Um medicamento não hormonal para a menopausa é uma das apostas da Bayer no mercado brasileiro, diz Adib Jacob, presidente da divisão farmacêutica da Bayer para o Brasil e a América Latina.
Em entrevista ao programa C-Level, Jacob diz que o medicamento pensado para combater ondas de calor (os chamados ‘fogachos’), distúrbios de sono e mudanças de humor decorrentes da menopausa já foi submetido à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A expectativa é que seja aprovado entre o fim deste ano e início do próximo.
O primeiro não hormonal aprovado foi o da companhia Astellas Farma, em junho, com o nome Veoza. O da Bayer chamará Lynkuet, e segundo Jacob, o produto é uma opção às terapias hormonais hoje disponíveis e descartadas.
O câncer de mama é o motivo mais conhecido para que mulheres não façam terapia hormonal (que fornece estrogênio ou progesterona por meio de comprimidos e adesivos), mas a lista também inclui câncer de endométrio, doença hepática grave, distúrbios de coagulação sanguínea, entre outros.
O preço, afirma ele, será “adequado à realidade brasileira”, visto que, segundo Jacob, quase 80% das mulheres na menopausa têm, em maior ou menor grau, esses sintomas.
Conforme o executivo, a área voltada à saúde da mulher é um dos carros-chefes da Bayer no Brasil, país que disputa com o México a liderança de mercado na América Latina.
Entre as prioridades do negócio, além da ginecologia, destacam-se as áreas de doenças cardiovasculares, oftalmologia e oncologia. Esta última é a segunda causa de mortes no país, atrás justamente das doenças do coração.
Entre as prioridades do negócio, além da ginecologia, destacam-se as áreas de doenças cardiovasculares, oftalmologia e oncologia. “Diria que, de cada dez moléculas sendo pesquisadas em humanos, cinco são ainda em câncer”, aponta Jacob.
O mercado farmacêutico brasileiro atravessa um momento de forte expansão e de profundas mudanças. O setor movimentou cerca de R$ 246 bilhões em 2025 e deve crescer mais de 10% em 2026. Para a Bayer, o executivo prevê uma alta de dois dígitos também.
Ao mesmo tempo, a indústria enfrenta a pressão dos genéricos e biossimilares, o fim da exclusividade de medicamentos importantes e uma demanda crescente por terapias inovadoras, muitas delas de alto custo.
Para Jacob, há um otimismo em relação ao mercado farmacêutico brasileiro, menos volátil a flutuações macroeconômicas, e que tem crescido a taxas muito próximas de dois dígitos na última década.
Sobre as cobranças feitas por hospitais e operadoras de saúde a respeito do alto custo de medicamentos, Jacob diz que, segundo dados públicos, medicamentos não compõem “as linhas mais relevantes do orçamento de uma operadora de saúde”.
“Dito isso, sim, eu me sensibilizo. Para mim, o que é mais importante no sistema de saúde público e privado é a sustentabilidade. Ao mesmo tempo, a inovação que a indústria está trazendo tem que chegar ao paciente”, afirma Jacob.
O executivo reconhece, no entanto, que o preço do medicamento precisa ser compatível com o benefício clínico do produto, com a compra e venda ocorrendo sob modalidades de pagamento mais modernas, para além do custo por unidade.
Entre elas, Jacob cita o compartilhamento de risco, em que é acordado com o pagador determinado nível de eficácia e, se esse nível não for atingido, o comprador não paga. Uma espécie de coparticipação, em que o pagador se compromete até um determinado valor e, dali para cima, a indústria colabora. E parcelamentos, válidos, sobretudo, para medicamentos de alto custo.
“Alguns desses produtos vão trazer a cura. Por exemplo, a gente está com um estudo muito avançado em Parkinson, onde se espera que, com uma inserção de células sadias no cérebro do paciente, você venha a curar Parkinson. Então, [não se pode comparar] com o tratamento desse paciente durante anos com uma opção muito pior, que não vai curar, que vai ser mais paliativa.”
A Austrália e alguns países europeus, diz ele, já adotam esses modelos de pagamento. Aqui no Brasil, cita um acordo em São Paulo para um medicamento para hipertensão pulmonar.
“Uma coisa chama-se custo do produto, a outra é custo do tratamento. É mais fácil avaliar o custo do produto. A caixinha custa R$ 100, mas o outro produto custava, vamos dizer, R$ 80. Mas qual é o custo do tratamento? Meu produto propicia que a pessoa volte a uma vida ativa mais rápido? Permite que não haja efeitos colaterais que [façam com que] o paciente precise de outros medicamentos? Permite que haja menos hospitalização, algo que é caríssimo?.”
Jacob coloca a pesquisa clínica entre as áreas mais promissoras sob impacto da inteligência artificial, que pode ajudar a baratear o processo de desenvolver um medicamento, que, hoje, diz Jacob, passa de US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 7,5 bilhões).
“Atualmente, um produto descoberto nos laboratórios de uma empresa, de uma universidade, até chegar ao paciente leva uma década”, diz. “Se a gente acelera a descoberta da molécula usando IA com modelos preditivos de doença e de efetividade, e acelera também os estudos clínicos no sentido de quais pacientes devemos colocar no estudo, se pode encurtar essa jornada.”
Sobre o processo de perda de patentes como caminho para ampliar o acesso a medicamentos, o executivo diz que a inovação precisa ser respeitada, com um prazo de avaliação relativamente rápido, para que a patente não chegue a seu final sem ter sido avaliada.
“É absolutamente correto que exista um período em que se possa desfrutar desse enorme investimento feito. E 20% das vendas numa empresa de pesquisa e inovação em saúde volta para inovação”, diz. “Agora, passado esse período de propriedade intelectual, é justo que genéricos cheguem ao mercado, com um custo muito mais baixo.”
Jacob diz que a Bayer tem mais de 35 projetos em desenvolvimento, em áreas como Parkinson ou terapia para restabelecer o músculo cardíaco, evitando, por exemplo, uma insuficiência cardíaca—ainda a maior causa de morte no mundo hoje.
“A vanguarda da indústria farmacêutica já foram os biológicos nos anos 1990, as terapias autoimunes, mais ou menos na década de 2000, hoje são as terapias celulares e gênicas”, afirma. “Ensinar o seu organismo a lutar contra um câncer, ou colocar células sadias que possam restabelecer a sua função motora, por exemplo, em Parkinson. Esse é um caminho que vai evoluir com enorme velocidade.”
Raio-X | Bayer
Fundação: 1863 (no Brasil, desde 1896)
Sede: Leverkusen, Alemanha
Presença: Mais de 80 países
Receita líquida global (vendas): 45,6 bilhões de euros (cerca de R$ 274 bilhões) no ano fiscal de 2025
EBITDA global: 9,7 bilhões de euros (cerca de R$ 58 bilhões) para 2025
Funcionários: 88.078 colaboradores em todo o mundo
Atuação: divisão farmacêutica, saúde do consumidor e agricultura
Principais concorrentes (divisão farmacêutica): Roche, Novartis e Janssen
Autor: Folha








.gif)












