Um relatório das universidades de Bristol e de Oxford, no Reino Unido, mostra que os espectadores foram expostos à publicidade de alimentos e bebidas não saudáveis, álcool e jogos de azar a cada 6,7 segundos durante os jogos da Copa do Mundo de 2026. O artigo foi publicado na última segunda-feira (21) no repositório acadêmico das instituições.
Os pesquisadores identificaram 93.409 aparições de logotipos de cerca de 27 marcas, como Coca-Cola, McDonald’s, Betano e Budweiser, nos 104 jogos do campeonato. As marcas apareceram em todas as partidas, a uma média de nove logotipos por minuto de jogo ao vivo.
As partidas somaram 172,6 horas de transmissão. Em 39,3 horas, o equivalente a 22,8% desse período, havia pelo menos um logotipo de produto considerado nocivo visível na imagem. Isso representa cerca de 23 minutos de exposição por partida.
“Foi quase impossível assistir ao futebol sem também ver grandes quantidades de publicidade de produtos não saudáveis e de risco”, afirma Raffaello Rossi, um dos autores do estudo e professor de marketing e codiretor do Centro de Pesquisa sobre Danos Relacionados a Jogos de Azar da Universidade de Bristol.
O estudo analisou apenas o sinal internacional produzido pela Fifa durante as partidas. Não foram considerados comerciais exibidos nos intervalos, anúncios antes ou depois dos jogos nem publicidade inserida pelas emissoras de cada país.
Segundo os pesquisadores, essa análise permitiu medir uma exposição mínima e comum a espectadores de diferentes regiões.
Das aparições identificadas, 65.722 (70,4%) eram de alimentos e bebidas não saudáveis. Em seguida vieram plataformas de mercados de previsão, com 9.360 (10%), bebidas alcoólicas, com 9.266 (9,9%), apostas e jogos de azar, com 6.429 (6,9%), e criptomoedas, com 2.632 (2,8%).
Para medir a exposição, os pesquisadores desenvolveram um sistema de visão computacional baseado em inteligência artificial capaz de identificar logotipos nas imagens das partidas.
Os autores dizem que a audiência do torneio ampliou o alcance da exposição. A Fifa projetou que mais de 6 bilhões de pessoas interagiram com a Copa em plataformas de televisão, streaming, mídias digitais e redes sociais.
Para Rossi, a publicidade tem influência sobre o consumo, o que ajuda a explicar os altos investimentos das empresas nesse tipo de marketing. Ele afirma que a exposição durante a Copa merece atenção por atingir crianças, adolescentes e famílias
“Essas marcas foram repetidamente associadas ao futebol, à empolgação e à identidade nacional, ajudando a fazer com que produtos potencialmente prejudiciais parecessem familiares e normais”, diz.
No caso das apostas, a associação com atletas, clubes e celebridades também pode alterar a percepção sobre os riscos do produto, segundo o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, presidente da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria).
Para ele, quando figuras públicas promovem bets, transferem parte de sua credibilidade para as plataformas e podem apresentar a aposta como uma forma de lazer ou investimento financeiro, deixando em segundo plano os riscos de adoecimento e de perdas financeiras.
A exposição frequente pode ser especialmente relevante entre adolescentes e jovens, diz Silva. Segundo ele, a repetição de anúncios pode favorecer a iniciação e a repetição das apostas, reduzir a percepção de risco e aumentar a probabilidade de comportamentos problemáticos.
A facilidade de acesso pelo celular, a disponibilidade permanente e a busca por recompensas imediatas também podem contribuir para o desenvolvimento da dependência.
Sobre os alimentos ultraprocessados, como refrigerantes e salgadinhos, a nutricionista Paula Horta, professora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pesquisadora do Gepas (Grupo de Estudos, Pesquisas e Práticas em Ambiente Alimentar e Saúde), afirma que o consumo frequente pode favorecer o ganho de peso e alterações metabólicas, como aumento da glicemia, dos triglicérides e do colesterol.
Mesmo produtos reformulados para reduzir açúcar, sódio ou calorias, como os refrigerantes zero açúcar, podem conter aditivos usados para conferir sabor, cor e textura e torná-los mais palatáveis. “Eles são extremamente palatáveis, saborosos, fazem com que a pessoa deseje comer mais e têm um efeito de saciedade menor”, afirma.
No Brasil, um estudo da USP (Universidade de São Paulo) estimou que o consumo de ultraprocessados esteve associado a cerca de 57 mil mortes prematuras em 2019, entre pessoas de 30 a 69 anos.
Já os problemas relacionados às apostas podem ultrapassar as perdas financeiras. Segundo Silva, quando o comportamento se torna problemático, pode provocar insônia, endividamento, conflitos familiares, isolamento e queda de produtividade, além de agravar quadros de ansiedade e depressão.
Nos casos mais graves, diz o psiquiatra, o problema pode ampliar o endividamento, os conflitos familiares, a vergonha, o isolamento e a desesperança. Ele afirma que a aposta não causa suicídio diretamente, mas que um comportamento de jogo problemático pode integrar uma cadeia de consequências associadas ao aumento do risco de suicídio.
Neste ano, o Ministério da Saúde ampliou de 600 para 100 mil o número de teleatendimentos mensais em saúde mental destinados a pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, diante da demanda pelo serviço. Os atendimentos são gratuitos e feitos por videochamada.
Para Rossi, da Universidade de Bristol, como a publicidade foi inserida nas transmissões da Copa do Mundo também cria um desafio regulatório. O sinal único da Fifa levou as mesmas marcas a países com regras diferentes para publicidade de álcool, apostas e alimentos não saudáveis.
Segundo ele, seria possível substituir virtualmente as placas de publicidade segundo as normas de cada país. “As leis nacionais e as medidas de proteção à saúde pública não deveriam ser contornadas simplesmente porque a publicidade está inserida em uma transmissão internacional”, afirma.
No Brasil, não há uma legislação específica para a publicidade de alimentos. Horta afirma que uma tentativa de criar regras específicas para alimentos foi feita pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em 2010, com a RDC 24, mas a norma foi judicializada e, segundo a pesquisadora, permanece em discussão no STF (Supremo Tribunal Federal).
No caso das apostas online, o Brasil começou a regulamentar o setor em 2024, quando o governo concedeu autorizações para empresas explorarem a atividade por cinco anos. Nesta sexta-feira (25), porém, o presidente Lula assinou uma medida provisória que proíbe as apostas online no país.
Autor: Folha








.gif)












