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Food noise: pensar em comida o tempo todo é novo fenômeno? – 14/04/2026 – Equilíbrio

Para um número crescente de pessoas, pensamentos persistentes sobre comida são como um ruído de fundo constante. Esse fenômeno vem sendo chamado de “food noise”, ou “barulho de comida”. O termo ganhou força nas redes sociais, onde usuários passaram a usá-lo para descrever uma preocupação constante com o que comem. E também chamou a atenção de profissionais de saúde.

Pesquisas buscam entender se esse comportamento representa algo diferente de conceitos já conhecidos na literatura científica. Um dos principais exemplos é o artigo publicado em julho de 2025 na revista Nutrition & Diabetes.

Apoiando-se em relatos anedóticos de pacientes, os autores estabelecem o “food noise” como “pensamentos persistentes sobre comida que são percebidos pelo indivíduo como indesejados e/ou disfóricos e que podem causar prejuízos, incluindo problemas sociais, mentais ou físicos”. Os pesquisadores, porém, recomendam novas análises para refinar essa definição, aprimorar os métodos de mensuração e avaliar estratégias terapêuticas para o manejo dos sintomas.

Apesar das tentativas de definição e da criação de métodos de mensuração, não há consenso científico sobre o conceito ou utilidade clínica. Há quem questione se o termo apenas renomeia experiências já conhecidas na psicologia e na nutrição, como ruminação, pensamentos intrusivos ou efeitos da restrição alimentar, ou se descreve um fenômeno novo. “É uma coisa novíssima e que emerge no contexto dos análogos de GLP-1”, avalia a nutricionista Marle Alvarenga.

Ao buscar o tema na literatura científica, Alvarenga encontrou pouco mais de uma dezena de estudos publicados, o primeiro deles em 2023. Em sua avaliação, isso reforça o caráter recente do conceito. Por enquanto, ela se mantém cética quanto à necessidade de caracterizar o fenômeno como uma categoria própria. “Não é garantido dizer que algo existe só porque está todo mundo falando”, afirma a nutricionista.

Restrição alimentar

Uma das explicações mais prováveis para pensamentos persistentes sobre comida está na restrição alimentar. Inanição e dietas rígidas são conhecidas por aumentar a preocupação com comida e alterar o funcionamento psicológico.

“O comer restritivo traz uma ideia que chamamos de restrição cognitiva. Você pode não estar passando fome, mas fica o tempo inteiro dizendo ‘eu não posso comer, estou com vontade, mas não posso comer, preciso me controlar’”, explica Marle Alvarenga.

Esse padrão se relaciona à cultura contemporânea de vigilância constante sobre a alimentação e o corpo. Nesse contexto, sentir fome passa a ser interpretado como falha individual, ao mesmo tempo em que há exposição constante a estímulos alimentares. “Em vez de achar que têm problemas com a comida porque têm dificuldade de gerenciar a exposição à comida, elas acham que comem demais porque pensam em comida”, analisa a especialista.

A regulação do apetite é complexa e tem bases fisiológicas. Há um mecanismo cerebral responsável por regular a fome e a disposição para comer, que funciona por meio da interação entre dois circuitos distintos: o da “fome física”, ligado às necessidades energéticas do organismo, e o do “comer por prazer”, associado ao apetite hedônico.

Pensamentos persistentes sobre comida podem refletir adaptações metabólicas à restrição alimentar ou ao emagrecimento. Quando o organismo perde peso ou enfrenta períodos de privação, há aumento de hormônios que estimulam a fome e redução daqueles que promovem saciedade, intensificando a necessidade de comer. “Isso é um mecanismo compensatório fisiológico para restaurar o equilíbrio energético, ou seja, para facilitar o reganho do peso”, explica o endocrinologista Gustavo Daher, do Einstein Hospital Israelita.

Fenômeno distinto

Essa combinação de mecanismos fisiológicos e estímulos ambientais ajuda a explicar por que certos alimentos ocupam espaço recorrente no pensamento de alguns. “A pessoa acaba pensando o tempo todo em comida”, afirma a psicóloga Fátima Vasques, do Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim), do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq-USP). “Tem muita dificuldade de parar de pensar nesses alimentos, principalmente os que a gente chama de altamente palatáveis [como ultraprocessados ricos em gordura, açúcar ou sal].”

Para Vasques, porém, esse padrão não se confunde necessariamente com outros transtornos alimentares, que têm como característica fundamental a preocupação excessiva com o próprio peso e o formato corporal. “No ‘food noise’, não há essa preocupação com o corpo, a pessoa vai em busca de recompensa para sentir prazer ou aliviar alguma coisa.”

Embora possa se sobrepor a quadros clínicos conhecidos, o fenômeno não corresponde automaticamente a um diagnóstico psiquiátrico. Em alguns casos, contudo, pode evoluir para transtornos alimentares.

Problematização da fome

Na prática clínica, Alvarenga observa que a redução do “food noise” causada pelos agonistas de GLP-1 muitas vezes vem acompanhada de uma problematização da própria sensação de fome.

Para Fátima Vasques, do Ambulim, a diminuição do ruído percebida por alguns pacientes não significa que o problema esteja resolvido. Isso porque alimentos altamente palatáveis estimulam o sistema de recompensa dopaminérgico, aumentando a atenção dirigida à comida. “Eles geram um desejo antecipatório que aumenta a motivação para comer”, afirma.

Embora reconheça que os análogos de GLP-1 podem reduzir sintomas como episódios de compulsão alimentar, o endocrinologista do Einstein afirma que os medicamentos não modificam crenças distorcidas sobre corpo, peso e comida. Tampouco promovem mudanças comportamentais sustentáveis de maneira independente.

Para a nutricionista Marle Alvarenga, o primeiro passo diante dessa queixa deveria ser acolher o paciente e discutir os fatores que podem estar por trás do problema. Quando se fala em alimentação equilibrada, não se trata apenas do que está no prato, mas também de como nos relacionamos com a comida.

Autor: Folha

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