Já há vários anos, os drones se tornaram um item essencial em arsenais modernos, e a guerra na Ucrânia tem comprovado isso. Em mais de quatro anos e meio de conflito, as forças de Kiev demonstraram um grande poder de adaptação nessas tecnologias para repelir e atacar os invasores russos, mas estes também estão usando o aprendizado do campo de batalha para aprimorar drones militares, tornando-os mais eficientes e perigosos.
Uma análise publicada em setembro pelo think tank americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) mostrou como a Rússia vem modificando drones iranianos em um processo de adaptação constante, motivada pelas demandas da guerra contra a Ucrânia.
Tais modificações, tão numerosas e complexas que podem ser comparadas às mutações biológicas, visam ampliar a capacidade de vencer defesas e o poder de fogo desses veículos não tripulados.
Desde a aquisição dos primeiros drones de ataque unidirecionais desenvolvidos pelo Irã, em 2022, a Rússia tem transformado esses artefatos — chamados originalmente de Shahed e rebatizados como Geran após as modificações — em uma velocidade de semanas, em vez de anos.
O esforço industrial russo nessa área se divide principalmente entre duas grandes instalações de fabricação: a Zona Econômica Especial de Alabuga, na República do Tartaristão, e outra situada em Izhevsk, ambas localizadas no leste da Rússia europeia.
Segundo o CSIS, cada unidade adotou uma abordagem diferente para o aperfeiçoamento dos drones. Enquanto a fábrica de Izhevsk foca em acabamentos de maior qualidade, a unidade de Alabuga funciona como um laboratório mais experimental e ágil.
Em Alabuga, adaptações improvisadas no Geran, como a instalação de modems de celular presos com fita adesiva, são lançadas em combate e, ao demonstrarem utilidade, passam a ser incorporadas como padrão na linha de montagem.
Adaptações em drones do Irã visam guerra eletrônica, maior velocidade e transporte de ogivas mais potentes
Um dos focos desses desenvolvimentos é a guerra eletrônica, por meio da qual os militares utilizam interferências de rádio para bloquear os sinais de navegação dos adversários, como defesa e para realizar ofensivas.
Para superar esses bloqueios, engenheiros russos aumentaram progressivamente a complexidade das antenas dos drones.
Os modelos iniciais do Irã possuíam apenas quatro elementos. À medida que o bloqueio ucraniano se aprimorava, a Rússia respondeu com módulos de oito, 12 e até 16 elementos dispostos em arranjos geométricos avançados, multiplicando a capacidade do drone de filtrar interferências externas.
A funcionalidade dos drones também passou por uma transformação radical, com a inclusão de componentes comerciais como redes de rádio em malha (mesh networks), cartões SIM e câmeras de alta definição.
“Com isso, o Geran deixou de ser apenas uma munição pré-programada voando em direção a uma coordenada fixa. Ele passou a ser uma aeronave de ataque pilotada remotamente, capaz de permanecer em voo, observar, identificar alvos e ser redirecionada durante a missão por um operador que acompanha uma transmissão de vídeo em tempo real — uma arma fundamentalmente diferente daquela que surgiu pela primeira vez nos céus da Ucrânia em 2022”, escreveram Kateryna Bondar e Nicole Errera, autoras do relatório.

O Geran também passou a transportar cargas explosivas mais volumosas e até suportes para lançar pequenos drones adicionais, atuando como verdadeiras “naves-mães” voadoras.
As pesquisadoras do CSIS descreveram que a ogiva penetradora iraniana original, de 53,5 kg, foi substituída por ogivas russas cada vez mais potentes.
“A fábrica de Alabuga passou a produzir ogivas de quase 90 kg, equipando a variante Ъ com a unidade KOFZBCh-90, que combina fragmentação, alto-explosivo e capacidade incendiária. Izhevsk adotou uma abordagem diferente, posicionando duas ogivas BST-52 uma contra a outra na fuselagem, resultando em uma carga útil combinada de quase 104 kg, um caso raro em que Izhevsk optou por uma solução improvisada, enquanto Alabuga seguiu um caminho mais convencional”, escreveram Bondar e Errera.
Também buscando escapar do abate por aeronaves de defesa, a Rússia introduziu modelos equipados com motores a jato chineses, capazes de dobrar a velocidade de voo do drone, superando 480 km/h.
Como o corpo original de fibra de vidro não suportava a pressão mecânica gerada por essa velocidade, os projetistas remodelaram completamente a fuselagem nas versões mais recentes (como o Geran-4 e o Geran-5), adotando formatos mais parecidos com os de mísseis de cruzeiro.
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O coronel da reserva e analista militar Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, colunista da Gazeta do Povo e professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), disse em entrevista à reportagem que os quase cinco anos em guerra e a necessidade de encontrar soluções para o conflito “confere [à Rússia] maior agilidade aos processos decisórios e às políticas de incentivo à própria indústria de defesa”.
“O resultado é uma melhoria notável na capacidade de aprender com os resultados no campo de batalha e de aprimorar os armamentos ao longo do desenrolar da guerra. Diga-se que isso não acontece apenas do lado russo. Do lado ucraniano, também vale a máxima de que ‘a necessidade é a mãe da invenção’”, destacou o analista.

Gomes Filho afirmou que os drones modificaram a forma de combater e há um “antes e um depois” muito nítido relacionado à guerra na Ucrânia, no que concerne às táticas, técnicas e procedimentos de combate.
“Nesse sentido, há algumas evoluções importantes nos drones russos: eles se adaptaram às contramedidas ucranianas, receberam melhorias na navegação para resistir à interferência eletrônica, ganharam novos meios de comunicação e versões mais velozes. Também se observa uma nova gama de diferentes ogivas, o que amplia as possibilidades de emprego dos drones”, disse o analista.
As pesquisadoras do CSIS destacaram que a ameaça da Rússia para o Ocidente é o fato de essas estratégias de aprimoramento serem menos burocráticas, sem a exigência de processos convencionais que exigem anos de desenvolvimento e certificação.
“O feito da Rússia não reside em um componente específico, mas sim em sua abordagem ao modelo subjacente de produção e inovação”, afirmaram Bondar e Errera.
“Duas fábricas paralelas que competem em termos de projeto, a substituição agressiva de componentes comerciais prontos para uso, o retorno direto dos operadores aos engenheiros, a permissão para realizar modificações no chão de fábrica sem a necessidade de longos processos de requalificação e certificação, e a aceitação de que uma parcela significativa das unidades colocadas em operação será de caráter experimental” foram os trunfos citados pelas pesquisadoras.
Gomes Filho concordou com o alerta das pesquisadoras do CSIS e afirmou que o aprimoramento das capacidades militares russas – não somente dos drones – é uma grande preocupação especialmente para os europeus.
“Em uma eventual ampliação da guerra, outros países enfrentariam uma capacidade já aperfeiçoada em combate, desenvolvimento esse que não pode ser alcançado na mesma velocidade por países em tempo de paz”, disse o analista.
“Os europeus tentam superar essa disparidade aumentando sensivelmente os investimentos e fazendo com que os debates em torno do tema defesa voltem ao topo das prioridades governamentais. Esse assunto, entretanto, concorre com muitos outros temas de muito maior aderência às necessidades diárias das populações, o que torna o desafio de se priorizar a defesa muito difícil de ser alcançado”, ponderou Gomes Filho.
Autor: Gazeta do Povo








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