Certas pessoas são capazes de sequestrar a conversa mais trágica, aleatória ou íntima para contar uma história pessoal ou registrar sua opinião. Isso tem até nome: narcisismo conversacional.
O conceito é bem mais antigo do que as redes sociais fazem parecer. No livro “The Pursuit of Attention” (A Busca Pela Atenção, em tradução), de 1979, o sociólogo norte-americano Charles Derber descreveu esse tipo de comportamento. Na época, a internet ainda era só um projeto militar e a atenção estava longe de ser um recurso tão valioso e escasso.
Derber aponta dois caminhos possíveis em uma conversa: o da “shift-response”, quando a pessoa muda o foco do diálogo para si quase no automático, e o da “support-response”, quando existe escuta, interesse e espaço para o interlocutor antes de compartilhar uma experiência própria.
Em outras palavras, uma conversa saudável seria como um jogo em que você joga a bola, a outra pessoa pega, segura e joga de volta. Quando alguém rouba a bola e sai correndo, a brincadeira fica chata: o papo se transforma em monólogo.
Conversas unilaterais
O excesso de estímulos deixa nosso cérebro cada vez mais disperso, sem conseguir se concentrar em uma tarefa por vez. Como se não bastasse, o ritmo acelerado em que vivemos faz com que nos acostumemos com interações rápidas e superficiais, padrão que se repete nas conversas.
Para a psicóloga e escritora britânica Audrey Tang, autora de diversos artigos e livros sobre liderança e comunicação, a chegada do iPhone 4, o primeiro com a câmera frontal, foi um marco da decadência do diálogo.
O que começou com o iPhone 4, em 2010, se agravou com a pandemia, que acelerou a digitalização da conversa: se antes a gente esperava uma resposta do outro lado num papo, como na vida real, nos habituamos de vez a conversas unilaterais.
Uma interação mediada por telas não é o mesmo que em carne e osso. Afinal, a comunicação não se dá apenas com palavras —nosso corpo também é uma linguagem.
Para o físico, escritor e astrônomo Marcelo Gleiser, autor de livros como “A Humanidade em Busca de Si” e “O Despertar do Universo Consciente” (ambos da editora Record), uma conversa de verdade só acontece ao vivo: “Uma das coisas que me preocupa é que as pessoas não se olham mais nos olhos”, disse em entrevista ao The Summer Hunter. “Quando você interage por meio de uma tela, você não está vendo a outra pessoa, mas sim uma projeção plana dela.”
Parte do poder de um diálogo presencial é nos lembrar que existe outro ser humano ali. O distanciamento provocado pelas telas alimenta o que Gleiser chama de “tribalismo radical”: quando assumimos que apenas os valores da nossa tribo estão corretos e deixamos de ter abertura intelectual e emocional para ouvir quem pensa diferente.
Conversar é competir?
Nessa lógica de “só o que é meu importa”, também há quem encare conversa como disputa. Se alguém conta que fez uma viagem para Salvador, a pessoa reforça que já visitou a cidade três vezes. Conseguiu uma promoção? Parabéns, mas o interlocutor faz questão de dizer que está lidando com as responsabilidades de um cargo melhor há tempos.
E a competição nem sempre gira em torno do sucesso. Você viveu um término horrível? O da outra pessoa foi pior. Por mais que compartilhar experiências pessoais possa ajudar e acolher alguém num momento difícil, uma disputa de tragédias acaba atropelando a empatia. O mais importante, nesse caso, seria demonstrar interesse genuíno com escuta e abertura.
Falar como autoafirmação
Nem todo mundo que monopoliza uma conversa faz isso por arrogância ou falta de educação. Algumas pessoas cresceram em ambientes nos quais criança educada era a que não falava, enquanto outras precisam gritar para serem ouvidas.
Nesses casos, trazer o assunto de volta para si pode ser uma forma de criar conexão. Há também quem fale demais por medo do silêncio, ansiedade ou nervosismo — o que não é raro quando 37% dos adultos dizem conviver diariamente com altos níveis de estresse, segundo um estudo da Gallup de 2025.
Independentemente do diagnóstico, certas coisas só se resolvem com conversa —inclusive a dificuldade de conversar. Se você conhece alguém assim (ou é essa pessoa), talvez esse comportamento diga menos sobre um indivíduo e mais sobre esse mundo frenético ao nosso redor. Antes que a vida vire um grande monólogo, ainda dá tempo de treinar essa habilidade que anda meio esquecida: ouvir.
Autor: Folha








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