâmica faz parte de um conjunto de ações de humanização que o Graacc promove para tornar o ambiente acolhedor e agregar leveza ao tratamento do câncer.
No Graacc, o homem-aranha é o técnico de enfermagem Fernando Rodrigues Lacerda, 46.
“É muito gratificante [participar da ação] não só por prestar o trabalho para a cura do câncer, mas também por saber que as crianças vão sair daqui curadas, com alegria e o sorriso de orelha a orelha. Quando voltam para os exames periódicos, elas sempre nos procuram e é muito bom ver o quanto estão bem”, afirma.
Ana Paula Passarelli, 41, enfermeira líder do Centro de Diagnóstico por Imagem e de Radioterapia da entidade, auxilia na “realização dos sonhos” das crianças. Para a funcionária, trabalhar com pediatria vai além da prática. É preciso se conectar com a criança, conhecer a sua história, descobrir de onde ela vem e do que gosta.
“Se você consegue conquistar a criança e a família, 90% do seu trabalho está feito. E para isso precisa entrar no mundo dela. Então, quando dá para fazer bagunça, a gente faz. Chamamos o homem-aranha, colocamos música, compramos espuma”, diz Ana Paula.
Para a enfermeira, o profissional de saúde não deve esquecer que aquele é o um momento difícil da vida do paciente. Portanto, sua função também é levar um pouco de alegria no meio de tanta dor.
O uso de brinquedos ajuda a criança a externalizar seus medos e a compreender o procedimento. A projeção psicológica diminui o impacto da intervenção ao substituir o medo do desconhecido pela familiaridade e pelo lúdico.
“O bem mais precioso do mundo é o tempo que as crianças têm com a família, e o tempo que podemos fazer com que seja diferente para elas. Saúde não tem nada que pague. Não existe melhor recompensa do que dizer aos pais que o filho está curado, que não precisa mais de quimioterapia, radioterapia ou cirurgia”, diz Ana Paula.
Davi Meireles Barcia, 10, gosta de escrever cartas e desenhar para os profissionais que auxiliam nas sessões de radioterapia. São formas de homenagem que deixará de recordação quando estiver curado.
“Todos aqui me dão muito amor e fazem tudo para o meu bem.” O menino tem sarcoma sinovial (tipo raro e maligno de câncer que se desenvolve nos tecidos moles) no pulmão com metástase no mediastino. É acompanhado no Hospital Estadual Infantil Darcy Vargas e realiza quimio e radioterapia no Graacc.
Davi também não dispensa a música no procedimento. Segundo a cabeleireira Rosana de Sales Meirelles, 50, mãe do menino, dos sete ciclos com três sessões de quimioterapia cada, ele já cumpriu três. Da radioterapia, está na décima sessão e terá que cumprir pelo menos mais 15.
“É um momento difícil para eles e os pais, né? E o acolhimento dos profissionais nos deixa mais leves e tranquilos. E estamos bem alegres porque a médica nos disse que [o tratamento] está dando um bom resultado”, comemora Rosana.
Benefícios das ações de humanização
Carlota Vitoria Blassioli, oncologista pediátrica e responsável pela equipe de cuidados paliativos e dor do Graacc, argumenta que a humanização diminui o impacto do câncer na vida dos jovens e da família, e melhora a adesão ao tratamento.
“A distração é aliviadora. Estudos mostram que, por exemplo, quando vamos fazer uma punção por agulha, coletar o sangue, se distrairmos a criança e brincarmos com ela, a dor diminui. A presença dos super-heróis, a música, o brincar, os palhaços que às vezes vêm ao hospital, tudo isso distrai.”
“E aí o que que vem? Melhora a adesão ao tratamento, faz com que as crianças se movimentem, brinquem. Tem um impacto importante no humor. Elas ficam mais seguras e felizes. Tudo isso faz com que essa trajetória seja bem mais suave e tranquila”, explica.
Segundo a oncologista, pesquisas comprovam que o bem-estar e a qualidade de vida de crianças e adolescentes durante o tratamento oncológico impactam os índices de cura. O organismo atua de forma integrada: o equilíbrio emocional e o bom humor estimulam o sistema imunológico e fortalecem as defesas naturais do corpo.
O Graacc recebe, em média, 400 novos pacientes por ano. O acesso se dá via sistema Cross (Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde) do governo de São Paulo, do Siga Saúde (Sistema Integrado de Gestão de Assistência à Saúde), da Prefeitura de São Paulo, e pelo TFD (Tratamento Fora de Domicílio) — benefício do SUS (Sistema Único de Saúde). Esse último garante assistência financeira e logística a quem precisa de atendimento em outro município ou estado.
As ações de humanização do Graacc envolvem todo o hospital. Um dos destaques é o projeto Comfort Promise, iniciativa nascida na América do Norte e Europa que visa mitigar a dor em procedimentos com agulhas.
Em qualquer setor da instituição a equipe de saúde segue um protocolo de cinco passos.
Esse cuidado compreende em manter a criança confortavelmente no colo dos pais, aplicar anestésico prévio, utilizar técnicas de distração com músicas e brincadeiras, e oferecer uma recompensa ao final, independentemente do comportamento no processo.
Além desse protocolo, há outras frentes, como as visitas terapêuticas de cães e as intervenções lúdicas de palhaços.
Autor: Folha








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